JÁ ERA HORA

O modelo que veremos em 2022: mais limpo e menos turbulento

SÃO PAULO(texto corrigido com dados mais precisos) – Coloquem apenas dois números na cabeça: 47 e 18. Eles resumem bem o que vai acontecer na F-1 a partir do ano que vem, com o carro novo que foi apresentado hoje em Silverstone. O regulamento de 2022 já deveria ter entrado em vigor neste ano. Mas por causa da pandemia os planos foram adiados. Chegou a hora.

Já tem um tempo que a categoria discute o que fazer para tornar as corridas mais atraentes — ou seja: para que tenham mais ação, mais ultrapassagens, mais disputas, que sejam menos previsíveis. Esse carro novo apresentado hoje vem sendo desenvolvido pelo pessoal técnico da F-1 desde 2017 no túnel de vento da Sauber/Alfa Romeo. O grande drama nos últimos tempos foi o avanço dos estudos aerodinâmicos, que transformou os carros em geringonças esquisitas cheias de asas, asinhas, asonas, apêndices, aletas, túneis ocultos, canaletas e tudo que os computadores conseguiram imaginar para usar o ar como agente de estabilidade e aumento de velocidade.

A FIA e a Liberty resolveram limpar a área. Simplificar as coisas. Tornar os carros menos dependentes desse monte de coisa que só aumenta os custos e piora as disputas. Porque com tantas peças “trabalhando” o ar do momento em que ele atinge o bico até ser “expelido” pela traseira, o resultado foi um negócio que atrapalha muito quem gostaria de se aproximar do carro da frente para um duelo franco e aberto: a turbulência.

As novas asas dianteiras, por exemplo, passam a direcionar o ar para baixo do carro, e não mais para os lados. Chegaram, até, a cogitar a eliminação dessas asas — tivemos carros assim no final dos anos 70 e início dos 80, como a maravilhosa Brabham BT49 de Piquet, lembram? Os “winglets” sobre as rodas dianteiras foram colocados ali para tirar o vento das asas traseiras. Que, portanto, perdem importância nessa configuração aerodinâmica. O objetivo de todas as mudanças é muito claro: “limpar” o ar para quem vem atrás.

Asa dianteira: menos elementos, mais simplicidade

Calcula-se que hoje, do jeito que são, os carros “sujam” 47% do ar de quem vem atrás a uma distância de dez metros, contando do bico de um ao bico do outro — um espaço de um carro entre os dois. Tento explicar em outras palavras, vamos lá. Um carro de F-1, para ser eficiente aerodinamicamente, precisa usar todo o vento que recebe na cara. Os fluxos se aproximam lindamente, claros e cristalinos, passam por aqui, contornam ali, aceleram acolá, e o que temos é um automóvel grudado no chão porque as asas e seus apêndices “domaram” o vento, como Éolo.

Só que o carro que está chegando para tentar uma ultrapassagem, por conta da turbulência gerada pela maçaroca de asas & afins, perde 47% de sua eficiência aerodinâmica, porque o ar não chega “limpo” para ele. Chega, sim, todo bagunçado, fazendo voltas, redemoinhos, tufões e furacões. Resumindo: contornar uma curva de alta perto do carro da frente tira do carro a eficiência aerodinâmica e o piloto tem de pagar um dobrado para se manter na pista. Então, prefere ficar longe para: 1) não perder o controle; 2) não estragar os pneus.

Sim, os pneus também são afetados pela turbulência porque o carro de trás tende a escorregar mais, ficar mais instável, se desequilibrar, e aí quem sofre é a coitada da borracha, uma vez que os pneus são os únicos seres vivos na face da Terra que informam ao asfalto do quê foram capazes os engenheiros com suas fórmulas aerodinâmicas mirabolantes e seus motores potentíssimos.

Rodas de 18 polegadas e calotas: menos borracha, mais metal

Os novos carros reduzirão esse déficit aerodinâmico para 18% na distância de 10 metros, o segundo número informado lá no começo deste texto. Para ilustrar mal e porcamente o que isso significa, podemos dizer que se o cara que vinha atrás tinha 47% de chances de se estatelar no guard-rail se se metesse a besta de contornar uma curva de alta grudado no adversário, esse índice caiu para 18%. Quando essa distância passa para 20 metros, o equivalente a três carros, a perda de eficiência aerodinâmica hoje é de 35%. Cairá para 4%. Nada mau.

Claro que a conta não é tão singela assim. Apenas usei os números para tentar dar uma ideia de como os carros simplificados aerodinamicamente facilitarão a tarefa de buscar uma ultrapassagem, se aproximar do rival, arriscar uma manobra mais ousada. Em tese, com o ar mais limpo e a pressão aerodinâmica mais dependente do assoalho do que das asas — sim, o efeito-solo dos anos 80, Chapman era muito foda –, teremos carros andando mais próximos, pilotos tentando uma freada mais no deus-me-livre, mais ação, menos tédio.

A outra mudança mais visível é dos pneus. Hoje a F-1 usa rodas de 13 polegadas, como meu Trabant, com uma enorme massa de borracha em volta. As rodas aumentam, 18 polegadas agora, daquelas que a gente vê em Gol bolinha tunado por aí, com pneus de perfil baixo que sentem até quando se passa em cima de uma gilete deitada. Menos borracha, mais metal — o diâmetro do conjunto segue igual — e calotas para dar uma reduzida na turbulência interna. Elas são necessárias porque a área “oca” da roda, agora muito maior, tende a enlouquecer o ar que circula por essa cavidade.

Pneus de perfil baixo também tendem a deformar menos suas paredes laterais, algo que preocupa os engenheiros porque isso também afeta a aerodinâmica. Não precisarão mais pensar nisso. E são pneus que superaquecem menos.

Asa traseira cheia de curvas: rampas de Niemeyer

O carro tem um visual meio metido a futurista por causa da asa traseira com elementos cheios de curvas, como se tivessem sido desenhados por Oscar Niemeyer. Por enquanto ainda não está decidido se a asa-móvel continuará existindo. Há uma corrente que defende sua extinção. Saberemos nos próximos dias.

Com orçamentos limitados a US$ 145 milhões por ano, faz todo sentido para as equipes partirem de um modelo básico para fazerem seus carros. Usa-se menos túnel de vento — a hora de trabalho desses monumentos ao deus dos ventos é bem cara, podem acreditar — e fabricam-se menos peças. O custo de construção da baratinha será menor. O valor do martelinho de ouro, em caso de batidas, também será reduzido. Motores não mudam, pelo menos até 2025. No tanque de gasolina, a ideia é aumentar gradativamente o uso de biocombustíveis. Hoje, a taxa é de 5,75% na gasosa utilizada. Ano que vem, 10% com a adoção de mais etanol na mistura. Os carros ficarão mais pesados: passam de 752 kg de peso mínimo para 790 kg.

Isso significa que todo mundo terá carro igual em 2022? Não necessariamente. O regulamento é o mesmo para todos, impõe limites à imaginação dos projetistas, mas não impede ninguém de buscar soluções que os outros não tenham. E se ficarem todos parecidos e com desempenhos próximos, e daí? Melhor para quem assiste.

Um fato, porém, jamais poderá ser desprezado. Sempre existirá uma equipe mais bem estruturada que a outra, um engenheiro mais criativo, um piloto mais talentoso. Ainda que tudo pareça igual, é diferente. Mas é possível que tenhamos mais resultados surpreendentes, zebras mais frequentes, e que hegemonias como as da Red Bull (de 2010 a 2013) ou da Mercedes (desde 2014) não sejam mais tão comuns ou duradouras. Isso, por si, é positivo.

Sendo assim, pode vir, 2022. Estamos todos ansiosos e otimistas!

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FOTO DO DIA

Já não sei quem mandou, mas João Pessoa nos anos 60 devia ser demais… Ainda é, mas com esses carrinhos aí, não dá pra comparar.

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DICA DO DIA

Chegou pelo Twitter. Não sei como os caras fazem isso, mas é muito legal. Trata-se de Norris x Ricciardo numa volta lançada em Spielberg.

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MOTOLAND

O genial Aroeira acaba de projetar o veículo ideal para os seguidores do genocida participarem das suas “motociatas” (até para inventar palavra esses jegues são péssimos).

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SOBRE DOMINGO DE MANHÃ

O mar laranja ao fundo: volta do público, o melhor da Áustria

ITACARÉ(que dia!) – Como vocês veem, estou fora de São Paulo mezzo a negócios, mezzo a lazer. Por isso o rescaldão do GP da Áustria será menos robusto que o habitual. Até porque a corrida nem foi tudo isso, e domingo o textão estava particularmente muito… completo!

Escolhi a foto acima como mais representativa do fim de semana pela volta do público. Só para quem não entendeu o fato de na semana anterior o autódromo estar vazio no GP da Estíria: o governo austríaco tinha estabelecido muitas restrições de circulação por causa da Covid-19, que valeram até o fim de junho. A prova de domingo já foi em julho, mês em que as autoridades sanitárias começaram a relaxar as medidas de distanciamento social graças à vacinação em massa de sua população. Por isso, arquibancadas cheias. Foram 132 mil pessoas nos três dias do evento.

Agora, uma notícia de ontem, para não passar batido: o GP da Austrália foi cancelado e a F-1 está tentando arrumar alguma corrida para o lugar. A prova de Melbourne estava marcada para 21 de novembro. Pandemia, também — os australianos não querem receber muita gente de fora e pronto. Era a antepenúltima do campeonato, depois do Brasil e antes da nova etapa da Arábia Saudita. Não sei o que vão inventar. Mas a Liberty jura que 23 provas serão realizadas neste ano. Talvez seja necessário um rearranjo de datas lá para o fim do ano.

O NÚMERO DA ÁUSTRIA

50

…pódios na carreira tem agora Max Verstappen, 16º nas estatísticas ao lado de Jenson Button. Isso em apenas 128 GPs disputados.

Verstappen, claro, foi o nome do fim de semana pelo domínio, pela ampliação da liderança em cima de Hamilton, pela perfeição de sua pilotagem. Na modesta opinião deste blogueiro aqui, será o campeão. Mas, como escrevi domingo, outros pilotos acabaram sendo protagonistas que, no futuro, merecerão uma menção quando essa corrida for lembrada. Um deles, claro, Lando Norris.

Não fosse a punição por essa defesa de posição que a foto abaixo mostra, chegaria em segundo. Mas o terceiro, claro, não foi ruim. E o piloto da McLaren segue sendo o único que marcou pontos em todas as provas de 2021. Vem sendo um dos grandes destaques da temporada.

Norris x Pérez na relargada: punição tirou segundo lugar do inglês

A FRASE DE SPIELBERG

“Quando vi que era George, pensei: ah, não, qualquer um, menos ele!”

FERNANDO ALONSO
Alonso, décimo colocado: com dó de Russell

O espanhol da Alpine, na foto acima, foi o responsável pelo momento fofura do domingo. Disse que morreu de pena de Russell quando, no fim da prova, chegou na traseira do carro da Williams para lutar por um décimo lugar. Mas tem gente que não tem dó nunca…

ÁUSTRIA BY MASILI

Não dá pra não rir com a charge de hoje do nosso cartunista oficial, Marcelo Masili. Realmente foi uma pena Russell não ter feito seu primeiro ponto com a Williams, mas Alonso não tem culpa nenhuma. E foi muito gente boa com o inglês, como contei domingo. A hora de Jorginho vai chegar. E se não der para pontuar com a Williams, tudo bem. O menino tem bastante tempo pela frente, e com carros melhores na mão. Porque ele não será obrigado a carregar carroças nas costas a vida inteira.

Para quem perguntou nas lives, já que não voltamos ao assunto nem nos vídeos nem aqui por escrito, aconteceu, sim, a reunião da FIA e da Liberty com fabricantes de motores para começar a falar sobre 2025. Foi sábado. Porsche e Audi, que no fundo são a mesma coisa — ambas pertencem à Volkswagen –, foram convidadas. Juntaram-se a Ferrari, Red Bull (que assumirá os motores Honda), Mercedes e Renault.

Parece que a conversa foi bem animada. A Audi está saindo da Fórmula E no fim desta temporada. Pode ser que apareça na F-1 no futuro, se o grupo alemão concordar com o modelo de motorização que será adotado. E qual será? Basicamente, um uso mais generoso de eletricidade nas unidades de potência e adoção de combustíveis sintéticos, “verdes”, que não poluem. Tudo para a F-1 ficar bem na fita.

GOSTAMOS & NÃO GOSTAMOS

GOSTAMOS da corrida de Carlos Sainz (abaixo), que graças às punições aplicadas em Sergio Pérez conseguiu o quinto lugar na prova, depois de ser eliminado no Q2 na classificação. Foi uma das melhores apresentações do espanhol com a Ferrari. Largou com pneus duros e se segurou até a volta 49 para fazer sua única parada. Na parte final da corrida, com pneus melhores que os outros, passou bastante gente para marcar pontos importantes no Mundial.

Sainz: quinto lugar na base da estratégia

NÃO GOSTAMOS da atuação acidentada de Sergio Pérez (abaixo). Meio que jogado na brita por Norris no início da corrida, perdeu várias posições e resolveu descontar a raiva em Leclerc na parte final da prova. Acabou tomando 10 segundos de punição e perdeu o quinto lugar para Sainz por isso (em sexto, o espanhol se aproximou do mexicano e levou por 0s771). Depois, pediu desculpas ao monegasco.

Pérez: sorrisos só antes da corrida
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LOLE

ITACARÉ – De Carlos Reutemann guardo duas lembranças da infância bem claras. Em 1972, numa quinta feira, Interlagos lotado, Emerson com o carro preto de suspensão quebrada, Lole de carro branco ganhando recebendo a bandeirada com o braço erguido. Torci para ele, porque o carro do meu irmão no autorama era o preto do Emerson e o meu era o outro, embora não fosse branco nem tivesse frente integral, aquela coisa linda da Brabham.

A outra é de 1977 em Buenos Aires, no aeroporto de Ezeiza. Voltávamos para casa — pai, mãe, irmãos — e Reutemann estava embarcando para São Paulo no mesmo avião para disputar o GP do Brasil. Meu pai ficou excitadíssimo e quis que os três filhos tirassem fotos com ele. Maurício e Fernando tiraram. Eu, tímido e enfezado com aquela tietagem, nunca gostei, fiz birra e não quis.

Lole se foi hoje, aos 79 anos. Um campeão sem título, o maior argentino nas pistas depois de Fangio. Todo respeito a um dos grandes.

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AUSTRÍACAS (3)

Verstappen: quinta vitória no ano, três seguidas e título à vista

SÃO PAULO(fim de papo) – Depois do GP do Azerbaijão eu tinha dito, ou escrito, ou pensado, sei lá, que as três provas seguidas na França e na Áustria iriam nos dizer o que aconteceria neste Mundial. Pois bem. Verstappen ganhou as três — a última delas hoje, com enorme facilidade. Nessas três corridas, o holandês da Red Bull somou 77 pontos. Hamilton, vice-líder do Mundial, fez 49. A Red Bull acumulou 112. A Mercedes, 94.

Acabou.

Isso significa que o campeonato será chato, ainda com 14 etapas pela frente? Claro que não. Primeiro, porque meu prognóstico pode estar errado, é óbvio. Segundo, porque a gente está falando de Mercedes e Hamilton, e não de Minardi e Fisichella.

Tem muita coisa pela frente, argumento irrespondível. Mas tudo indica que reverter o quadro, neste momento, é tarefa hercúlea que, se for cumprida pela Mercedes, representará uma virada das mais épicas da história. A hora é da Red Bull e de Max. Cinco sapatadas seguidas — o time austríaco venceu as últimas cinco provas — abalam qualquer um. E tem 2022 pela frente. A Mercedes promete levar algumas novidades para Silverstone, próxima corrida do campeonato. Talvez seja sua última cartada. Se não der certo, melhor será pensar no ano que vem, com carros muito diferentes — oito pneus, dois lugares e periscópio.

(Piadinha, antes que alguém pergunte se é verdade.)

Hamilton, quarto colocado: esperança nos upgrades da Mercedes

Sem chuva, com temperatura amena e sol nas montanhas da Estíria, Verstappen ganhou o GP da Áustria com tranquilidade, como se previa. Deu-se ao luxo de fazer duas paradas, inclusive. Por isso a diferença para Bottas, o segundo colocado, foi de “apenas” 18 segundos. Coloquem mais uns 20 aí para ter uma noção mais clara de como foi fácil. Max fez o segundo pit stop apenas para garantir a volta mais rápida e seu ponto extra, que nunca se sabe quando será preciso. E também para evitar riscos de um furo maluco, como em Baku.

Foi a 15ª vitória da carreira do holandês e quinta neste ano. Pela primeira vez ele fez o que se chama de Grand Chelem: pole, vitória, melhor volta e todas elas na primeira colocação. Um domínio absoluto. “Foi delicioso”, resumiu o piloto, diante de uma massa de torcedores pintados de laranja que levaram de volta o público aos autódromos definitivamente: 132 mil pessoas nos três dias de evento. Maravilha. Todos vacinados e testados. O mundo civilizado é bem legal.

Torcida holandesa em Spileberg: todos vacinados e testados

Foi também o 50º pódio de Verstappen, o que o coloca em 16º nas estatísticas da F-1 ao lado de Jenson Button. Ele tem agora 182 pontos na classificação, contra 150 de Hamilton. Lewis disse que perdeu um segundo lugar “fácil” por conta de uma quebra no assoalho lá pela 29ª volta, quando passou numa zebra alta na curva 10. Seu carro começou a perder rendimento, quase meio segundo por volta, e ele acabou sendo ultrapassado por Bottas na 52ª e por Norris na 54ª. Fez uma segunda parada para garantir — os pneus estavam acabando — e terminou em quarto.

O inglês ainda não jogou a toalha. “Eles trouxeram coisas novas para essas corridas e a gente, não. Mas vamos ter alguns ‘upgrades’ para Silverstone. Vamos ver o que vai acontecer, porque precisamos de mais performance.” A Mercedes promete investir alguns trocos ainda no carro de 2021. “Vamos voltar fortes na próxima, vocês vão ver. Vamos fazer 1-2 e explodir todo mundo”, prometeu Pebolim Wolff, tentando dar uma animada na equipe. Como disse acima, se der certo na Inglaterra, quem sabe… Mas se não der, tchau, 2021.

Bottas, animadíssimo no pódio: prejuízo menor para a Mercedes

Bottas e Norris fecharam o pódio no Red Bull Ring, com histórias ligeiramente diferentes na corrida. O finlandês ficou na dele em quarto desde o início da prova, que teve um breve safety-car por conta do abandono de Ocon, atingido por Giovinazzi na primeira volta. Na quarta, na relargada, Pérez foi para cima de Norris, que lhe deu um chega-pra-lá e acabou sendo punido. Checo caiu para décimo. Achei exagerada a punição. Christian Buziner, chefe da Red Bull, disse o mesmo — ainda que a vítima tenha sido seu piloto.

O pênalti de 5 segundos para Lando foi informado na 20ª volta e na mesma hora ele foi ultrapassado por Hamilton, que assumiu o segundo lugar. Norris pagou a infração no pit stop, na 31ª volta. Bottas parou junto com ele e, assim, ganhou a posição. Hamilton parou na 32ª. Verstappen, que já tinha 10 segundos de vantagem, na seguinte.

O pau comia de verdade lá atrás. Pérez, tentando se recuperar do prejuízo do início, se engalfinhou com Leclerc duas vezes e fez com o ferrarista o mesmo que Norris havia feito com ele. Tomou duas punições de 5 segundos e, no fim da prova, pediu desculpas ao monegasco. “Não me sinto bem em estragar a corrida de ninguém”, falou.

Pérez x Leclerc: disputa resultou em duas punições para o mexicano

O mexicano acabaria cruzando a linha de chegada em quinto, mas com os 10 segundos de multa caiu para sexto, com diferença no cronômetro de 0s771 para Carlos Sainz. O espanhol fez uma boa prova: largou em décimo com pneus duros, só fez o pit stop na volta 49 e conseguiu pontos importantes para a Ferrari com paciência e determinação.

Hamilton ia se segurando em segundo com o carro todo estropiado quando a Mercedes, na volta 48, avisou Bottas que o parceiro tinha problemas e pediu para que ele não fosse atacado. Precisando do emprego, Valtteri acatou. Mas, na volta 52, acabou sendo liberado para ser feliz. E Norris, que também havia superado o #44 logo depois, ameaçou um ataque à Mercedes #77, que acabou não acontecendo. Ficou em terceiro.

Russell segura Alonso: mais uma vez o pontinho pela Williams bateu na trave

Com tudo mais ou menos resolvido lá na frente, as atenções se voltaram para o duelo entre Russell e Alonso pelo décimo lugar. O inglês da Williams, que largou em oitavo (era nono no grid, mas Vettel foi punido e perdeu três posições), teve um começo de prova complicado, perdeu terreno, mas se recuperou bem.

Quando o espanhol da Alpine chegou nele, na volta 61, foi difícil resistir. Na 68ª, a três do final, Fernandinho passou. E foi muito gentil com o garoto. “Me senti mal quando vi que era com ele a briga pelo ponto da décima posição. Na hora, pensei: puxa, podia ser qualquer um, menos George”, disse. No fim da corrida, deu um carinhoso abraço no piloto, que continua lutando para fazer seu primeiro pontinho pela Williams. Não foi desta vez. “Quando você está brigando por um ponto, o último cara que quer ver atrás é alguém como Alonso”, devolveu a gentileza.

Na última volta, um acidente besta entre Raikkonen e Vettel (“acontece”, disseram ambos) na briga inglória pelo 12º lugar levou a direção de prova a convocar oito pilotos à torre, por terem ignorado bandeiras amarelas. Os dois que motivaram a batida foram chamados também, assim como Pérez. Tinha senha para ser atendido. Até a hora em que escrevo este brilhante relato, ninguém tinha sido punido.

Raikkonen bate em Vettel: acidente besta na última volta

Verstappen, Bottas, Norris, Hamilton, Sainz, Pérez, Ricciardo, Leclerc, Gasly e Alonso ficaram nos pontos. Destes, o único que largou com pneus macios — e por isso teve obrigatoriamente de fazer duas paradas — foi Gasly. As paradas extras de Hamilton e Verstappen não faziam parte das estratégias iniciais de ambos. A história de mudar os pneus em relação aos usados na semana passada acabou não alterando muito a configuração da prova em relação ao que aconteceu no GP da Estíria, na mesma pista.

Depois de Verstappen e Hamilton na classificação, Pérez aparece em terceiro com 104 pontos, seguido de perto por Norris, com 101. Entre as equipes, a Red Bull abriu bem em relação à Mercedes: 286 x 242. A McLaren também se desgarrou da Ferrari na briga pelo terceiro lugar: 141 x 122. AlphaTauri e Aston Martin lutam pelo quinto, 48 x 44 para os italianos. Aliás, foi com o uniforme da AlphaTauri que o japonês Toyoharu Tanabe, da Honda, subiu ao pódio para receber o troféu reservado à equipe vencedora, a matriz Red Bull.

Tanabe, da Honda: melhor sequência desde 1988

Explica-se: a Honda alcançou sua quinta vitória seguida, melhor sequência desde a série de 11 consecutivas na temporada de 1988, com a McLaren de Senna e Prost. Naquele ano, a equipe só perdeu uma das 16 corridas do Mundial. Foi na 12ª etapa, para a Ferrari em Monza. Depois ganhou as últimas quatro. E poderia ter vencido na Itália, se Senna não sido atingido pelo retardatário Jean-Louis Schlesser, que correu pela Williams no lugar de Nigel Mansell.

Hoje às 19h estarei ao vivo no meu canal do YouTube para falar da corrida no “Fórmula Gomes”. Apareçam lá!

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AUSTRÍACAS (2)

Norris, P2: McLaren de volta à primeira fila depois de quase nove anos

SÃO PAULO (chega logo!) – A pole foi de Verstappen, a notícia do dia foi a renovação de Hamilton com a Mercedes por mais dois anos, mas o sábado ensolarado em Zeltweg teve dois personagens que carregam enorme significado neste momento da Fórmula 1: os ingleses Lando Norris e George Russell.

Ao lado de Charles Leclerc, que já fez suas poles e ganhou suas corridas com a Ferrari, eles são os dois mais bem acabados representante disso que se chama de “nova geração” da categoria. Forjados na F-2, chegaram à F-1 muito jovens e em equipes que hoje trafegam em faixas diferentes da estrada. Mas brilham todo fim de semana. Perto deles, todos os outros parecem “cringe”.

Norris, 21, é o queridinho da McLaren, recentemente renovou seu contrato por “vários anos”, como informou o time em comunicado, está em quarto lugar no Mundial, pontuou em todas as corridas desta temporada e, hoje, conseguiu um excepcional segundo lugar no grid para o GP da Áustria. Ficou a meros 0s048 de Verstappen. Desde o GP do Brasil de 2012, há quase nove anos, que a equipe não largava na primeira fila. Naquela corrida, ainda prateada, a McLaren fez a pole com Hamilton e a segunda posição com Button.

Williams: primeira vez no Q3 desde 2018

Russell, 23, piloto Mercedes alocado na Williams desde 2019, classificou seu carro para o Q3 pela primeira vez desde que chegou à equipe. A última vez que a Williams tinha levado um carro até a fase decisiva de uma classificação fora no GP da Itália de 2018, com Lance Stroll. De lá para cá, o time despencou ladeira abaixo, quase faliu, foi vendido pela família a um fundo de investimentos americano e começa, lentamente, a deixar o fundo do brejo.

Hoje, foi com estilo. Usando pneus médios no Q2, Russell foi o décimo colocado e deixou para trás, com macios, Ricciardo (13º) e Alonso (14º), por exemplo. Os dois carros da Ferrari também ficaram atrás de Jorginho: Sainz em 11º e Leclerc em 12º, ambos com pneus médios. Alonso tem a desculpa de ter sido atrapalhado por Vettel — falaremos disso adiante. Ricciardo já não tem mais desculpa nenhuma. A Ferrari não queria largar de pneus macios de jeito nenhum, poderia até ficar na frente da Williams se usasse esses compostos no Q2, mas não custa reforçar: Russell fez sua volta no Q2 de médios, é com eles que larga amanhã, e bateu os dois carros vermelhos usando a mesma borracha. No Q3, ainda subiu uma posição e conseguiu o nono lugar no grid. Uma proeza.

Era preciso dar o devido destaque à dupla britânica antes de começar a falar do que aconteceu em Spielberg neste sábado. Agora vamos aos (demais) fatos do dia.

Hamilton, mais dois anos: na camiseta, “lealdade”

Os trabalhos estavam começando no autódromo da Red Bull quando a Mercedes divulgou comunicado informando que Lewis Hamilton vai ficar mais dois anos na equipe. O piloto publicou em sua conta no Twitter a foto acima, assinando o contrato. Na camiseta está escrito “lealdade”. Ele está em seu nono ano no time. Se chegar ao final do compromisso, terá completado 11 anos de Mercedes. Lewis, que estreou na McLaren em 2007 e lá ficou até 2012, nunca dirigiu um carro de F-1 com outro motor que não Mercedes — OK, já andou com o McLaren-Honda de Senna dos anos 80, vão lembrar os mais fanáticos, mas vocês entenderam o que eu quis dizer.

Em meio à troca costumeira de elogios do piloto e dos dirigentes da equipe no press-release, ficou no ar a dúvida: quem será o companheiro dele nas temporadas de 2022 e 2023? É a grande pergunta que resta ser respondida neste ano. Hamilton prefere Bottas — não incomoda, faz seus pontinhos, é garantia de tranquilidade no ambiente interno. Mas o que Russell vem fazendo torna difícil para a Mercedes justificar a permanência do finlandês. Ele, certamente, é alguém que garante um futuro promissor para a equipe. Valtteri, não. E, em algum momento, os alemães terão de encarar essa realidade, mesmo sabendo que uma dupla Hamilton-Russell é potencialmente explosiva.

Verstappen: sétima pole na carreira, quarta no ano

Apesar do primeiro lugar ontem nos treinos livres, a Mercedes sabia que teria muitas dificuldades para fazer a pole hoje. Hamilton mesmo disse que a equipe da casa tinha alguma coisa guardada, e isso ficou claro no terceiro treino livre com o domínio de Verstappen. Para piorar, o dia estava mais quente do que ontem, 25°C com 52°C no asfalto, o que prejudica a performance dos carros tedescos. O holandês confirmou o favoritismo já no Q1, fazendo o melhor tempo sem dificuldade. Os eliminados foram Raikkonen, Ocon, Latifi, Schumacher e Mazepin.

Destaque negativo para o francês da Alpine, 16º colocado, enquanto Alonso fechava a primeira parte da classificação em terceiro. “Não sei o que está acontecendo”, disse Ocon, cabisbaixo, à repórter Mariana Becker, da TV Bandeirantes. O rapaz está perdidinho da silva. Outro que desapontou redondamente sua equipe foi Ricciardo, em 15º — Norris ficou em segundo no Q1. É outro que não tem a menor ideia do que se passa. De longe, a maior decepção do ano.

Alonso é atrapalhado por Vettel: irritado, descartou pontos amanhã

No Q2, quem acreditou no próprio taco saiu de pneus médios, porque quem começar a prova de amanhã com os macios terá obrigatoriamente de fazer duas paradas, uma estratégia fatal num circuito curto e veloz como o austríaco. Verstappen baixou de 1min04s pela primeira vez no fim de semana, deixou Hamilton em segundo a 0s331 e mostrou que só não faria a pole se cometesse algum erro crasso no Q3. Foram eliminados Sainz (por 0s006), Leclerc, Ricciardo, Alonso e Giovinazzi.

O espanhol da Alpine saiu de seu carro cuspindo marimbondos, depois de ter a volta atrapalhada por Vettel. “Era para largar em quinto ou sexto no grid”, reclamou. “Agora, largando em 14º, não vai dar nem para fazer pontos amanhã.” Fernandinho poupou o alemão de críticas. “Não foi culpa de Seb, quem tinha de avisar que eu vinha numa volta rápida era a equipe. As consequências para a gente foram enormes.”

Vettel, Sainz e Bottas foram chamados à direção de prova por dirigirem lentamente entre as curvas 9 e 10, atrapalhando os outros. Até o momento em que escrevo este textão, nenhuma punição foi anunciada, mas elas não estão descartadas. Para registrar: seis dos dez que foram ao Q3 usaram pneus médios. Vettel, Stroll, Tsunoda e Gasly terão de largar com macios e vão ter de trocar o calçado depois de poucas voltas.

Russell, nono no grid: larga com médios e luta por pontos amanhã

No Q3, logo de cara Verstappen virou em 1min03s720, deixando na primeira saída Norris em segundo a 0s238 e Hamilton em terceiro a 0s294. O inglesinho da McLaren se colocava como protagonista da classificação e, na segunda volta rápida, baixou seu tempo, ficando a 0s048 de Max. O holandês não conseguiu uma volta melhor e reclamou com a equipe, que o mandou para a pista sem ninguém na frente — e sem chance de pegar um vácuo. “Não foi uma volta perfeita, quase perdi a pole. Vamos conversar sobre isso”, falou, com a cara fechada apesar da pole.

Foi a sétima dele na carreira e quarta no ano. “Max vai ganhar fácil amanhã”, vaticinou Hamilton, que também não melhorou seu tempo e ainda perdeu o terceiro lugar para Pérez. Lewis larga em quarto. “Vitória está fora de questão. O ritmo deles é bem melhor. Temos de chegar na frente de Pérez e fazer o maior número possível de pontos. A Red Bull melhorou seu carro de novo. Nós precisamos buscar mais performance. Essa é a situação de momento.”

Bottas ficou em quinto, seguido por Gasly, Tsunoda, Vettel, Russell e Stroll nas dez primeiras posições. A AlphaTauri segue forte e consistente e a Aston Martin, claramente, está andando para a frente depois de um mau início de campeonato.

O grid para o GP da Áustria: prova promete ser boa no segundo pelotão

O prognóstico de uma vitória fácil de Verstappen só não se confirma amanhã se a corrida for disputada com chuva, possibilidade ainda aberta — embora as chances tenham diminuído, de acordo com a meteorologia. É que no molhado, como digo sempre, tudo pode acontecer. Mas mesmo se chover Max é favorito, porque anda muito bem debaixo d’água. Apenas terá de ficar mais atento. Em condições normais, porém, Hamilton tem razão: o garoto de ouro da Red Bull leva sem nenhuma dificuldade.

Norris, em que pese o segundo lugar no grid, não será uma vedete improvável na luta pela vitória. Pelo pódio, sim. Vai ser interessante acompanhar seu esforço na busca de mais um trofeuzinho, com três carros velozes logo atrás dele — o de Pérez e os dois da Mercedes. O rapaz vai ter de pagar um dobrado para chegar entre os três primeiros. Checo é muito bom de corrida e a dupla Hamilton-Bottas está mordida. Não nos esqueçamos que eles terminaram em segundo e terceiro na semana passada.

Os organizadores do GP da Áustria permitiram a presença de mais público neste fim de semana, desde que todos estivessem vacinados e com testes de Covid-19 em dia. A isso se chama “civilização”. Enquanto aqui um cabo da PM de Minas tenta vender 400 milhões de doses inexistentes de vacina ao Ministério da Saúde — que pede propina para comprá-las –, lá a vida começa a voltar ao normal porque, entre outras coisas, nenhum governante sabota políticas de saúde. Como se vê na foto, inclusive, não há jacarés na arquibancada. Norris brincou que a torcida pintada de laranja estava lá apoiando a McLaren, cujos carros são pintados da mesma cor. O moleque, como eu disse ontem, é engraçado.

Tenho dito que quem sair dessa corrida na liderança será campeão mundial. Parece lógico que sejam Verstappen e a Red Bull, e por isso já dá transformar o palpite em previsão com ares definitivos. A Mercedes pode virar o jogo? Acho muito difícil. Muito mesmo. Hoje, os rubro-taurinos são meio segundo por volta mais rápidos que os mercêdicos — cálculo grosseiro para pistas um pouco mais compridas que o Red Bull Ring. É duro tirar isso em meio campeonato. Seja como for, é um ótimo roteiro para a gente acompanhar até o fim do ano.

Hoje às 19h tem “Fórmula Gomes” no YouTube para discutir tudo isso, apareçam!

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