GRACIAS TOTALES

Por TALES TORRAGA*

torraga15Rato,

Desculpa a demora. Não sabia o que escrever. Sigo sem saber. Foda-se.

Não vou escrever sobre o lugar. Lugares me importam um caralho, você sabe.

Vou escrever com palavrão. Homenagem a você. Não os falo mais.

Quase não falo mais.

Quer que eu escreva da salinha? Gesso, carpete e tinta. Só.

Nossa história é do caralho, Anão. Fodida mesmo. Sei lá se é boa ou ruim, só sei que merece mais que um texto único. Talvez um livro. Pouquíssimos, põe poucos nisso, começaram a trabalhar descobertos e lapidados pelo ídolo.

Merece um livro. Não por mim ou por você. Pela generosidade. Só ela explica você parar qualquer coisa e cuidar de um caipira de 15 anos cuja habilidade única era lembrar a marca da luva do Pace em 1973 ou o acerto de câmbio do Hill em Adelaide 1994.

Alienado da porra, um puta retardado.

Treina com os profissionais, faz pré-temporada, amistoso, joga contra o time pequeno.

Os 19 anos me jogaram na cara a camisa 5.

Você, Pelé para mim, com a 10, Everaldo, um Didi, com a 8. Um fenômeno, El Cabezón.

11 de junho de 1996, te visitei pela primeira vez, catei o trem, 27 estações até chegar, metrô Brigadeiro, 27, Senna e Villeneuve. Deu certo, pensei. A gente não pensa só bobagem.

1997, andei à noitinha 6 km da República até você, sem um puto, não tinha nem pra voltar pra Mogi, nem RG eu tinha, jogava xadrez apostando grana com os velhinhos, eles me zeravam e eu saía na mão e apanhava de bengala, você, mijando de rir, me dava o cinzeirão cheio de moeda, “Pega tudo, vê se come, estuda final em vez de brigar.”

1998, sem avisar un huevo, “Toma, é teu”, me entregou o livro do Boy George. “Estava em Londres, lembrei de você, comprei”. Li em dois dias. Nem fui pra escola.

Quando quiser entender por que mudo tanto, taí a razão. Karma Chameleon. Boy George e Bobby Fischer. Camaleão e doidão. Así fue. Jajaja.

1999, começamos o site, você soube que eu tava sem geladeira, me deu cheque em branco, “Compra lá, para de beber, sua mãe está preocupada”, ela te ligava sem eu saber, sigo sem saber o que falavam, e se não sei é melhor não saber.

2000, escrevi besteira qualquer, estava na Paulista, você na Alemanha, sábado da primeira vitória do Barrichello, caguei numa estatística, sabia que os italianos e suecos liam a gente e publicavam nossas efemerdas, te liguei com o cu piscando, os caras já tinham fechado, “Relaxa, valeu avisar, falo com eles, cheque nas próximas.”

Esporro é para os fracos.

2003, quis sair, tinha 22 anos, não sabia o que estava fazendo, sigo sem saber, você me acompanhou até o elevador para se despedir, quase chorando, não dei bola, idiota e insensível, falei qualquer besteira, é sempre melhor ficar quieto, e a gente depois se viu vez ou outra, dois caras livres sem se encher, segui juntando letrinha, você também, no fundo o que a gente faz é um punhado de papel com tinta.

Hoje, nem papel nem tinta. Irrelevância total. O mundo está explodindo e a gente está apertando o botão.

Aprendi no 807 que era outro tempo e as pessoas teclavam menos e se viam mais, aprendi que a gente era mais gente, eu não parava de abrir a porta, abraçar e pedir um café para o Fábio Seixas, cara que adoro, você sabe, para o Cândido Garcia, para o Reginaldo Leme, para o Edgard Mello Filho, para o Claudio Carsughi, para o Téo José e para o Francisco Santos (!), digo que aprendi que abrir a porta, abraçar e servir café é muito mais importante que o pneu do Trulli ou a asa do Schumacher.

Apegou, aprisionou, Enano.

Gracias TOTALES y siempre, loco. Te quiero.

torraga14* Tales Torraga criou o Grande Prêmio.

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Martinho Franco
Martinho Franco
10 anos atrás

Sensacional! E para complementar, esse post: http://flaviogomes.grandepremio.uol.com.br/2015/03/15-anos-hoje/

Rodolfo
Rodolfo
10 anos atrás

O texto mais phoda sobre o 807 !!

Paulo F.
Paulo F.
10 anos atrás

Com o coração à mostra!!!!!
Dos dois lados!

Marcelo Melo
Marcelo Melo
10 anos atrás

Duas palavra para o texto: MUITO FODA!

João
João
10 anos atrás

Flávio Gomes… você já pode morrer em paz cara…

Mas seria bacana você ficar por aqui mais um pouco…

Paulo
Paulo
10 anos atrás

Gomes, texto muito bom, e bela homenagem. Dos dois.

LUIS FELIPE
LUIS FELIPE
10 anos atrás

isso , pode ser tudo, menos um texto bem escrito.

Acarloz
Acarloz
10 anos atrás

Do caralho !

Ewerton Calebe
Ewerton Calebe
10 anos atrás

Belíssimo texto. Apesar de discordar de pontos de vista pessoais, coisa natural da vida e do mundo, admirava muito o “Flávio Gomes Jornalista” e ignorava o “FG político” .

Após essa série de textos, também passei a apreciar o ‘FG pessoa’.

Parabéns. É o que posso dizer.

Hamzi Barakat
Hamzi Barakat
10 anos atrás

Que bacana essas historias, queria ter trabalhado com vocês só servindo cafezinho

Sérgio Troncoso
Sérgio Troncoso
10 anos atrás

Você sempre teve um texto irretocável e sensitivo, porém alguns se destacam mais… Este foi um deles!
Um abraço.

Denis
Denis
10 anos atrás

Rapaz, acho que é por isso que viciei nesse site… é coisa de doido mesmo…. lembrei do Patropi da Escolinha do Professor Raimundo. Parabéns!

Américo Teixeira Junior
10 anos atrás

Tales e Flavio,

Vocês são do CARALHO!

Beijos Eternos!

Diogo
Diogo
10 anos atrás

Depois de um pneu furado já cedo, ler um texto desses é pra sorrir o dia todo.

Ivan Bento
Ivan Bento
10 anos atrás

Uma linda declaração de amor.

Marcelo
10 anos atrás

Realmente essa foi um baita texto. O melhor deles, eu diria.

Turco
10 anos atrás

Caralho.
Que texto.

Aliandro Miranda
10 anos atrás

Gratidão, afeto, generosidade, decência, hombridade, reconhecimento. Em meia dúzia de palavras: “Tales Torraga criou o Grande Prêmio”.

Antonio Luiz Siqueira
Antonio Luiz Siqueira
10 anos atrás

Que texto legal……….todos muito bons mas sempre alguns se destacam e este foi um.

Rubergil Jr
Rubergil Jr
10 anos atrás

Puta texto. E sua descrição do Tales foi sensacional, uma linha que disse tudo.