ACA BHALOGO (2)

Max coloca mais uma pole na conta: 12 no ano, 32 na carreira

SÃO PAULO (o cara é isso mesmo que vocês estão pensando) – Mesmo quando as coisas não vão muito bem, Max Verstappen parece dar um jeito. O fim de semana dele e da Red Bull em Abu Dhabi não vinha sendo grande coisa. Nos treinos livres, nenhum resultado muito encorajador. Outras equipes e pilotos, como George Russell, da Mercedes, Lando Norris, da McLaren, e Charles Leclerc, da Ferrari, estavam animadinhos. Williams, Alpine e Alfa Romeo prometiam surpresas.

No time, o guru Helmut Marko apostou com o chefe Christian Horner que Max não faria a pole. Perdeu 500 euros. Max fez a pole. Pela 12ª vez no ano, 32ª na carreira. Encerra a temporada largando na frente. E empata com Nigel Mansell nas estatísticas. Ao lado dele, é o sétimo maior “poleman” da história. Lewis Hamilton (104), Michael Schumacher (68), Ayrton Senna (65), Sebastian Vettel (57), Jim Clark e Alain Prost (33 cada) estão à sua frente. Em breve ele entra na listinha dos top-5.

O grid em Abu Dhabi: campeonato termina amanhã

A classificação noturna de Abu Dhabi teve algumas surpresas boas e outras ruins. No Q1, por exemplo, uma Ferrari ficou pelo caminho, a de Carlos Sainz — que reclamou de tráfego e de pilotos que atrapalham os outros “de propósito”. O espanhol ficou com o 16º tempo e liderou o grupo dos primeiros eliminados, que teve atrás dele Kevin Magnussen, Valtteri Bottas, Guanyu Zhou e Logan Sargeant. A dupla da Alfa Romeo não encontrou nenhuma explicação para a queda de desempenho brutal, depois de andar nos treinos sempre entre os dez melhores. O americano da Williams, último de novo, pelo menos tinha uma desculpa. Ou duas. Porque foram duas as (boas) voltas canceladas por exceder os limites de pista. Azar dele. Fecha o ano com um sonoro 0 x 22 para seu companheiro de equipe Alexander Albon em grids. Curiosidade: a última lavada de zero em classificações aconteceu em 2020. E quem tomou? Albon. Levou de 17 x 0 de Verstappen.

Outra surpresa que se encaixa na categoria das ruins foi a performance de Hamilton no Q2. Ficou em 11º, sendo alijado da briga pela pole. “O carro estava mais inconsistente do que nunca. Não dá para prever o que ele vai fazer na pista. Zero de equilíbrio. Ainda bem que é a última com ele”, desabafou, maldizendo o modelo W14. Junto com ele afundaram Esteban Ocon, Lance Stroll, Albon e Daniel Ricciardo. O francês da Alpine, estafado, disse que estava se sentindo mal e que a F-1 está beirando a desumanidade. Falando sobre a temporada de 2024, que terá 24 etapas, cravou: “O nosso corpo não é desenhado para isso”.

O Q3 acabou sendo mesmo o momento do showzinho de Verstappen. Quem parecia que poderia incomodar era a dupla da McLaren. Mas Norris cometeu um erro em sua volta rápida, uma rabeada na última curva, e ficou em quinto. “Tenho feito um trabalho de merda aos sábados”, criticou-se. Seu companheiro Oscar Piastri, em compensação, conseguiu uma ótima terceira posição — uma das surpresas boas da noite. O segundo colocado foi Leclerc, que pela quinta vez seguida larga na primeira fila.

Tempo de Max, Max, Max, Supermax: 1min23s445. “Eu não esperava”, jurou. “O carro melhorou muito na classificação. Estava ruim demais nos treinos livres.” Foi sua quarta pole seguida em Abu Dhabi. Ele só precisou dessa volta para garantir o primeiro lugar. Na segunda, não conseguiu bater o próprio tempo. Leclerc ficou a 0s139 dele.

Russell acabou colocando uma Mercedes em quarto, à frente da McLaren #4, tirando mais do carro do que ele pode oferecer. Outra boa surpresa. Como também foi o sexto colocado, Yuki Tsunoda, da AlphaTauri — sua melhor posição de largada no ano. Fernando Alonso, Nico Hülkenberg, Sergio Pérez (que teve a melhor volta cancelada) e Pierre Gasly formaram o time dos dez primeiros.

Caixinhas, agora, porque daqui a pouco tem live no YouTube.

Esse deve ser o novo nome da AlphaTauri em 2024: Racing Bulls

NOVO NOME – A AlphaTauri, já foi anunciado, muda de nome no ano que vem. A Red Bull deve, inclusive, fechar a marca de roupas que batiza o time. A equipe, que nasceu da compra da Minardi, estreou em 2009 como Toro Rosso. Assim foi até 2019. Em 2020 assumiu o nome da grife. A Red Bull estava tentando vender o nome para outra patrocinadora, se possível do mundo da moda — falou-se em Hugo Boss e adidas –, mas não rolou. Racing Bulls deve ser a nova denominação. A marca já foi registrada e a programação visual, idem. Outra mudança drástica é a também já anunciada aposentadoria do chefe Franz Tost, que está no time desde sempre e recebeu muitas homenagens neste fim de semana. Seu substituto vem da Ferrari, Laurent Mekies.

Alfa Romeo: despedida da marca com a Sauber

DESPEDIDA – Outro time que se despede da F-1 com o nome que tem é a Alfa Romeo. Foram cinco anos com a marca alojada na Sauber, desde 2019. Em 2024 e 2025, a equipe volta ao nome original, Sauber, usado entre 1993 e 2005 e de 2011 a 2018 — no intervalo entre esses dois períodos, foi BMW. Em 2026, será rebatizada como Audi.

DECISÃO AMANHÃ – A F-2 termina amanhã com Frederik Vesti brigando pelo título com Théo Pourchaire. Hoje na prova Sprint, o dinamarquês venceu e o francês ficou em sétimo — Enzo Fittipaldi terminou em segundo depois de liderar a prova quase toda. Assim, a diferença de pontos a favor de Pourchaire caiu de 25 para 16 pontos. Ele larga em 14º amanhã, com Vesti em nono.

OBSOLETO – Fernando Alonso disparou contra o sistema de classificação da F-1. “Era a melhor sessão do fim de semana, velocidade pura, os carros em plenitude. Virou a pior”, afirmou o espanhol da Aston Martin. “É a pior para as equipes, para os pilotos, para os mecânicos. É tráfego, saída lenta de box, limites de pista, volta cancelada, piloto punido por impedir o outro, delta de velocidade… Não era para ser assim. Esse negócio ficou obsoleto.” Falando em obsolescência, talvez não programada, mais uma regra para encher os baguás: não pode mais passar ninguém dentro do pit-lane em saída de box. Se o cara estiver se arrastando à sua frente, tem de buzinar ou dar farol.

RETRATO NA PAREDE – Vocês viram a foto da Alfa Romeo um pouco acima. Hoje foi dia de fazer aquele retrato bacana de fim de temporada, com todo mundo aparecendo. Já estão todos nostálgicos, apesar da pauleira que foi a temporada de 22 etapas (e que se preparem para coisa ainda pior no ano que vem). Tem duas dessas aí embaixo, só de exemplo. Para ver em tamanho gigante e encontrar seus wallys preferidos, é só clicar nas imagens.

PLACAR – Para fechar, os duelos de classificações do ano. Já falamos acima, a maior pancada foi de Albon sobre Sargeant, 22 x 0. Depois, Verstappen 20 x 2 Pérez. Alonso enfiou 19 x 3 em Stroll. Tsunoda fez 16 x 6 nos seus três companheiros (De Vries, Lawson e Ricciardo). Quatro pilotos cravaram 15 x 7 em seus parceiros: Hülkenberg, Bottas, Norris e Leclerc — em cima, respectivamente, de Magnussen, Zhou, Piastri e Sainz. Gasly goleou Ocon por 14 x 8. E o único empate aconteceu na Mercedes entre Hamilton e Russell: 11 x 11.

O GP de Abu Dhabi, encerrando o ano fiscal da velocidade de 2024, começa às 10h de Brasília.

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ONE COMMENT

E quase deu para o reizinho do Canindé… A ótima história sobre o look de Hamilton em Interlagos está aqui, deliciosamente contada pela repórter Camila Alves. Jornalismo com J maiúsculo.

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DICA DO DIA

Beto Dessordi mandou pelo Instagram. Câmeras on-board antes de 1987. Escolha pista & piloto na lista da minutagem, na descrição do vídeo. Deleite-se.

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ACA BHALOGO (1)

O carro de Sainz: batida forte no segundo treino

SÃO PAULO (cumprindo tabela) – Metade do grid, hoje, teve apenas 26 minutos de treino em Abu Dhabi. As equipes deixaram para cumprir na última corrida do ano a obrigação de oferecer um treino livre a novatos, e a primeira sessão teve dez deles na pista. Na segunda, com todos os titulares em ação, duas bandeiras vermelhas tomaram 34 minutos do treino e, assim, o dia não serviu para muita coisa.

Mas esse GP também não serve. No calendário desde 2009, a partir de 2014 a prova de Yas Marina passou a fechar as temporadas da F-1, mediante robusto pagamento. Foi assim também nos dois primeiros anos. E em apenas quatro oportunidades o campeão saiu da corrida noturna nos Emirados Árabes: em 2010 (com Vettel), 2014 (Hamilton, com a ridícula pontuação em dobro que felizmente não foi decisiva), 2016 (Rosberg) e 2021 (Verstappen). A última delas é célebre, aquele rolo todo envolvendo um safety-car no fim e a presepada do ex-diretor de provas Michael Masi, que tirou o oitavo título de Lewis.

Neste ano, é um GP amistoso novamente. Os dois títulos estão decididos a favor de Verstappen e da Red Bull, e de relevante, mesmo, restou uma disputa pelo vice entre Mercedes e Ferrari. Os alemães estão quatro pontos à frente.

Por isso, um enxame de garotos invadiu o circuito no primeiro treino, entre eles o brasileiro Felipe Drugovich, que acabou se destacando com a segunda colocação. Ele só ficou atrás de George Russell, da Mercedes, que fez o melhor tempo em 1min26s072. O piloto de testes da Aston Martin ficou 0s288 atrás do inglês, um bom resultado. Foi o único reserva a andar na frente do titular, já que Lance Stroll terminou a sessão em quinto. Entre as equipes, só a AlphaTauri andou com seus dois pilotos principais. A Red Bull deu folga a ambos e até um quase veterano de 28 anos, Jake Dennis, campeão da F-E, teve a chance de guiar um F-1 pela primeira vez — presentão de Natal, ocupou o cockpit do carro de Verstappen, vejam vocês.

A molecada acabou se comportando melhor que os adultos, já que Carlos Sainz e Nico Hülkenberg bateram no segundo treino causando as longas interrupções. O primeiro, vítima do bueiro de Las Vegas na semana passada, perdeu o controle numa ondulação da pista árabe e bateu forte na barreira de proteção. Estragou bem a Ferrari #55. Isso com dez minutos de treino. Depois de quase meia hora de paralisação, o alemão da Haas rodou sozinho e deu de traseira no muro assim que a sessão foi reiniciada.

Os tempos de hoje, portanto, são pouco representativos para apontar o que pode acontecer na derradeira etapa de 2023. Amanhã o terceiro treino livre servirá para que pilotos e equipes busquem algum caminho para a classificação e a corrida, se nenhuma intercorrência atrapalhar.

Mas cumpre, claro, registrar os melhores. O ferrarista Leclerc foi o mais rápido com 1min24s809, meros 0s043 à frente de Norris, da McLaren. A equipe papaia tende a andar bem em Abu Dhabi, recuperando-se do mau desempenho de Las Vegas. Em sexto no Mundial com 195 pontos, Landinho sonha em superar Sainz e Alonso, que têm 200 e estão à sua frente na classificação. Seria um belo prêmio de consolação para quem faz uma segunda metade de temporada admirável. Nas últimas dez corridas, Norris somou 135 pontos e só perde para os 268 de Verstappen. No mesmo período, os que estão à sua frente na tabela foram superados até com folga: Pérez marcou 102, Hamilton fez 99, Sainz somou 113 e Alonso amealhou 61.

Os tempos do segundo treino: poucas voltas

Max foi o terceiro colocado, seguido por um surpreendente Bottas, Pérez, Russell, Zhou, Hamilton, Gasly e Piastri nas dez primeiras posições. O holandês foi protagonista de alguns momentos engraçados durante os treinos, ansioso que estava para percorrer o maior número possível de voltas, já que seu carro foi emprestado a outrem na primeira atividade da sexta-feira.

Pelo rádio, reclamou com seu engenheiro que tinha gente saindo à sua frente nos boxes e, depois da segunda parada, ultrapassou dois carros da Mercedes pelo acostamento na saída do pit-lane, que em Abu Dhabi se dá por um túnel debaixo da pista. Estava com pressa. Alguém pode achar que é arrogância ou bobagem, já que nada mais há a decidir neste ano. Eu interpreto como profissionalismo, mesmo.

Verstappen x dupla da Mercedes: pelo acostamento

Agora vocês vão ficar com uma pilha de caixinhas coloridas para atualizar o noticiário da semana, que foi até agitadinho.

PAUSA PARA A F-1 – Dois dos novatos que andaram no primeiro treino estão na disputa pelo título da F-2 neste fim de semana em Abu Dhabi: Théo Pourchaire, francês da Alfa Romeo, e Frederik Vesti, dinamarquês da Mercedes. O primeiro lidera o campeonato com 191 pontos, 25 à frente do segundo. Vesti começou melhor os trabalhos, ficando com a nona colocação no grid para a corrida longa de domingo. Pourchaire larga em 14º. O regulamento inverte os dez primeiros para a prova curta de sábado, e assim Vesti parte da primeira fila amanhã, em segundo, ao lado de Enzo Fittipaldi — décimo colocado hoje. O pole de verdade para domingo é Jack Doohan. Pelas regras, larga em décimo na Sprint. É meio idiota, a regra? É.

ENZO FICA… – …com a Red Bull. Mas não na Red Bull. Não sei se deu para entender. O neto de Emerson Fittipaldi, piloto da Academia da Red Bull neste ano na F-2, continua com o patrocínio da marca em 2024. Mas não fará parte do programa de desenvolvimento de jovens pilotos do time de energéticos. Segue apenas como garoto-propaganda. Enzo está cavando um lugar na Indy, onde correrá seu irmão Pietro.

AQUI E LÁ (1) – Já o mexicano Pato O’Ward, também presente hoje no primeiro treino livre com a McLaren, foi confirmado como reserva do time para a temporada 2024 da F-1. Paralelamente, ele segue correndo na Indy, campeonato do qual a equipe papaia também participa.

AQUI E LÁ (2) – Outro que definiu seu futuro foi Mick Schumacher. Dispensado da Haas no ano passado, passou a ser reserva da Mercedes e foi a todas as corridas desta temporada na condição de papagaio de pirata de Toto Wolff. Seu contrato foi renovado para que continue ao lado do chefe vendo as provas de fone no ouvido, mas ele arrumou também uma boquinha para correr no WEC pela Alpine na categoria de hipercarros.

HAMILTON NA RED BULL – Telegraficamente, para não esticar muito. No início da semana, em entrevista ao “Daily Mail”, Christian Horner disse que foi procurado pelo estafe de Hamilton no começo do ano para sondar um lugarzinho na Red Bull. E acrescentou que o inglês também “conversou sério” com a Ferrari. Ontem, Lewis negou. Disse que não fala com o chefe rubro-taurino “há anos” e que o único contato com o dirigente foi uma mensagem de texto que recebeu antes de começar a temporada “num número de telefone antigo”. “Chequei com todos que trabalham comigo e ninguém procurou Christian. A gente o conhece. Ele adora dessas coisas”, espetou. Na tréplica, Horner devolveu: “Quem me procurou tem o sobrenome Hamilton”, garantiu, insinuando que o pai no piloto, Anthony, estaria envolvido no caso. “O pai de Lewis não trabalha com ele desde 2010”, respondeu Toto Wolff. “O outro lá só quer atenção.”

Leclerc: segue na Ferrari, e com Sainz

MAIS ALGUNS ANOS – A informação é do jornalista italiano Leo Turrini, que não erra: Carlos Sainz e Charles Leclerc terão seus contratos estendidos com a Ferrari. Os dois compromissos terminam no final do ano que vem e o espanhol estava fortemente associado a boatos que o colocavam na Audi — a marca alemã está comprando a Sauber e estreia na F-1 com time próprio em 2026. Pelo jeito, Maranello convenceu Sainz a ficar. Charlinho parece eternamente ligado ao time vermelho.

MAIS UM ANO – Já Fernando Alonso, que tem a vida acertada com a Aston Martin também até o fim de 2024, deve espichar seu acordo por pelo menos mais uma temporada, a de 2025. É a intenção da equipe, inclusive. E Alonso, quando assinou, fez um contrato 2 + 1: dois anos garantidos, mais um terceiro opcional. Não será surpresa nenhuma, sua permanência. Apesar da idade — está com 42 anos –, Fernandinho segue em plena forma. Só neste ano já juntou oito troféus. A Aston Martin tem nove no total.

MAIS SETE ANOS – E a Mercedes seguirá sendo fornecedora de motores da McLaren até 2030. O contrato atual termina no final de 2025 e foi esticado por mais cinco anos. Nos próximos sete, portanto, McLaren é Mercedes e ponto final. As duas se uniram pela primeira vez em 1995 e a parceria foi até 2014. Em 2021, depois de de experiências não muito bem sucedidas com Honda e Renault, a equipe voltou a usar os motores alemães. De Mercedes novamente nas últimas três temporadas, a McLaren conseguiu 15 pódios e uma vitória — de Ricciardo, em Monza/2021.

ESCOLINHA – Toto Wolff, chefão da Mercedes, recebeu uma reprimenda formal da FIA por ter batido boca com Frédéric Vasseur, homólogo da Ferrari. A discussão aconteceu em Las Vegas por causa da absurda punição a Sainz, que quebrou a bateria de seu carro numa tampa de bueiro. O time italiano solicitou que o piloto não perdesse posições no grid pela troca do equipamento, mas Wolff se posicionou contra. Houve xingamentos de lado a lado. “Foi a segunda vez que fui repreendido na vida”, debochou Wolff. “A primeira foi em 1984 quando eu tinha 12 anos, na escola.”

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UM MILHÃO, 50

SÃO PAULO (coisa linda!) – Passando por aqui para informar que em 22 de novembro de 1973, exatamente 50 anos atrás, saiu da linha de montagem de Zwickau o Trabant número um milhão. Ele está lindamente guardado no August Horch Museum.

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SOBRE ONTEM DE MADRUGADA

A IMAGEM DA CORRIDA

“Aí eu coloquei por dentro e tchau”

SÃO PAULO (tá acabando) – Apesar da profusão de imagens coloridíssimas e luminosíssimas de Las Vegas, incluindo aquelas da simpática Esfera — a história de proibir luzes vermelhas, amarelas e azuis era cascata –, acho que vou me lembrar dessa corrida, para sempre, pelo trajeto dos três primeiros dos boxes até o hotel Bellagio, onde foi feita a entrevista pré-pódio.

Leclerc, Verstappen e Pérez fizeram caretas ótimas dentro do Rolls Royce. E caiu o mito do luxo e do conforto do carro mais caro do mundo (nem é mais, mas quando eu era criança Rolls Royce era o carro mais caro do mundo e pronto): só cabem dois atrás. Meus DKWs são mais espaçosos.

Estou na correria hoje, então vamos acelerar no rescaldão.

O NÚMERO DE LAS VEGAS

Em 2016, a Mercedes estabeleceu um recorde de vitórias na mesma temporada. Foram 19 em 21 corridas, naquele ano em que Rosberg e Hamilton se engalfinharam pela taça. E Rosberguinho levou. Aproveitamento mercêdico: 90,4%. Pois a Red Bull chegou a 20 vitórias nas mesmas 21 corridas. Já é recorde absoluto, mas temos sempre de levar em conta o percentual em relação ao número de corridas, porque os campeonatos variam de tamanho. Até agora, o que Verstappen (18 vitórias) e Pérez (duas) fizeram bate nos 95,2% de aproveitamento. Mas ainda tem uma prova para fechar o Mundial. Se não ganhar em Abu Dhabi, o time encerra o ano com 90,9% de vitórias. Se vencer, vai a 95,4%. A McLaren de 1988, com 15 vitórias em 16 etapas, teve aproveitamento de 93,7%.

Verstappen ganhou as três provas disputadas neste ano nos EUA — em Miami, Austin e Las Vegas. Sem muitas papas na língua, não economizou críticas ao excesso de penduricalhos do evento do último fim de semana. Detonou o que considerava “1% esporte e 99% espetáculo”, o público “que não entende nada do que fazemos na pista”, os organizadores que deram cupons de compra no valor de 200 dólares aos que foram expulsos das arquibancadas no segundo treino livre (“se fosse comigo, eu quebrava tudo”).

Mas se rendeu à qualidade da prova e admitiu que se divertiu bastante. Ao final da corrida, era um sorriso só. Como muita gente, acabou tendo uma boa surpresa num circuito que, de início, parecia ser um dos mais desinteressantes da temporada. O que nos leva à…

FRASE DE VEGAS

“Não esperava que a pista fosse tão boa. Para todos que foram tão negativos sobre este fim de semana, acho que Vegas provou que estavam todos errados.”

Lewis Hamilton

De acordo com os organizadores, passaram pelas catracas do circuito 315 mil pessoas nos três dias do evento. O contrato de Las Vegas com a F-1 é de dez anos. Viram Verstappen conquistar seu 20º pódio no ano, mais um recorde que o holandês amplia — maior número de troféus na mesma temporada; no ano passado, foram 18. O piloto completou 40 corridas seguidas nos pontos. Hamilton detém esse recorde, com 48 provas pontuando seguidamente, entre Inglaterra/2018 e Bahrein/2020.

Clark em 1963: recorde superado

Max liderou 951 voltas até agora nesta temporada, 75% das 1.267 cumpridas em 21 corridas. O GP de Abu Dhabi terá 58 voltas. É isso mesmo que vocês estão pensando. Se ele liderar pelo menos 49, chegará à incrível marca de mil voltas em primeiro lugar no mesmo ano. De qualquer forma, ele já tem mais um recorde assegurado: percentual de voltas na liderança em relação ao total de um campeonato. Mesmo se não ficar na ponta em nenhum momento em Yas Marina, ele fecha o ano com 71,7% das voltas lideradas. O recorde anterior era de 1963. Jim Clark, naquele Mundial, liderou 506 das 708 voltas percorridas — 71,4%.

GOSTAMOS & NÃO GOSTAMOS

GOSTAMOS de Esteban Ocon, que largou em 16º e, com apenas um pit stop, terminou em quarto. Na verdade, quinto. Mas com a punição de 5s para Russell, subiu uma posição. Fez uma prova muito madura e encostou em seu companheiro Gasly na classificação: 62 x 58 para Pierre. Com o detalhe importante: nas últimas três provas, Ocon marcou 14 pontos; Gasly, seis. Pierre era o quarto no grid, mas terminou só em 11º, com problemas depois da troca de pneus.

NÃO GOSTAMOS de ver a Williams desperdiçar uma grande chance de pontuar. Albon largou em quinto e Sargeant, em sexto. Terminaram em 12º e 16º, respectivamente. Andaram para trás. O “graining” nos pneus — esfarelamento, granulação, “macarrãozinhamento” — foi apontado como grande vilão para ambos. “No meio da corrida me vi com pneus velhos lutando com um monte de gente de pneus novos”, resmungou Alexander, culpando também a estratégia de uma parada. “O momento do safety-car foi ruim para a gente. Temos de rever alguns cálculos”, disse.

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NAS ASAS

Postagem totalmente aleatória. Gatwick, Londres, 1987. Um jardim de DC-10.

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LAS BREGAS (4)

Max “Elvis” Verstappen: 18ª vitória no ano, 53ª na carreira

SÃO PAULO (no fim, deu tudo certo) – Que se diga logo de cara: foi uma ótima corrida, essa de Las Vegas. Um evento que começou muito mal com os problemas dos bueiros na noite de quinta (madrugada de sexta para nosotros no Brasil), mas terminou com um grande espetáculo graças a um traçado que acabou se revelando mais interessante do que se previa. É o que sempre digo: na F-1, muita coisa que a gente antevê como catastrófica pode dar certo quando os carros vão para a pista. Outras ideias que julgamos excelentes, quando colocadas em prática, dão com os burros n’água.

Vegas se encaixa na primeira categoria. A concepção do circuito da cidade dos cassinos, com a gigantesca reta da avenida principal e longas áreas de frenagem, resultou numa prova bem disputada, com brigas até o final e a cereja do bolo da última volta com Charles Leclerc ultrapassando Sergio Pérez para mordiscar a segunda posição. Se em Interlagos exaltamos o duelo do mesmo Pérez com Fernando Alonso pelo pódio na última volta do GP de São Paulo, é justo que façamos o mesmo em Las Vegas. Foi muito bacana.

Quem ganhou? Ora, ora, ora… Max Verstappen, claro. Pela 18ª vez no ano em 21 corridas. Um índice de aproveitamento impressionante de 85,7%. E pela 53ª vez na carreira, igualando a marca de Sebastian Vettel nas estatísticas. O holandês, agora, está em terceiro lugar no ranking dos maiores vencedores da história, atrás apenas de Lewis Hamilton (103) e Michael Schumacher (91).

O mergulho de Leclerc sobre Pérez: emoção até os últimos metros

E não foi um triunfo mamão-com-açúcar, este de Verstappen. O tricampeão mundial teve de driblar uma punição de 5s no começo da corrida e uma colisão com George Russell na metade para colocar mais um troféu de vencedor na estante.

Na largada, Max conseguiu pular à frente do pole-position Leclerc, mas na primeira curva, com pouca aderência nos pneus frios — a temperatura ambiente era de 18°C, com 17,5°C no asfalto –, espalhou demais e jogou o monegasco para a área de escape. Os comissários esportivos demoraram para avaliar a manobra, mas na altura da oitava volta avisaram que ele seria punido com 5s — pena que teria de ser cumprida no primeiro pit stop.

A maioria dos pilotos escolheu os pneus médios para começar o GP numa pista muito lisa e gelada. Mas alguns que largavam mais atrás, na segunda metade do pelotão, optaram pelos duros — menos aderentes ainda. Foi o caso, por exemplo, de Oscar Piastri, Hamilton, Lance Stroll, Pérez e Alonso — que, ao longo da corrida, teriam lá seus momentos de protagonismo.

Alonso, por conta disso, rodou logo na primeira freada, quase causando um acidente múltiplo. No fim, se recompôs e ainda conseguiu chegar ao fim da prova na nona colocação. Bem, mesmo, largou Yuki Tsunoda. De pneus macios, saltou de 20º para 12º na primeira volta. Mas ficou nisso. Acabou abandonando no final, com problemas no câmbio.

Logo na terceira volta, lá no fundão, Lando Norris bateu forte — teve até de ser levado a um hospital para checar seu estado geral –, motivando a entrada do primeiro safety-car da noite. Alonso e Pérez aproveitaram para ir aos boxes, trocaram os bicos de seus carros, danificados na largada, e conseguiram se recolocar na corrida. A relargada aconteceu na volta 7. Verstappen se segurou na frente, mas Leclerc não desgrudava dele. E conseguiu dar o bote para cima do holandês na volta 16, assumindo a ponta.

Sentindo que seus pneus já não rendiam grande coisa, o piloto da Red Bull foi imediatamente para os boxes, pagou a multa de 5s e voltou à prova em 11º. Teria de remar bastante para recuperar o tempo perdido.

Início de prova para Verstappen: pressionado por Leclerc

E foi o que Max fez. Quem aparecia pela frente, ele passava. “A asa móvel aqui ajudou muito”, contou depois da corrida. De fato, contrariando alguns prognósticos que apontavam na direção oposta, em Vegas dá para passar e não é difícil. Na volta 23, Verstappen já era o sexto, tentando descontar a diferença para Leclerc, que parou na 21ª e voltou em terceiro. Pérez e Stroll, que largaram com duros, eram os dois primeiros — o mexicano já tinha feito um pit stop no início, mas como foi sob safety-car não perdeu muito tempo.

A corrida era boa, com ação de cabo a rabo, e chegou à metade com Max na quinta colocação. Foi quando o holandês mergulhou para cima de Russell na curva 12 e voou pedaço de carro para todo lado. “Ele jogou o carro em cima de mim!”, reclamou o tricampeão, pedindo para a equipe verificar asa dianteira e pneus. “Tá tudo bem, Max”, ouviu de volta.

Russell: pênalti deslocou o inglês de quarto para oitavo no fim

Como tinha muita coisa espalhada pela pista, acionaram o safety-car novamente na volta 26 para a faxina geral. Pérez e Stroll pararam. Leclerc assumiu a ponta, mas optou por não colocar pneus novos. E, aqui, destaque-se outra previsão que não se confirmou: a de uma calamitosa degradação dos pneus; não aconteceu, o que surpreendeu todo mundo, principalmente os pilotos. Verstappen também se jogou nos boxes durante o safety-car. Charlinho, Pérez, Gasly, Piastri, Verstappen e Ocon eram os seis primeiros. Stroll, Albon, Russell e Sainz completavam a lista do top-10.

A relargada aconteceu na volta 29 e Russell foi punido com 5s por bater em Verstappen quando foi ultrapassado. A penalidade lhe custaria caro. Ele terminaria a prova em quarto, mas o tempo acrescido o atirou para a oitava colocação. Piastri passou Gasly e assumiu o terceiro lugar. Leclerc, pouco antes, quase rodou atrás do safety-car, com pneus muito frios.

E sobrou para Pérez atacar o monegasco, enquanto Max tentava se livrar de Gasly e se defendia de Ocon, o sexto. Quando a asa móvel foi liberada, ele passou o francês da Alpine. Checo, por sua vez, tinha mais dificuldades com a Ferrari #16. Só na volta 32 conseguiu superar o carro vermelho para assumir a ponta. Na 33ª, Verstappen deixou Piastri para trás e partiu para cima de Leclerc.

Percebendo que Pérez não se mandava na frente, Chaleclé resolveu dar o troco no mexicano e na volta 36 retomou a liderança no mesmo ponto onde houvera sido ultrapassado. Na mesma volta, Max jantou o companheiro. “O vida, oh dia”, suspirou Leclerc ao ver Verstappen no retrovisor. E na volta 37 Max assumiu a ponta, fazendo a ultrapassagem sobre o ferrarista.

Para não ser mais incomodado, rapidamente o piloto da Red Bull tratou de abrir mais de 1s sobre Leclerc de forma a não ser surpreendido pela asa móvel do adversário. Mas nem precisava. Na volta 43, Charlinho errou uma freada, quase bateu, e Pérez aproveitou o ensejo para assumir o segundo lugar. Pouco depois, Piastri parou, com os pneus bem gastos. Fazia uma grande corrida. Mas caiu para 12º. Outro que despencava volta a volta era Gasly, sendo ultrapassado por todo mundo, perdendo rendimento nos pneus. A cinco voltas do fim, estava em décimo. Seu parceiro Ocon, em compensação, brilhava em quarto, trazendo com ele outro bom nome da noite, Stroll.

Leclerc, combativo, retomou sua contenda com Pérez. Na volta 46, já estava de novo a menos de 1s do mexicano para, abrindo a asa, tentar retomar o que julgava ser dele. A Red Bull, na última volta, pediu para Verstappen tirar um pouco o pé de modos que Checo pudesse aproveitar o vácuo se distanciando do assédio do piloto da Ferrari. Nem isso adiantou. Na curva 14, Leclerc foi para cima e passou o infeliz do carro #11. Como em Interlagos, no apagar das luzes – aqui, quem passou Pérez foi Alonso.

Bandeirada de Justin Bieber: meio desajeitado

Meio desajeitado, o cantor Justin Bieber deu a quadriculada para Verstappen ganhar mais uma. Leclerc e Pérez completaram o pódio. Ocon, Stroll, Sainz, Hamilton, Russell, Alonso e Piastri fecharam a zona de pontos. Ocon saiu de 16º para quarto; Stroll, de 19º para quinto. Foram dois grandes destaques da corrida. Por outro lado, três pilotos que largaram lá na frente, Gasly, Albon e Sargeant, ficaram para trás e não pontuaram. Pelo rádio, Max cantarolou, às gargalhadas, “Viva Las Vegas”, de Elvis Presley – hit dos anos 60 cuja letra, a quem interessar possa, está aqui.

Os três primeiros estacionaram seus carros no Parque Fechado e foram enfiados no banco traseiro de um Rolls Royce. Ficaram bem apertados, Verstappen no meio. O cerimonial previa levá-los até o hotel Bellagio, onde seria feita a entrevista pós-corrida diante do lago artificial com sua famosa fonte luminosa.

Verstappen e Pérez vestiam macacões circenses cheios de estrelas e com o nome de Elvis inscrito na cintura – figura onipresente em Vegas, a começar dos chatíssimos clones que se vestem como o cantor e circulam pela cidade. O primeiro, de branco; o segundo, de vermelho. O ex-piloto David Coulthard fez as perguntas protocolares, Max disse que adorou a corrida e jurou que estava ansioso para voltar no ano que vem, entraram de novo no Rolls Royce e voltaram para a área de box para receber seus troféus.

O pódio foi montado sobre uma estrutura que lembrava um gigantesco caminhão de trio elétrico puxando foliões no carnaval de Salvador. Era, na verdade, um conjunto de três caixotes revestidos de telões – os mesmos que foram usados na cerimônia de apresentação dos pilotos, quarta à noite. Troféus entregues, um show de fogos espalhados pelos edifícios mais altos da cidade encerrou a festa.

A corrida foi breve, menos de 90 minutos de ação numa pista que, embora seja de rua, é bem veloz. Ficou até um gostinho de “quero mais”. Leclerc seguiu na sua rotina de fazer poles e não vencer — são 23, com apenas quatro vitórias. Pérez, apesar da decepção da última volta, garantiu matematicamente o vice-campeonato com 273 pontos — Hamilton, o terceiro, tem 232 e também assegurou a terceira posição. Sainz e Alonso, com 200, brigarão pelo quarto lugar em Abu Dhabi, semana que vem, no encerramento do campeonato.

É a primeira vez que a Red Bull faz 1-2 na tabela de classificação. Resultado que, claro, confirma a permanência do mexicano no time para 2024 — algo que chegou a ser colocado em questão em determinado momento da temporada. No Mundial de Construtores, o vice-campeonato está totalmente aberto. Como a Ferrari marcou 26 pontos e a Mercedes fez apenas dez hoje, a diferença a favor dos alemães caiu para apenas quatro — 392 x 388. Foi um péssimo fim de semana para o time de Toto Wolff. O dirigente falou muito, mas sua equipe fez pouco.

No balanço das horas, do ponto de vista do espetáculo esportivo, Las Vegas valeu a pena. A última impressão é sempre a que fica, e essa foi boa. A qualidade da corrida será mais lembrada no ano que vem do que o infausto vexame dos primeiros treinos, que terminaram às quatro da madrugada sem público nas arquibancadas.

O resto fica por conta do gosto de cada um.

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LAS BREGAS (3)

Leclerc na pole: chance de vitória, afinal

SÃO PAULO (demorei, mas ninguém lê mesmo…) – Charles Leclerc larga na pole em Las Vegas. Será a 23ª vez na carreira que o monegasco, num grid, vai olhar para a frente e enxergar o nada absoluto. Que, para quem corre de carro, é o que o separa da glória eterna: a vitória.

Só que nosso simpático e educadíssimo Chaleclé só chegou a ela, a glória eterna, quatro vezes em todas as ocasiões em que partiu da primeira posição: na Bélgica e na Itália em 2019, quando a Ferrari estava roubando nos motores, e no Bahrein e na Austrália no ano passado. Ou seja: Charlinho converteu em vitórias só 18,18% de suas poles.

Para comparar apenas com a turma ainda em atividade: Hamilton ganhou 58,65% das provas em que saiu da pole (61 vitórias para 104 poles); Verstappen, 83,87% (26 de 31); Alonso, 63,64% (14 de 22); Bottas, 30% (6 de 20); Sainz, 40% (2 de 5); Ricciardo e Pérez, 33,33% (1 de 3).

A Ferrari, desde o início das atividades deste infeliz GP dos cassinos, tem sido a equipe mais forte na pista. Apesar de Sainz espatifar seu carro numa tampa de bueiro na noite de quinta-feira, a equipe refez o automóvel e ele conseguiu o segundo tempo na classificação, na madrugada de hoje. OK, larga em 12º pela absurda punição — trocou a bateria arrebentada na pancada e, por isso, perdeu dez posições na grelha de partida.

A propósito, vejam logo o grid, para que a gente possa comentar uma coisinha aqui e outra ali:

As posições de largada em Vegas: duas punições

Algumas curiosidades merecem ser destacadas. Como se vê, Verstappen herdou o segundo lugar de Sainz e divide a primeira fila com Leclerc. Disse que a largada será fundamental para suas pretensões de vitória. Ele não vem se sentindo muito à vontade nessa pista. Não porque não gostou dela. É porque o asfalto é liso demais e o carro escorrega o tempo todo. Em resumo, não combina com o carro que ganhou 19 das 20 corridas disputadas neste ano. Tanto que Pérez fez apenas o 12º tempo e larga em 11º. Ficou no Q2. A Red Bull bobeou com ele. Soltou o mexicano cedo demais para fazer sua volta e não tentou outra. Dançou.

Pérez: ficou no Q2

Como dançou Hamilton, outra novidade. Estacionou no Q2, larga em décimo, e decretou: suas chances de lutar pelo vice contra Pérez se tornaram minúsculas. “Só se acontecer um desastre com ele nessas últimas duas corridas”, falou. A explicação para o mau desempenho: pneus. “Nunca chegaram na temperatura certa”, explicou.

Isso porque faz frio em Vegas. Não os 5°C da semana passada, mas ainda assim, frio. A classificação aconteceu com 15°C e 17°C no asfalto. É uma temperatura aceitável, mas como as atividades são noturnas, a pista fica fria o tempo todo. Pneus macios (C5), cuja janela ideal de funcionamento se dá entre 85°C e 115°C, rodaram gelados a menos de 50°C, como se vê abaixo.

Crédito da imagem: @FDataAnalysis

Russell lidou melhor com as circunstâncias e ficou em terceiro no grid, outra surpresa. Mas disse que as primeiras voltas serão caóticas por causa dos… pneus, claro. Os três que ficaram atrás dele também surpreenderam e foram para a cama de madrugada com sorrisos gigantescos: Gasly em quarto, Albon em quinto e Sargeant em sexto. O americano tinha como melhor posição de largada um décimo na Holanda. Fez uma ótima classificação e com a Williams andando muito bem lutará por pontos na corrida. É só não bater em nada nem ninguém.

Por fim, Bottas e Magnussen entre os dez primeiros também merecem aplausos. Notem que no top-10 há pilotos de oito equipes diferentes. AlphaTauri e McLaren foram as únicas que não chegaram nem perto. E, aí, outra surpresa: o mau desempenho de Norris e Piastri, que fazem uma segunda metade de campeonato admirável, mas empacaram em Las Vegas. Não andaram bem em nenhum momento no circuito citadino de Nevada e, segundo Lando, o time errou em não usar um segundo jogo de pneus no Q1. Mas na corrida, segundo o inglês, as coisas tendem a ser diferentes. “Teremos oportunidades de ultrapassagem”, garantiu.

Norris: McLaren decepciona e fica no Q1

Não houve problemas com bueiros ou fichas de pôquer perdidas pela pista, e o segundo dia da F-1 em Las Vegas correu, como se diz, suavemente. Mas é claro que os acontecimentos da véspera continuaram repercutindo. E como Verstappen tem sido o mais bocudo dos últimos dias, claro que a imprensa foi para cima dele. E o holandês não decepcionou na metralhadora de críticas ao evento que a Liberty, dona da categoria, pretende transformar numa espécie de Super Bowl do automobilismo — já aviso: não vai conseguir.

Algumas frases de Max:

FÃS AMERICANOS “Essas pessoas estão em Las Vegas pelas festas, para ouvir música, beber. Isso você pode fazer em qualquer lugar do mundo. Adoro Vegas, mas não para correr de F-1. Venho aqui para comer, beber, me divertir. As pessoas aqui não entendem nada do que estamos fazendo na pista. Ninguém está formando fãs de F-1 aqui.”

MÔNACO X VEGAS“É como comparar a Champions League com uma liga nacional. Mônaco é a Champions League, e qualquer um prefere ganhar a Champions League do que um jogo local.”

VOUCHER PARA COMPENSAR INGRESSOS DE QUINTA“Se me dessem 200 dólares para compra boné e camiseta depois de me expulsarem da arquibancada, eu quebrava tudo.”

TOTO WOLFF“Se fosse o carro dele que tivesse quebrado por causa da tampa do bueiro, ele não diria essas coisas [defender a organização]. Mas já o conheço, não esperava nada diferente.”

O GP de Las Vegas terá 50 voltas e começa às 3h deste domingo. É a penúltima etapa do campeonato. Até agora, a pista não foi esculhambada por ninguém. Nem o evento — com exceção de Max. Uma observação quase unânime é quanto ao asfalto: liso demais. Os pilotos acham que um piso semelhante ao de Jedá, na Arábia Saudita, seria mais apropriado para uma corrida noturna e no frio.

O excesso de atividades promocionais incomoda um pouco, estão todos cansados, mas aparentemente todo mundo está entendendo que tudo “faz parte”.

Este escriba acha tudo exagerado, mas prefere esperar pela corrida para fazer um julgamento. Uma coisa é certa: no embate Esporte x Espetáculo, há uma clara prioridade para o show. Como disse ontem no nosso programete no YouTube, a F-1 não se criou nas últimas sete décadas graças a malabaristas, palhaços, domadores de leão, mulheres barbadas e amestradores de focas.

Que os organizadores de corridas, todas elas, lembrem sempre disso.

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LAS BREGAS (2)

SÃO PAULO (on fire) – Olha, é claro que vou descer o pau em Las Vegas, falar mal do evento, do exagero dos americanos, do fiasco que foi o primeiro dia do GP, mas já vou avisando: não adianta vocês ficarem histéricos, apontarem o dedo para os responsáveis, exigirem punição aos culpados. Não é assim que as coisas funcionam, não é assim que a vida é. Ninguém precisa ir para a cadeia por causa de uma tampa de bueiro. Ninguém precisa pedir o cancelamento da corrida, nem o impeachment do prefeito, nem a imediata devolução da F-1 a Bernie Ecclestone. Essas coisas acontecem. Não deveriam acontecer, num mundo ideal, mas acontecem. O que não significa, claro, que não tenha sido um vexame gigantesco. Foi.

Comecemos pelo começo. E prestem atenção: vou usar, neste texto, o horário local de Las Vegas para construir a nossa linha do tempo, com o horário de Brasília, cinco horas à frente, entre parênteses. É para ter uma noção melhor do que foi a quinta/sexta-feira para a turma que trabalha na F-1. E para os pobre-coitados que pagaram fortunas para acompanhar nas arquibancadas os três dias de evento, e já perderam um. Que reclamem no Procon, se Procon houver em Nevada.

A esta altura todo mundo já sabe que os bueiros de Vegas fizeram com que a quinta-feira festiva e luminosa de abertura dos treinos terminasse às 4 da manhã da sexta (9h de Brasília). O primeiro treino livre começou às 20h30 de lá (1h30 da madrugada de hoje por aqui) e durou exatos oito minutos. Quando Carlos Sainz estacionou seu carro inutilizado na retona do circuito, ninguém entendeu direito o que tinha acontecido. A bandeira vermelha interrompeu o treino e em seguida veio a mensagem: a sessão não seria retomada.

Como assim?

Bueiros assassinos: cerca de 30 na pista

A noite era até agradável para quem esperava temperaturas baixíssimas, na casa dos 5°C. Os termômetros marcavam 16°C. Esse problema estava mais ou menos resolvido. Mas havia algo de muito errado na pista. A transmissão oficial da F-1, aqui faça-se a crítica duríssima, omitiu de quem estava assistindo o real motivo da suspensão das atividades. Não mostrou imagem alguma do que aconteceu com Sainz — e, soube-se depois, com Ocon, também.

Ao longo dos 6.201 m do Las Vegas Strip Circuit, há cerca de 30 drenos no asfalto cobertos por tampas metálicas. Alguns as chamam, em inglês, de “válvulas hidráulicas”. Em português, são bueiros, mesmo, ainda que seu diâmetro seja menor que os que temos no Brasil. E eles são cobertos por tampas. Essas tampas de bueiros são fixadas no asfalto com cimento, concreto, massa corrida, o que for. São métodos usados na engenharia viária em qualquer lugar do mundo. Quando uma SUV Cadillac passa por cima delas a 50 km/h, não acontece nada. Mas quando um carro de F-1 grudado no chão sobrevoa um bueiro assim a 300 km/h, suga a tampa para cima. E ela “descola” do chão.

Essa imagem de uma câmera de segurança mostra o exato momento em que Sainz passou por cima da tampa do bueiro. Não sei exatamente como ou quando ela se soltou do buraco, mas foi atingida pela Ferrari do espanhol. Arregaçou o chassi, para vocês terem uma ideia do impacto. A Ferrari e os fiscais perceberam na hora o que tinha acontecido, e por isso o treino foi suspenso. Seria preciso verificar todos os bueiros da pista. E isso levaria horas.

(Aqui, parênteses que merecem destaque. Por isso, em vermelho. Como arrebentou tudo no carro de Sainz, a Ferrari teve de trocar um monte de coisa. Inclusive a bateria. E o piloto perderá dez posições no grid por causa da troca. É ridículo demais? É. Ele tem o direito de estar puto dentro do macacão? Tem. A Ferrari deveria protestar com uma barricada de pneus incendiados no grid? Deveria. Mas não teve conversa, ele perdeu mesmo dez posições no grid como consequência de um problema da organização do GP.)

A decisão de checar tudo é corretíssima. Mas há erros aí, claro, que têm de ser mencionados. Primeiro, de engenharia. Quando se projeta uma pista para carros de corrida que têm tamanha pressão aerodinâmica gerada pelo assoalho — portanto, “sugam” o ar ferozmente sob o automóvel –, esse tipo de coisa dá para prever. Além do mais, problemas com bueiros não são uma novidade na F-1. Lembram de Baku/2019? Aconteceu algo parecido com a Williams de Russell também no primeiro treino livre. Que, igualmente, teve de ser suspenso.

Alguém, claro, tinha de ter pensado nisso. Mas ainda que todos só estivessem preocupados com as luzes e os neons, a FIA vistoria todos os circuitos antes de liberá-los. E seus engenheiros, da mesma forma, tinham a obrigação de antecipar tais possibilidades. No fim, ficamos com um “bueirogate”. E o público se estrepou.

O treino foi suspenso por volta de 20h40 (1h40 de Brasília). Ali surgia outro problema em Las Vegas. O tempo necessário para fazer a vistoria que deveria ter sido feita, sei lá, no começo da semana. Mas como a tal Strip, a avenida dos hotéis e cassinos, fica aberta para o tráfego o tempo todo, ninguém pensou nisso. Preocuparam-se com alambrados, pintura de naipes nas zebras, luzes, áreas de escape, paddock na penumbra, capela para casamentos, elvis presleys fake, mas ninguém se lembrou dos bueiros.

O segundo treino deveria começar à meia-noite local, 5h da manhã de hoje em Brasília. Não deu. A previsão era de que só seria possível colocar os carros na pista depois das duas da madrugada. E, então, mais um abacaxi para descascar. Os funcionários no autódromo, segundo a legislação trabalhista do Estado de Nevada, não poderiam fazer hora extra. Então, os organizadores determinaram o esvaziamento das arquibancadas. Foi um perrengue. Teve gente que não quis sair. Trabalhadores que se dispuseram a ficar, mas desistiram porque não seriam pagos. Foi preciso chamar a polícia. Os donos do evento serão processados por muita gente, provavelmente. A vergonha lembrava o GP dos EUA de 2005, com seis carros de pneus Brigdestone no grid e 14 de Michelin nos boxes. Mas não tinha jeito. Se não tem ninguém para monitorar o público, não pode ter público. Faltou sensibilidade, empatia, respeito. Faltou alguém para dar uma solução excepcional diante de uma situação excepcional. Um desastre completo.

A pista só foi liberada às 2h30 (7h30 de Brasília). E foi concedida uma meia hora extra paras as equipes conhecerem a pista. A bandeira quadriculada encerrando os 90 minutos de prática foi mostrada às 4h locais. Sim, quatro da madrugada. Eram 9h em São Paulo e eu já estava a caminho do trabalho debaixo de uma fornalha de 35°C. Uma aberração.

Vexame? Vexame. Acontece? Acontece. O GP de Las Vegas é uma merda por causa disso? Não. Por causa disso, não. Pode ser uma merda por vários motivos, mas esse foi apenas uma intercorrência. É chato? Sim. Inaceitável, pescoços devem ser colocados na guilhotina? Não. Já disse: acontece. É melhor que não aconteça, mas nem tudo é perfeito. A pista, segundo os pilotos — a maioria deles –, é divertida, até. Tem pouca aderência, mas está longe de ser uma das piores do mundo. OK, Verstappen não gostou. Mas ele não tem gostado de nada em Las Vegas.

Pessoal está preocupado com o “graining” dos pneus. Tem a ver com as temperaturas e com os acertos de pouca asa, “low downforce”, por causa das retas enormes. Chega nas curvas, o carro escorrega de um lado para o outro e os pneus esfarelam. Será um problema nas 50 voltas da corrida. Que pode ser boa, sim, nada impede que seja. E pode ser uma porcaria. Não dá para adivinhar.

No mais, a papagaiada conhecida de Las Vegas que seja admirada ou odiada por quem a admira ou odeia. Teve casamento na capela do paddock (é ele mesmo, Villeneuve), música alta nas arquibancadas, Esfera iluminada, luxo, lixo, o de sempre.

Eu, particularmente, acho tudo uma bobagem. Não entendo que uma corrida de F-1 tenha de ser valorizada só por causa do entorno. Não acho que um GP tenha de ser apenas um detalhe num evento megalomaníaco. E, claro, considero grave o problema da pista, porque poderia resultar num acidente forte — não porque suspendeu um treino (não é a primeira vez que isso acontece) e porque o público perdeu o ingresso (idem). Que sirva como alerta. Essa corrida vem sendo tratada como o maior acontecimento esportivo/midiático do mundo. Mas quem a concebeu só se preocupou com mídia, show e espetáculo. A negligência com as tampas de bueiro fica na conta dessa idealização.

A F-1, na origem e até o fim dos tempos, é um esporte. Quem está à frente dela deve ter sempre isso em mente. A prioridade tem de ser a competição. O resto — os penduricalhos promocionais, a arquitetura da torre de controle, a iluminação do paddock, o ar-condicionado nos boxes, quem canta o hino, quem toca nas festas — é acessório. Jamais o mais importante.

Ah, falando nisso, Leclerc fez o melhor tempo na madrugada, com Sainz em segundo. Verstappen não foi muito bem, ficou atrás de Pérez. Alonso se virou nos 30 e terminou em terceiro. Bottas também — ficou em quinto. Os tempos estão aí embaixo. E eu apareço às 19h no meu canal no YouTube para falar de Vegas.

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