Flavio Gomes segunda-feira, 30 de outubro de 2023 16:21 15 comentários
A IMAGEM DA CORRIDA
Pérez no ar: decepção em casa
SÃO PAULO(só na correria!) – Acho que não tem nada mais ilustrativo do GP do México, né? Pérez, Pérez… A decepção maior é dele, claro. Em casa, diante de um público enorme, numa fase não muito boa, o melhor a fazer é ter alguma cautela. Querer resolver a corrida na largada é sempre um risco. Mas, aqui, faça-se justiça ao mexicano. Ele largou muito bem. E, de fato, havia um espaço por fora chegando à primeira freada do dia. Tanto que ele chegou a passar todo mundo. Só que era preciso fazer a curva, também. E, para fazer a dita cuja sem bater em ninguém, tinha de contar com a boa vontade dos que estavam ao seu lado. “Charles freou muito tarde e eu não esperava por isso”, explicou. “Foi um incidente de corrida.”
Nessas horas, tem de esperar qualquer coisa — e aí a gente pode criticar o excesso de otimismo do piloto da Red Bull. Checo tem razão, porém, quando fala em incidente de corrida. E isenta Leclerc de culpa. O monegasco, vaiado na entrevista pós-corrida ainda dentro da pista, fez questão de dizer alto e bom som que lamentava muito pelo que tinha acontecido com o colega. Acho que foi sincero. Essas coisas acontecem em largadas. O que potencializou a desgraça foi o fato de Pérez correr diante de seu público num momento em que seu futuro na equipe é questionado.
Mas, de novo, essas coisas acontecem. E Pérez fez coisas piores neste ano do que tentar passar três carros na largada. Abaixo, mais três imagens da batida, que podem ser vistas em tamanho família clicando nas próprias. Reparem que na primeira delas Checo aponta à frente de todos. Mas havia um carro no meio do caminho.
Decolagem……voo……e aterrissagem
O NÚMERO DO MÉXICO
2
…posições no Mundial de Construtores a AlphaTauri subiu com o sétimo lugar e os seis pontos de Ricciardo. A equipe, assim, saiu finalmente da lanterna, pulando da décima para a oitava posição com 16 pontos. Deixou para trás a Alfa Romeo (também 16, mas perde nos critérios de desempate) e a Haas (empacada nos 12 faz quatro corridas).
Ricciardo, sétimo: na fila para a Red Bull
Claro que o sétimo lugar de Ricciardo o colocou na linha sucessória da Red Bull caso aconteça algo com Pérez. Que pode acontecer. Zerar em todas, por exemplo. Não passar do Q1. Se envolver em acidentes, na sequência, com Sargeant, Stroll e o safety-car.
Mas não é o mais provável. Ele tem três corridas pela frente para, com alguma serenidade, pelo menos voltar ao pódio. Se fizer isso, fica na equipe. A Red Bull só vai mandá-lo embora em uma situação muito extrema. Neste momento, dia 30 de outubro de 2023, Sergio Michel Pérez Mendoza é o vice-líder do Campeonato Mundial de F-1.
Se terminar o ano assim, fica onde está.
A FRASE DO HERMANOS RODRÍGUEZ
“Não podemos culpar um piloto por tentar vencer a corrida de casa.”
Christian Horner, chefe da Red Bull
Verstappen: 51 vitórias, como Prost
Falemos um pouco de Verstappen, então, reforçando as cifras que empilhou ontem. Foi a 16 vitórias no ano, ampliando seu recorde que era de 15 na temporada passada. Nunca um pilotou ganhou tantas provas no mesmo campeonato. No aproveitamento — relação entre vitórias e número de corridas de uma temporada –, Max também é o primeiro. Ganhou, neste ano, 84,2% das etapas do Mundial. O recordista anterior nesse ranking é Alberto Ascari, que em 1952 venceu seis das oito disputadas (75%).
Cinco vitórias no México também é algo que ninguém tinha conseguido antes. Verstappen ganhou em 2017, 2018, 2021, 2022 e 2023. Quase 10% de seus 51 triunfos na F-1. Número que colocou o holandês ao lado de Alain Prost nas estatísticas. Se ganhar as últimas três deste ano, se torna o terceiro maior vencedor da história. À frente da dupla Prost-Verstappen, hoje, estão apenas Hamilton (103), Schumacher (91) e Vettel (53).
GOSTAMOS & NÃO GOSTAMOS
GOSTAMOS… da corrida de Lando Norris, que largou em 17º e terminou em quinto. Mas sua façanha foi ainda maior porque depois da bandeira vermelha, ele, que tinha parado antes do safety-car, caiu para 14º. E teve meia corrida para recuperar tudo. “Foi uma das melhores atuações que vi de um piloto em toda minha carreira, em qualquer pista e qualquer tempo”, derramou-se Andrea Stella, chefe da McLaren. Não por acaso, Landinho ganhou, do amigo internauta, o título de “piloto do dia”. Nas últimas cinco provas, Norris marcou 90 pontos. Está em sexto no Mundial com 169, 14 atrás de Alonso. Que, no mesmo período, fez apenas 13 pontos. Vai passar. Provavelmente já no Brasil.
Norris: grande atuaçãoTorcida mexicana: vaias e desrespeito
NÃO GOSTAMOS do comportamento da torcida mexicana, que vaiou intensamente Leclerc ao fim da corrida, arrumou briga na arquibancada e levou equipes e pilotos a contratarem seguranças particulares para poderem circular pela cidade. OK, fez festa, encheu o autódromo, mas em muitos momentos faltou educação.
Flavio Gomes domingo, 29 de outubro de 2023 19:31 30 comentários
Max de sombreiro: quinta vitória no México
SÃO PAULO (empilhando recordes) – Anotem aí: Max Verstappen tem agora 51 vitórias na F-1. Hoje, no México, empatou com Alain Prost nas estatísticas. À frente dele, agora, só Hamilton (103), Schumacher (91) e Vettel (53). Foi seu quinto triunfo no autódromo Hermano Rodríguez. Ninguém venceu tanto lá.
Anotem aí: o holandês da Red Bull tem 16 vitórias nesta temporada. Ele já era recordista de vitórias num ano – foram 15 em 2022. Agora, ampliou a marca. Foram disputadas 19 etapas até aqui no campeonato. E faltam três: Interlagos, Las Vegas e Abu Dhabi. A etapa paulistana acontece domingo que vem.
Anotem aí: Sergio Pérez conseguiu abandonar a corrida diante de seu público na primeira curva. Putz. Foram 400.639 ingressos vendidos nos três dias para ver Checo. Uma lástima. E Hamilton, segundo colocado no México, ainda fez a melhor volta da prova. Somou 19 pontos. Assim, diminuiu sua diferença para o mexicano para 20 pontos na luta pelo vice-campeonato.
Anotem aí: Sainz chegou em quarto e passou Alonso, que não pontuou, na classificação. Foi para o quarto lugar na tabela. O placar aponta 183 pontos para cada, mas Sainz leva vantagem nos critérios de desempate porque tem uma vitória. Logo, logo o espanhol será ultrapassado também por Norris (169) e Leclerc (166), já que a Aston Martin, grande atração do início do Mundial, derreteu. Apagou. Morreu. E McLaren e Ferrari seguem levando a competição a sério.
O GP do México foi até divertidinho, embora nenhuma corrida até o fim da temporada possa ser chamada de decisiva. Se é verdade que ainda há briga pelo vice entre pilotos e equipes, não é menos verdade que ninguém liga muito para isso. Então, que pelo menos as provas sejam interessantes. Essa de hoje foi, numa escala de 0 a 10, nota 6 – avaliação absolutamente pessoal e arbitrária. Já vimos melhores. Mas já vimos piores.
A ela, então.
Largada: Pérez chegou a passar todos, mas bateu
A largada teve o habitual salto de Verstappen para engolir os dois carros da Ferrari e a proverbial tragédia mexicana com uma tentativa suicida de Pérez de passar todo mundo antes da primeira curva, por fora. Pior que, coitado, largou muito bem. Chegou à freada em primeiro. Mas, ao invés de contornar a curva, resolveu fazer tomada e tangência. Encontrou, claro, um carro no caminho, o de Leclerc.
O carro de Checo decolou e quando aterrissou tinha um rombo na lateral. Foi para os boxes e abandonou. “Eliminem o piloto do carro rojo”, determinou o chefe do cartel de Tijuana. “Não tem nenhum carro roxo!”, respondeu o sicário, claramente não fluente no idioma. “Entonces termine de vez com Checo”, decretou o prócer, achando que assim facilitaria as coisas no indesejado plantão dominical. Seguiu-se um silêncio no walkie-tlkie. “Señor, não há nenhum piloto nascido na Checoslováquia, señor! Verifiquei aqui na lista de los pilotos registrados. Solo tenemos ingleses, alemanes e franceses, señor!”, respondeu, aflito. O mandante suspirou. Já não aguentava mais dar ordens e contraordens, muito menos àqueles estagiários importados sabe-se lá de onde porque o cartel entrou numas de economizar e globalizar sua gestão. Sentiu saudades dos tempos de Medellin, quando trabalhava para Pablo Escobar e tudo funcionava direito, sem RH, “home office”, “calls” e “meetings”. “Ele sim era profissional…”, murmurou para si mesmo. Na dúvida, não eliminaram ninguém.
Pérez: “Queria muito vencer”
Nos boxes, Pérez ficou dentro do carro. Chorava. Ou, pelo menos, parecia que estava chorando. A prova seguia. Verstappen, líder, era comboiado por Leclerc, Sainz, Ricciado, Hamilton e Piastri nas seis primeiras posições. Charlinho, aka Chaleclé, perdera um pedaço da asa dianteira no toque com Checo. Mas seu carro não foi afetado. Na décima volta, Hamilton passou Ricciardo e assumiu a quarta posição. O resto era uma fila indiana aborrecida.
Dois pilotos, Albon e Ocon, largaram com pneus duros, para esticar o primeiro stint. Um terceiro, Norris, partiu de macios – estava lá no fundo do grid. Os demais escolheram os médios. A ideia de todos era parar apenas uma vez nos boxes. O pit stop de Verstappen aconteceu na volta 19. Colocou pneus duros e voltou em sétimo. Causou certo estranhamento a troca precoce do holandês. Naquele momento, briga boa acontecia entre Hamilton e Sainz – pelo segundo lugar, já que Leclerc assumira a ponta na parada de Max.
Com pneus novos, Verstappen foi abrindo caminho. Na volta 22, passou Russell. Na 23ª, deixou Piastri para trás e subiu para quinto. Hamilton parou na volta 25 e o tricampeão, na mesma hora, passou também por Ricciardo, ascendendo ao terceiro lugar. Na ponta, Leclerc. Sainz, a 7s de distância, era o segundo. Max vinha menos de 3s atrás dele. Diferença dizimada em poucos minutos. Na volta 29, o holandês almoçou o espanhol com guacamole e sour cream.
Sainz parou na volta 31 e perdeu a posição para Hamilton. Leclerc, na 32ª. Voltou em segundo, com Lewis em terceiro. O monegasco se viu 16s atrás do #1 da Red Bull e 3s à frente do #44 da Mercedes. Naquele momento, os 19 carros na pista usavam pneus duros. Mas ninguém, com plena certeza, sabia se eles aguentariam até o fim.
Magnussen: suspensão quebrada e batida forte
Então, na volta 33, Kevin Magnussen deu uma senhora pancada na curva 8. A suspensão traseira esquerda colapsou e o carro da Haas apontou como uma flecha na direção do muro de proteção. O safety-car foi imediatamente acionado e Verstappen, que passava pela entrada dos boxes, correu e colocou pneus novos. Nem precisava. Uma volta depois, a direção de prova decidiu mostrar a bandeira vermelha e parou a corrida para que o carro de Magnussen fosse retirado e a barreira, reparada. “Por que parou?”, arguiu Verstappen. “Parou por quê?”, continuou. Seu engenheiro explicou. “Era só tirar o carro. Frouxos, franguinhas desossadas…”, zangou-se o piloto.
(No esconderijo do cartel, o sicário novato resolveu tomar a iniciativa de sugerir algo à chefia. Havia aprendido num curso promovido pelo RH, um curso on-line muito proveitoso, que o arrojo e a ousadia quase sempre eram premiados nestes novos tempos de gestão corporativa de grupos clandestinos. “¡Señor, vamos a sacar del auto el piloto holandés y ponemos a nuestro Pérez! ¡Puedo hacerlo ahorita mismo!”, berrou no walkie-talkie, a ponto de quase estourar os tímpanos do comandante. Este, impaciente, chamou seu segurança: “Leva esse chico para tomar um picolé ou comer pipoca. E desliga o rádio dele. Ou tira as baterias. Faz alguma coisa. Eu já não tenho um minuto de paz”. Pensou em se demitir. Voltar à Colômbia, talvez se esconder em alguma praia do Caribe. Largar aquela vida. Estava se sentindo velho.)
Ricciardo: pontos num fim de semana redentor
A prova seria reiniciada com nova largada e mais 36 voltas até a bandeira quadriculada. A interrupção durou cerca de 20 minutos. Todos puderam colocar pneus novos, o que o regulamento permite. Alguns colocaram médios. Outros, duros. Deu uma embaralhada nas estratégias, sem dúvida. O novo grid teria Verstappen, Leclerc, Hamilton, Sainz, Ricciardo, Piastri, Russell, Tsunoda, Hülkenberg e Norris nas dez primeiras posições. Destaques aqui pra Tsunoda e Norris, que largaram do fundão e, na metade da prova, já haviam escalado metade do pelotão.
As atenções para a nova largada estavam concentradas em Hamilton, terceiro no grid com pneus médios. O terceiro lugar no grid mexicano é ótimo, porque há uma longa estrada até a primeira curva – para quem é chegado num vácuo, uma delícia. A estratégia de Lewis, clara, era ter mais aderência quando as luzes se apagassem, embutir em Max por algumas centenas de metros, aproveitar o vácuo, frear lá dentro e passar.
Só faltou combinar com os russos. Max largou bem, os pneus de Hamilton não serviram para nada, Leclerc ficou entre os dois e o rubro-taurino se mandou. Hamilton partiu para cima de Charlinho e fez a ultrapassagem na volta 40, assumindo o segundo lugar. Passou com as rodas na grama. Foi bem bonita, a manobra. Se quisesse ganhar a corrida, teria de acelerar bastante. Verstappen, em primeiro, estava 3s na frente. E fazia volta mais rápida em cima de volta mais rápida. “Estes pneus não chegam no fim!”, alertou Lewis. Sabia que alcançar o rival não passava de um sonho de verão. E nem no verão estamos, ainda. No Hemisfério Norte, é outono, ainda.
Na volta 49, brigando com Piastri pelo sétimo lugar, Tsunoda acabou tocando no McLaren do australiano. O incidente foi idêntico ao de Pérez e Leclerc na largada. Oscar se manteve firme. O japonês da AlphaTauri rodou e caiu para as últimas posições.
Norris: recuperação bonita, o nome da prova
Faltando 20 voltas, Verstappen tinha quase 10s de vantagem para Hamilton. Leclerc se assentou em terceiro e Sainz teve algum trabalho para se defender de Russell até a borracha média do inglês dar sinais de fadiga. Na segunda metade do pelotão até que algumas brigas divertiam o público. A dupla da McLaren, com pneus médios, avançava bastante. Os dois da Alpine se engalfinhavam ora entre eles, ora com Hülkenberg e Bottas, da Haas e da Alfa Romeo.
Ainda houve tempo para duas belas ultrapassagens de Norris. A primeira, sobre Ricciardo na volta 60. O inglês já havia passado por Piastri, que abriu caminho a pedido da equipe. Foi para cima do sorridente australiano e no estádio conseguiu a sexta posição. Mais um pouco e chegou em Russell, o quinto. Na volta 67, começou a abrir a asa para cima de Jorginho. E, no mesmo ponto em que havia passado o carro da AlphaTauri, repetiu a manobra sobre o piloto da Mercedes. Aplausos gerais. Verstappen à parte, Landinho era o nome da prova.
Ricciardo: pontos festejadosOs dez primeiros: GP OKMax tira onda: 16 no ano
Verstappen ganhou com 13s8 de vantagem para Hamilton, que trouxe com ele para o pódio Leclerc, em terceiro. Sainz, Norris, Russell, Ricciardo, Piastri, Albon e Ocon fecharam a zona de pontos. Faça-se aqui uma menção mui honrosa a Ricciardo, que marcou seus primeiros pontos pela AlphaTauri. Isso na segunda aparição depois de ficar semanas parado, recuperando-se de uma fratura na mão. E Albon também, claro, tirando leite de pedra na Williams.
Max subiu ao pódio de sombreiro. As vaias que recebeu de mexicanos em Austin, semana passada, se se repetiram, não ouvi. Até para a torcida local foi difícil encontrar ânimo para apoiar seu infausto ídolo. E, menos ainda, para apupar um talento tão óbvio e absoluto quanto o rapaz que leva o número 1 no bico do carro.
Mas teve essa briga aqui, na arquibancada. Foi durante a bandeira vermelha após o acidente de Magnussen. Um idiota mexicano partiu para cima de torcedores da Ferrari — porque foi um ferrarista que tirou Pérez da corrida. Segundo consta, o valente foi identificado, expulso da arquibancada, e os organizadores do GP pretendem bani-lo ad eternum de seus eventos.
Flavio Gomes domingo, 29 de outubro de 2023 12:13 2 comentários
SÃO PAULO(incrível) – Reproduzo postagem do meu amigo e guru Jason Vôngoli ontem no Facebook (como ele usa esse troço, inacreditável!). Depois, vejam as fotos. E imaginem o quanto esse pássaro já viveu…
Olha aí o primeiro avião da Real Transportes Aéreos (o primeirão da frota mesmo!), pioneiro da ponte aérea Rio-SP (1946), a caminho de mais uma temporada na Antártida! Nascido DC-3 com motores radiais, esse avião foi convertido pela Basler para usar motores turboélice. Nos tempos da Real, tinha matrícula PP-YPA. Hoje é o C-FGCX e voa para a Chinare – a agência responsável pelo programa polar chinês. Durante parte do ano, esse veterano da rota Santos Dumont-Congonhas fica no norte do Canadá, nos hangares da Kenn Borek. A cada mês de outubro, quando já é primavera no Hemisfério Sul, o incansável DC-3 migra com seus pares para a Antártida, costeando o Pacífico, para mais uma temporada de trabalho na base chinesa.
Flavio Gomes sábado, 28 de outubro de 2023 19:15 20 comentários
Leclerc: pole surpreendente no México
SÃO PAULO(uau!) – Esperava-se uma pole-position de Max Verstappen. Deu Charles Leclerc. O monegasco da Ferrari larga na frente amanhã para o GP do México. Foi sua quarta pole no ano, 22ª na carreira. Uma surpresa danada. Verstappen já havia sido o mais rápido em todos os treinos livres, daí que seu favoritismo se apoiava em fatos. A maior esperança de uma surpresa — e não para a pole — era Albon, segundo colocado em duas das três sessões. Daniel Ricciardo também vinha bem, podia ficar lá pertinho. Mas… Ferrari? Sério?
E deu Ferrari. Pole e segundo lugar, com Carlos Sainz. Surpresa em dose dupla.
Vamos tentar entender essa classificação.
Albon: bem nos treinos livres, razoável na classificação
Os empolgados torcedores mexicanos vibraram com a primeira volta de Pérez no Q1, que foi derrubada em questão de segundos por Verstappen, jurado de morte pelo cartel de Tijuana. A diferença: 0s454. Ricciardo, Leclerc e Bottas também deixaram o mexicano para trás. O cartel passou a considerar a eliminação de Checo, em vez de Max.
A certeza de passagem ao Q2 levou Ferrari, Mercedes e McLaren a usarem pneus médios em suas primeiras voltas no primeiro segmento da classificação. Piastri viu que não ia dar e colocou macios. Rapidamente pulou para segundo.
Mas seu companheiro Norris ficou em último, após uma volta abortada com os médios e outra desastrosa com os macios. Ocon, Magnussen, Stroll e Sargeant foram os outros eliminados. Lando só não seria o último no grid porque Tsunoda trocou tudo em seu carro e largaria dos boxes. Logo depois a volta de Sargeant foi cancelada porque o americano não tirou o pé sob bandeira amarela. E Norris subiu para 19º na tabela de tempos. Oh. Uma droga do mesmo jeito.
Dois pilotos, Russell e Verstappen, foram avisados que seriam investigados depois da classificação. Ambos, na saída do pitlane, ficaram segurando todo mundo para entrar na pista. Alonso e Zhou, idem. Não respeitaram o tempo máximo de volta quando estavam lentos na pista. Russell também seria inquirido uma segunda vez pelo mesmo motivo. “Vamos acabar com a vida deles!”, disse um dos comissários. Todos teriam suas vidas devassadas. Familiares seriam examinados sob lupa. Celulares, grampeados. Redes sociais, radiografadas. Até as 21h30 (de Brasília) não tinha dado em nada, no entanto.
No Q2, como fizera no Q1, Tsunoda emprestou o vácuo para Ricciardo fazer uma ótima volta no início. “Vamos eliminar o japonês e o australiano”, sugeriu um sicário patriota do cartel. “Poupemos Checo!” Verstappen, em sua primeira saída, virou 1min17s625. Ninguém chegava perto. Estacionou o carro e foi tomar um cafezinho.
Piastri passou ao Q3; Norris empacou no Q1
Faltando dois minutos para o fim do Q2, todos foram para a pista. Menos Max. “Tá muito trânsito. Detesto trânsito”, falou, pelo rádio. “E hoje é seu rodízio”, troçou o engenheiro.
Sem se preocupar com as ameaças do cartel, Ricciardo melhorou ainda mais seu tempo, sempre contando com a ajuda de Tsunoda. A surpresa da segunda parte da classificação, porém, foi Hamilton. Do nada, fez 1min17s571 e pulou para primeiro – 0s054 mais rápido que o holandês da Red Bull. Zhou, Gasly, Hülkenberg, Alonso e Tsunoda ficaram fora do Q3. Albon, com o carro todo estropiado – sem saber exatamente por quê – passou em nono. Mas sua volta foi cancelada por exceder limites de pista. Assim, o chinês da Alfa Romeo avançou, levando milagrosamente os dois carros da equipe para a fase final da classificação.
Pérez foi o primeiro a abrir volta no Q3, sabendo que o cartel tinha desistido de mandá-lo desta para a melhor. Fez 1min17s788 e a torcida, iludida e burra — ninguém mais tinha tempo anotado –, comemorou. Verstappen vinha atrás enfiou nele uma tuba de meio segundo. Ricciardo, sem vácuo de Tsunoda, também passou o mexicano. E aí veio, mais do nada que Hamilton pouco antes, Sainz. E mais do nada que Hamilton e Sainz, Leclerc: 1min17s166, 0s067 melhor que seu companheiro. E, assim, ficaram os dois carros da Ferrari em primeiro e segundo. Do nada. “Pues, vamos eliminar los rojos”, decretou o sicário. “Pero Checo está em sétimo”, observou outro. “Entonces eliminamos todos! Los seis primeros!”, decidiu o chefe.
Hulk: 200 GPsMax & Charles: surpresaHamilton: carro lentoSainz, segundo: nem acreditouRicciardo, quarto: também não esperava
Havia mais uma bateria de voltas rápidas, porém. E Max preparado para jantar os dois. Mas o tricampeão estava sem fome. Não superou a dupla vermelha, que formará a primeira fila com Leclerc e Sainz. Verstappen ficou em terceiro, 0s097 atrás do pole. Ricciardo terminou num excepcional quarto lugar, seguido por Pérez, Hamilton, Piastri, Russell, Bottas e Zhou. “Matem todos”, finalizou o comandante do cartel. “E Checo?”, perguntou o subchefe. “Todos.”
Mas ficou apenas na ameaça, como sabemos. Estarão os 20 no grid amanhã.
Flavio Gomes sexta-feira, 27 de outubro de 2023 22:01 8 comentários
Verstappen na frente: nem aí para Pérez
SÃO PAULO (isso, isso, isso!) – Com os dois campeonatos decididos e um piloto caseiro que não anda nada, não poderia ser mais modorrenta a sexta-feira do GP do México. Se alguém se divertiu na abertura dos trabalhos no autódromo Hermanos Rodríguez, foram os novatos que andaram no primeiro treino livre. E foi uma festa de jardim de infância: Isack Hadjar (AlphaTauri), Théo Pourchaire (Alfa Romeo), Frederik Vesti (Mercedes), Oliver Bearman (Haas) e Jack Doohan (Alpine). Vocês já sabem, claro, que todas as equipes devem oferecer dois treinos livres para a garotada ao longo da temporada. Quase todas deixam para o fim do ano, quando as coisas estão resolvidas.
Pourchaire, coitado, teve problemas técnicos na Alfa Romeo e nem chegou a fechar volta. Mas os demais saíram de seus carros com sorrisos de orelha a orelha. “Foi o melhor dia da minha vida!”, resumiu o franco-argelino Hadjar. Abaixo, uma pequena galeria de fotos da molecada, para a posteridade.
HadjarBearmanVestiDoohanPourchaire
Agora, aos adultos.
Verstappen foi o mais rápido nos dois treinos livres que aconteceram numa tarde abafada com uma ameaça de chuva nos últimos 15 minutos da segunda sessão. Veio tão fraquinha que nem molhou a pista. Zero. Ninguém sequer abriu guarda-chuva nas arquibancadas lotadas do circuito mexicano.
O tempo de Max no segundo treino: 1min18s686. Dele até o 16º, Pierre Gasly (Alpine), apenas 0s959. Menos de um segundo. Oh, como a F-1 é equilibrada.
Não é. Pista curta dá nisso: tempos próximos, falsa sensação de equilíbrio. Será assim também em Interlagos, semana que vem.
De qualquer maneira, a McLaren, com Norris, mostrou de novo que é a segunda força da segunda metade do campeonato. O inglês ficou a 0s119 do holandês da Red Bull. O terceiro foi Leclerc, da Ferrari, seguido por Bottas (!), da Alfa Romeo, Pérez (o anti-herói local, a 0s302 do companheiro), Ricciardo (!!), com a AlphaTauri e, fechando os dez primeiros, Hamilton (Mercedes), Ocon (Alpine), Piastri (McLaren) e Russell (Mercedes).
Algumas caixinhas, agora, para fechar o dia.
Alfa bem (mas com Bottas)Williams: razoávelMcLaren: na frenteAlbon: famintoRussell: ridículoHülkenberg: 200 GPs
200 CORRIDAS – Nico Hülkenberg completa neste fim de semana 200 GPs na F-1. O alemão, 36 anos, estreou em 2010 pela Williams. Fez uma pole em Interlagos, quase um milagre. Está em sua sétima equipe. Não perca a conta, pela ordem de corridas disputadas: Force India (78), Renault (62), Williams (19), Sauber (18), Haas (18), Racing Point (2) e Aston Martin (2). Seus melhores resultados: três quartos lugares (Bélgica/2012, Coreia do Sul/2013 e Bélgica/2016. Não, nunca chegou ao pódio. Sim, é o piloto que disputou mais GPs na história sem subir ao pódio. Mas é bonzinho.
MUDA, SPRINT – Christian Horner assumiu a ponta na lista de gente que critica as corridas Sprint. O chefe da Red Bull disse que eventos como o de Austin, sábado passado, são “uma piada”. Ruins, sem competição e com uma anomalia absurda, segundo ele, que é o regime de Parque Fechado depois de apenas um treino livre. Concordo.
BODYGUARD – Verstappen está andando com seguranças no México. A Red Bull decidiu proteger o piloto depois das vaias que sofreu nos EUA, que partiram de torcedores mexicanos inconformados com a trolha que Pérez leva dele há anos. Até agora, nada de mais sério aconteceu.
Amanhã tem mais uma sessão de treinos livres às 14h30. Às 18h sai o grid do GP do México, 19ª etapa do Mundial. Que não acaba nunca… Depois desse ainda tem Brasil, Las Vegas e Abu Dhabi.
Flavio Gomes segunda-feira, 23 de outubro de 2023 16:06 36 comentários
A IMAGEM DA CORRIDA
Horas depois, as desclassificações: pódio perdido para Hamilton
SÃO PAULO (mais ou menos…) – Quando não tem nada de muito marcante, sempre fico em dúvida sobre qual foto usar para ilustrar um GP — aquela imagem única, emblemática, esteticamente incrível, dessas que só o bom fotojornalismo produz. Do pacotão da corrida de ontem em Austin, poderia colocar aqui alguma coisa da Williams, que fez pontos com dois carros pela primeira vez desde a Hungria/2021 (Latifi foi sétimo e Russell, oitavo!). Ou mesmo um retratinho de Tsunoda com chapéu de caubói, porque desde o GP da China de 2012 que um japonês não fazia a melhor volta de uma corrida — no caso, Kamui Kobayashi, então na Sauber. Verstappen comemorando? Putz, foi a 15ª vitória no ano. Repetitivo. Bandeirada? Idem. Pódio? Não são espetaculares, as fotos de pódio. Em geral, protocolares.
Então, fiquemos com o “breaking” da F-1, uma coisa meio institucional, mas importante. Quase quatro horas depois da prova saiu a decisão que desclassificou Hamilton e Leclerc. Como o inglês chegou em segundo e fez sua melhor corrida no ano, tem um peso. Mexeu forte, inclusive, na classificação do Mundial.
Lewis não deu muita bola para a perda de um troféu — tem muitos. E regra é regra, como disse Toto Wolff. No caso, medir o desgaste da prancha de madeira exige apenas uma régua numa mão e o regulamento no outro. Quanto pode? Um milímetro? Se for mais, tá fora. Um centímetro? Se for menos, tá dentro. Não tem muita discussão. Tanto que Mercedes e Ferrari nem discutiram. E Lewis mandou…
A FRASE DE AUSTIN
“É claro que é chato ser desclassificado depois da corrida. Mas isso não apaga nem um pouco o progresso que fizemos neste fim de semana.”
LEWIS HAMILTON
Lewis: troféu devolvido, mas animado com o carro
Muita gente na Mercedes acha até que Hamilton poderia lutar pela vitória em Austin. Ele terminou a prova apenas 2s225 atrás de Verstappen. Sim, sabemos que Max largou em sexto e Lewis, em terceiro. Ainda assim, talvez uma estratégia mais refinada pudesse colocar o inglês na briga de verdade. O problema é que a Mercedes saiu para uma parada. E quando resolveu mudar para duas, esticou o primeiro stint de Hamilton cerca de três voltas, nas quais o desempenho dos pneus caiu barbaramente.
Some-se a isso uma má largada e a perda de tempo num dos pit stops e, de fato, é possível que Hamilton pudesse ao menos sonhar com uma vitória, principalmente porque Verstappen tinha problemas de freios que prejudicaram seu ritmo.
Mas não esqueçam: sábado, em 19 voltas, Max enfiou 10s em Hamilton na Sprint. Ganhar dele, neste ano, só em circunstâncias muito especiais. As de Austin, como se viu, não foram suficientemente especiais.
O NÚMERO DOS EUA
30
…anos se passaram desde a última vez que um piloto estadunidense marcou pontos na F-1. A façanha foi de Michael Andretti, terceiro colocado no GP da Itália de 1993 pela McLaren. Ele, então, deixou a categoria. Com as desclassificações de Hamilton e Leclerc, Logan Sargeant, da Williams, subiu para décimo e fez seu primeiro pontinho no Mundial, encerrando o jejum dos EUA.
Sargeant & Albon: pontos em dupla……para a Williams “em casa”
Depois de Andretti e antes de Sargeant, apenas dois norte-americanos (eu uso as duas formas, embora “estadunidense” seja mais preciso) correram na F-1: Scott Speed (28 GPs pela Toro Rosso em 2006 e 2007) e Alexander Rossi (cinco aparições em 2015 pela Marussia). Ambos passaram em branco.
A Williams saiu muito no lucro após a decisão dos comissários, já que seus dois pilotos subiram para a zona de pontos. Além de Sargeant, Albon também entrou — em nono. A equipe, de certa forma, corria em casa. Embora tenha sido fundada por um inglês e sua sede fique na Inglaterra, ela hoje pertence a um fundo de investimentos dos EUA.
E agora umas caixinhas, para animar a festa.
FITTI DENTRO – A segunda-feira foi de notícias envolvendo os “Fittipaldi Brothers”, como gostam de ser chamados nas redes sociais. Pietro vai correr na Indy, pela equipe RLL (Rahal Letterman Lanigan), uma ótima notícia para ele. Desde 2019 o rapaz ocupa a função de piloto de testes da Haas, mas nesse tempo todo conseguiu disputar apenas dois GPs — Sakhir e Abu Dhabi/2020, no lugar do chamuscado Romain Grosjean. Nunca foi considerado para uma vaga de titular. Paralelamente, correu no WEC, DTM, Stock, F-3 Asiática, ELMS, IMSA e até na própria Indy — fez seis provas em 2018 e mais três em 2021. Um saltimbanco que, agora, lança âncora nos EUA. Não foi oficializada sua saída da Haas. Mas será. Os calendários são incompatíveis.
Pietro: fechado na IndyEnzo: fora da Red Bull
FITTI FORA – Para seu irmão Enzo, as notícias não são tão boas. Helmut Marko avisou que o a Red Bull só terá dois pilotos na F-2 no ano que vem, o franco-argelino Isack Hadjar e o espanhol Josep María Martí. Enzo, portanto, deixa o programa de jovens talentos da marca de energéticos. A temporada da F-2 ainda não acabou, e o jovem Fittipaldi ainda não sabe se segue na categoria no ano que vem.
VAIAS – O público em Austin, formado em parte por imigrantes e/ou turistas mexicanos, vaiou Verstappen no pódio aos gritos de “Checo! Checo!”. Uma deselegância de torcedores fundamentalmente jecas — e os mexicanos são cafonas ao extremo em suas manifestações supostamente patrióticas. Max não se deu ao trabalho de comentar. O que Pérez teve a comemorar foi a desclassificação de Hamilton. Em segundo no Mundial, a diferença para o inglês tinha caído de 30 para 19 pontos. Como Lewis perdeu o segundo lugar na corrida, Checo subiu de quinto para quarto e, na tabela, abriu 39 pontos para o rival.
Verstappen vaiado: nem aí
GOSTAMOS & NÃO GOSTAMOS
GOSTAMOS de ver Yuki Tsunoda chegando nos pontos e cumprindo a missão, na última volta, de fazer o ponto extra da melhor volta da corrida. Ele foi o décimo colocado na pista e subiu para oitavo com as desclassificações de Hamilton e Leclerc. “Quando me pediram para trocar pneu no fim, quase tive um ataque do coração!”, contou. Ele tinha alguma folga, e a AlphaTauri o chamou para colocar macios e cravar todo mundo. Cravou.
Tsunoda: melhor voltaLeclerc: pior estratégia
NÃO GOSTAMOS da estratégia de apenas uma parada para Charles Leclerc. Deu evidentemente errado. E a Ferrari não percebeu isso a tempo de mudar os planos — como fez a Mercedes, por exemplo. Largando na pole, o monegasco terminou em sexto. Para piorar, acabou desclassificado.
Flavio Gomes domingo, 22 de outubro de 2023 18:58 61 comentários
ALERTA DE ATUALIZAÇÃO: quase quatro horas após o fim da corrida, Lewis Hamilton (segundo colocado) e Charles Leclerc (sexto) foram desclassificados porque as pranchas de madeira sob o assoalho de seus carros apresentou desgaste maior que o permitido. Assim, o resultado foi alterado e o texto, idem.
Verstappen, 50 vitórias: agora, os alvos são Prost e Vettel
SÃO PAULO(para poucos…) – Max Verstappen teve paciência para vencer o tático GP dos EUA hoje no Texas. Largando em sexto, depois de uma punição na sexta-feira que lhe tirou a pole, precisou de meia corrida para assumir a ponta em Austin. Jogou com a estratégia de pneus dele e dos outros, e com a gestão da borracha. Não arriscou muito. Soube esperar o momento certo de tomar o controle da prova. Quando o fez, não teve muito com que se preocupar. Caminhou célere para a 50ª vitória de sua carreira. E a ela chegou.
Faltam quatro etapas para o fim do Mundial. Nas estatísticas, Max tem à frente, em número de vitórias, apenas quatro pilotos: Lewis Hamilton (103), Michael Schumacher (91), Sebastian Vettel (53) e Alain Prost (51). Deve fechar o ano à frente do francês, pelo menos. Se passar o alemão que se aposentou no ano passado, ninguém deve se espantar. É um fenômeno de desempenho, frieza, talento e precisão. Não se sabe onde vai chegar quando pendurar o capacete. Ainda que não solte rojões, nem comova multidões com carisma inigualável, pode ser que atinja o topo do topo: o melhor de todos os tempos.
Eu que não duvido.
E vamos à história desse GP texano, que não foi grande coisa, mas mostrou, mais uma vez, a capacidade da Red Bull e de Verstappen de lidar com a adversidade e, de um limão siciliano, fazer uma deliciosa macarronada com molho cremoso e delicado. E que teve, como visto na caixona vermelha acima, seu resultado alterado cerca de quatro horas depois do final, com as desclassificações de Hamilton e Leclerc.
Norris, líder no início: boa largada e pódio merecido
Com sol e calor, o GP dos EUA começou com a informação dos organizadores de que 432 mil ingressos foram vendidos para os três dias do evento. De fato as arquibancadas estavam cheias. Foi a segunda prova realizada no país neste ano. Ainda tem mais uma, em Las Vegas.
De décimo no grid para sexto ao fim da primeira volta, Oscar Piastri foi quem largou melhor entre os 16 no grid — quatro almas largaram dos boxes, as duplas da Haas e da Aston Martin. O australiano, porém, só foi protagonista no comecinho da prova de Austin. Acabaria abandonando a corrida, com um vazamento de água. Resultado de um esfrega-esfrega com Ocon, que também abandonou. Olho lá na frente, então.
Leclerc se preocupou tanto em se defender e manter a pose de pole-position que acabou sendo superado por Norris, companheiro de Piastri. O inglês da McLaren, segundo no grid, assumiu a ponta nos primeiros metros da prova e se mandou.
Observação sempre relevante, antes de seguir: todos os pilotos largaram com pneus médios – OK, nem todos; as exceções foram Hülkenberg e Stroll, dois dos que saíram dos boxes. Mas é importante dizer porque, ao final das 56 voltas nos EUA, a escolha pelos compostos médios e duros acabaria tendo alguma influência no resultado final.
Verstappen ganhou apenas uma posição na largada, avançando de sexto para quinto. Começou a prova discretamente, sem incomodar ninguém. Ficou ali calminho, assobiando e escutando Duran Duran no toca-fitas Bosch modelo Rio de Janeiro instalado no cockpit. Sem o tradicional e incrível amplificador Tojo, é bom que se diga, preterido por causa do peso. À frente dele, Hamilton mergulhou para cima de Sainz e ganhou a terceira posição. Norris, Leclerc, Lewis, Sainz e Max eram os cinco primeiros na volta 5.
Duran DuranRio de Janeiro BoschFita C90
Ao final dela, a volta 5, Verstappen passou pelo espanhol sem muito esforço para assumir o quarto lugar. Naquele momento, tocava “Save a Prayer” no sonzão de seu Red Bull. A fita do Duran Duran era C90, suficiente para a corrida toda. E Rio de Janeiro, como se sabe, tem auto reverse.
A Ferrari não enchia os olhos de ninguém, mesmo. Tanto que logo depois Hamilton passou por Leclerc com enorme facilidade, assumindo o segundo lugar. O monegasco suspirou e olhou no retrovisor. Ouvia, a distância, alguma música conhecida. Era “Hungry Like the Wolff”, saberia depois. Saía dos alto-falantes Bravox triaxiais do carro de Verstappen, que já vinha colado nele.
Foi na 11ª volta que Max passou por Charlinho. A música ainda não tinha terminado. A próxima era “The Reflex”. “Gostei dessa!”, disse o piloto pelo rádio. “Foi mesmo uma ótima ultrapassagem, Max”, respondeu o engenheiro. “Tô falando da música, GP”, respondeu o piloto. “GP” é como ele chama Gianpiero Lambiase, que fica em contato com ele a corrida toda. “Também gosto, Max. O que vem agora?”, devolveu GP. “É o Hamilton! U-hu!”, informou Verstappen. “Não, Max. A próxima música…”, corrigiu o engenheiro. “Ah, deixa eu ver… ‘New Moon on Monday’, tá escrito aqui na caixinha.” “Também gosto dessa, Max”, vibrou o parceiro de todas as horas.
Na volta 17, Verstappen parou. Colocou mais um jogo de pneus médios e caiu para nono. “Você tem certeza, Max?”, perguntou Lambiase. “Sim, ‘New Moon on Monday’, tá escrito aqui.” “Não, Max, certeza que era para colocar médios? Assim vamos ter de parar de novo.” “Ah, sei lá… Ouve, ouve, vou aumentar o volume aqui. Tem Dolby, mano! Esse Rio de Janeiro é foda!”
Tive alguns. É foda, mesmo.
Alegria com os mecânicos: temporada impecável de Verstappen
No rastro da parada de Max, os pit stops começaram a ser feitos em ritmo frenético. Na 18ª volta, o líder Norris parou também. Colocou pneus duros, insinuando que poderia fazer apenas uma visita aos boxes. Hamilton assumiu a liderança. Pérez, mais atrás, parou e espetou um jogo de pneus médios. Pelo rádio, a Red Bull informou a Verstappen que Lewis poderia estar numa estratégia de apenas uma parada. “Ah, é? Legal… Olha só! Tenho uma coisa pra te dizer, GP!”, falou Max. “O quê? Vamos de macios no fim?” “Não, não! ‘The Wild Boys’ é a próxima, adoro essa!” Foi quando Christian Horner entrou no rádio colocando um ponto final àquele papinho aranha de adolescentes gravando cassetes nas tardes de domingo. E deu-lhe uma senhora bronca: “Max, você só levou essa fita? Duran Duran, sério isso? Na próxima parada temos duas opções pra você. Simple Minds ou Supertramp”, avisou. “Supertramp”, respondeu o piloto.
Quando Lewis trocou seus pneus, colocando um jogo de duros possivelmente para ir até o fim da corrida, perdeu a posição para Verstappen. A parada foi ruim. Leclerc assumiu a liderança, porém sem pit stops. Norris vinha em segundo e Max, em terceiro. Charlinho era o único na pista que não tinha parado, ainda. Sua estratégia — desastrosa, ver-se-ia depois — era de apenas uma troca. Foi para o box na volta 24 e Landinho retomou a ponta. A corrida estava entre ele, se fizesse apenas uma parada, e Verstappen.
Max chegou em Norris na volta 27. E exatamente na metade da prova, na 28ª, passou o britânico do time papaia. “Viram? Viram?”, gritou no rádio. “’A Matter of Feeling’, é linda…”, suspirou o chefe da Red Bull. “Chris, eu passei o Norris! Eu tô em primeiro, é sobre isso…”, reclamou o piloto. “Steal away in the mooooorning…”, seguiu cantando Horner, os olhos fechados, a cabeça gingando para um lado e para o outro, lembrando aqueles dias encantados dos anos 80, sem se importar minimamente com o entusiasmo de seu piloto.
Hamilton à frente da Ferrari: segundo em Austin, mas desclassificado
Em segundo, Norris teria a corrida na mão, se não precisasse parar de novo. Atrás de Verstappen, passou a dedurar o rival. “Ele saiu da pista, olha lá no teipe!”, gritou. “OK, Lando”, ouviu de volta, da equipe. “Ele tá virando a fita sem o auto reverse, olha lá na on-board dele!”, insistiu. “OK, Lando.” “Ele fez tchau pra uma mina na arquibancada e tem namorada, olhá lá!”, seguiu. “OK, Lando.”
Para ganhar a prova, teoricamente, Verstappen precisaria abrir mais de 20s para Norris, para colocar um segundo jogo de pneus e – vá lá – trocar a fita do Duran Duran para a sugerida por Christian Horner, a do Supertramp. Isso, claro, considerando uma hipotética estratégia de apenas um pit stop do inglês do carro #4. Seis voltas depois de passar por Norris, porém, sua diferença para o inglês da McLaren era de apenas 3s4. Não conseguia abrir muita coisa. Então – surpresa! –, Lando foi para os boxes na volta 35. Ué, não era uma parada só? Em tese, sim. Mas, pelo jeito, a borracha não aguentou. Colocou duros, de novo.
E, aí, acabou a brincadeira.
Primeira vitória após o tri: máquina de vencer
“Pessoal, cadê o Landinho?”, perguntou Max, ao assumir a liderança. “Vou parar também.” Foi o que fez, na volta seguinte. Colocou pneus duros, para voltar à frente de Norris. E voltou, com pouco menos de 2s de vantagem. A corrida ficou para ele. À sua frente, Hamilton, Pérez e Leclerc ainda teriam de fazer uma segunda parada cada. Não precisaria passar ninguém.
Pérez foi para os boxes na 38ª volta, e Lewis parou na 39ª, exatamente enquanto Max ultrapassava Leclerc. E, assim, o tricampeão assumiu a liderança de fato e de direito, com todos na pista tendo parado duas vezes. A dupla da Mercedes foi para a fase final da corrida com pneus médios. Hamilton era o quarto colocado e Russell, o nono. Max teria, no máximo, de monitorar Norris, o segundo. Leclerc ocupava a terceira posição.
Foi quando Verstappen reclamou pelo rádio. “Eu queria aquele disco gravado ao vivo em Paris, Chris. Você colocou ‘Breakfast in America’. É legal, mas não é ao vivo”, queixou-se, com razão. Pouco atrás, Hamilton, de pneus médios, passou a atacar Leclerc, com pneus duros. Valia um lugar no pódio. Lewis passou na volta 43. Havia uma chance de buscar Norris, que tinha pneus duros. A diferença esbarrava nos 4s.
Ao vivo em Paris: um clássico“Breakfast…”: igualmente maravilhoso
“Dá pra ir até o fim?”, voltou Verstappen ao rádio. “Claro, Max. Esses pneus aguentam”, tranquilizou-o Lambiase. “Tô falando de ‘Take the Long Way Home’, que começou agora. Quanto tempo tem?” O engenheiro foi ao Google: “Cinco minutos e nove segundos, Max, menos de quatro voltas”, calculou. “Ah, então vai ter de tocar outra…”, lamentou o piloto.
Na volta 49, com pneus melhores, Hamilton partiu para cima de Norris e, com alguma dificuldade, conseguiu passar o garoto mclariano. Assumiu o segundo lugar e, para ganhar a corrida, teria de escalar uma montanha de 5s para o líder Verstappen. Impossível. O pódio parecia montado, com Lando em terceiro, mesmo. Sainz e Leclerc, este com pneus em frangalhos, vinham em quarto e quinto.
Max reclamou bastante dos freios até o fim da corrida e chegou a gritar com o pessoal da equipe para não falar com ele quando estivesse brecando o carro. Mas, sem maiores problemas, acabou recebendo a bandeira quadriculada em primeiro, pela 15ª vez no ano, em 18 corridas. Igualou seu próprio recorde de vitórias na mesma temporada, que havia estabelecido no ano passado.
Stroll: finalmente nos pontosTsunoda: melhor volta da provaFinal em Austin: duas desclassificações
As desclassificações de Hamilton e Leclerc alçaram à zona de pontos a dupla da Williams. Albon ficou em nono e Sargeant, em décimo. Foi o primeiro ponto do americano na categoria, e os primeiros pontos de um piloto nascido no país desde o terceiro lugar de Michael Andretti no GP da Itália de 1993. Norris herdou o segundo posto de Lewis e Sainz ficou com a terceira posição no pódio. Em sétimo, Stroll voltou a pontuar depois de cinco corridas no zero. Mesmo assim, sua Aston Martin perdeu o quarto lugar entre as equipes para a ascendente McLaren. Por fim, Tsunoda registrou a melhor volta de um GP pela primeira vez na carreira. Fez quatro pontinhos do oitavo lugar (tinha sido décimo e subiu duas posições com as desclassificações) e mais o extra pela volta mais rápida.
Esteve longe de ser a melhor corrida de todos os tempos, esse GP dos EUA. Mas, mais uma vez, Verstappen e a Red Bull deram uma aula. Desta vez, de paciência e estratégia. Ao fim, Horner parabenizou Verstappen no rádio. E perguntou qual música estava tocando quando ele recebeu a bandeirada, afinal de contas, na fita do Supertramp.
Flavio Gomes sábado, 21 de outubro de 2023 20:02 7 comentários
Verstappen: sexta vitória em Sprints
SÃO PAULO(tudo como dantes…) – Sem nenhuma dificuldade, Max Verstappen venceu a Sprint do GP dos EUA em Austin. Colocou mais oito pontos no bolso e recebeu uma plaquinha comemorativa para deixar na estante. Foi a 11ª Sprint da história. Max ganhou seis delas. A F-1 inventou as corridas curtas na temporada de 2021. Foram três naquele ano, mais três em 2022 e, nesta temporada, serão seis no total. Interlagos fecha a sequência. Os outros vencedores de Sprints, para quem certamente irá perguntar: Valtteri Bottas (duas), George Russell, Sergio Pérez e Oscar Piastri (uma cada).
Hoje, Hamilton foi o segundo e Leclerc, o terceiro. Como se sabe, o que acontece na Sprint fica na Sprint. Diferentemente dos anos anteriores, a corridinha não interfere mais no grid de domingo. Este foi definido ontem, e Leclerc larga na pole amanhã para o GP dos EUA. Verstappen parte em sexto e, mesmo assim, é favoritíssimo à vitória.
Mas vamos contar a história rápida desse, como diz o Fábio Seixas, “Pequeno Prêmio” norte-americano.
Largada em Austin: só Sainz com macios
O grid da provinha texana fora definido algumas horas antes com Verstappen na pole, Leclerc em segundo, Hamilton em terceiro e Norris em quarto. Russell, oitavo, perdeu três posições por ter atrapalhado Leclerc e caiu para 11º. Na largada, o único piloto com pneus macios era Sainz, sexto no grid. Todos os demais escolheram os médios.
Verstappen largou bem, mas foi atacado por Leclerc. Se defendeu, e quem aproveitou a refrega foi Hamilton, que acabou passando o monegasco. A Mercedes, toda espevitada, largou bem também com Russell, que recuperou as três posições que perdera no grid ainda na primeira volta.
Lewis não deixou Max escapar muito, o que não deixou de ser uma surpresa no início da prova. Neste ano, o mais habitual foi ver o holandês desaparecer rapidamente na frente. Com um novo assoalho, já parte dos estudos para o carro do ano que vem, o time alemão deu a sensação de que melhorou bem em Austin.
Sainz: enquanto pneus duraram, foi bem
Vendo Hamilton muito perto pelo espelho, Verstappen entrou no rádio e observou: “Minha dirigibilidade não está lá grandes coisas”. Sim, juro que ele falou “dirigibilidade”. “Talvez você tenha levado uma lufada de vento, Max”, respondeu o engenheiro. Juro que ele falou “lufada”.
Na volta 6, porém, o tricampeão conseguiu abrir mais de 1s sobre o inglês, evitando assim ataques com asa móvel. Aí sim, as coisas voltaram ao normal. Foi embora, desapareceu. Russell, com o outro Mercedão, recebeu um pênalti de 5s por ter passado Piastri pelos jardins de Austin. Verstappen, Hamilton, Leclerc, Sainz, Norris, Pérez, Russell e Gasly eram os oito primeiros. A corrida teria 19 voltas.
Norris passou Sainz na décima volta, quando os pneus macios do espanhol da Ferrari começaram a abrir o bico. Foi para quarto, mas estava muito longe de Leclerc, o terceiro, para almejar uma medalha de honra ao mérito. Pérez passou na volta seguinte, jogando Sainz para sexto.
Albon, nono: mais um pouquinho pegava o ponto de Russell
E nada mais aconteceu. Verstappen recebeu a quadriculada com 9s465 de vantagem para Hamilton. Leclerc, Norris, Pérez, Sainz, Russell e Gasly fecharam a zona de pontuação, que vai até o oitavo na Sprint. Por causa da punição, Jorginho e Pierre trocaram de posição.
Max saiu do carro que nem suado estava. Disse que a prova de amanhã será “divertida”. Para ele, certamente. Para aqueles que serão trucidados mais uma vez, menos. De qualquer forma, ainda temos uma briga pelo vice-campeonato em curso. Pérez chegou a Austin 30 pontos à frente de Hamilton. Com o resultado da Sprint, a diferença caiu para 27. Checo, dizem as línguas ferinas que espalham veneno pelo paddock, foi intimado pela Red Bull a ficar pelo menos em segundo no Mundial. Caso contrário, terá de pedir o seguro-desemprego no final do ano.
Jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet, se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.”
O Dacia Logan que dividiu os 25 km de Nürburgring com Max Verstappen foi o grande herói do fim de semana nas pistas. O carrinho fabricado na Romênia acabou se transformando no xodó dos 350 mil esp...
1:10:23
CAMPEÃO TEEN (BEM, MERDINHAS #255)
Se conquistar o título deste ano, Kimi Antonelli o fará com 20 anos de idade, tendo começado a temporada oficialmente como um... adolescente! Depois de vencer as três últimas corridas com muita a...