DICA DO DIA

Talvez seja repeteco, mas as imagens coloridas do GP da Bélgica de 1955 são maravilhosas. Bom sábado a todos.

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GIRA MONDO, GIRA

SÃO PAULO (deu certo) – Não tenho certeza se era uma carranca de boi, ou apenas um par de chifres. De todo modo, o ornamento na fachada do restaurante era impossível de não ser notado se seu lugar no banco de trás do carro ficasse atrás do assento do passageiro, que era meu caso, já que o irmão mais velho ficava atrás do meu pai, que dirigia, e o mais novo, no meio. A janela do lado direito era a minha, por algum desígnio quiçá divino. Sempre foi assim, o que limitava a paisagem ao que se podia enxergar à direita, e quando a Variant subia a alça de saída da grande avenida para fazer o retorno rumo ao bairro que se derramava pelo lado esquerdo, meu olhar instintivamente procurava aqueles chifres inexplicáveis que funcionavam como uma clara referência visual, um sinal de que estávamos chegando em casa.

Restaurante Dançante Bambu, informava o letreiro que eu já conseguia ler, e a construção que na minha memória era imponente, de madeira escura e telhado pronunciado, guardava alguma semelhança com as peças do meu Forte Apache, associação tortuosa estabelecida, talvez, por causa dos chifres espetados na entrada do estabelecimento, ou da chaminé de pedras. O Forte Apache também tinha casas de madeira, chaminés, bois e cavalos. Aquele lugar, no entanto, me parecia proibido para crianças porque segundo meu pai só funcionava à noite e as pessoas iam lá para dançar durante o jantar, algo que para mim fazia tão pouco sentido quanto aquela carantonha guampuda na porta.

Dia desses alguém me mandou uma foto aérea antiga da região. Não sei quando foi tirada, mas é anterior a 1968, porque meu prédio não estava lá ainda — vê-se perfeitamente o terreno onde seria construído no ano seguinte. Mas o Bambu, sim. O restaurante foi inaugurado em 1950, portanto está lá há mais de setenta anos, o que é verdadeiramente assombroso. Há alguns anos desapareceram da casa de madeira os chifres e o letreiro, a sensação de abandono era visível, mas esta semana passei por ali a pé e notei que uma reforma está sendo tocada com vigor. Fui pesquisar e descobri que o Bambu vai reabrir, não sei exatamente quando, espero que recoloquem a careta do boi e o grande letreiro, e apurei que o nome não será mudado e ele continuará dançante. Como não sou mais criança, poderei, finalmente, frequentá-lo.

À direita da construção circular, do outro lado da rua: Bambu já estava lá, na esquina

Na foto também consegui identificar, na minha rua, o bar do Márcio, o posto de gasolina que segue no mesmo lugar e algumas casas que ainda estão de pé em nosso pequeno quarteirão. Meu bairro não é particularmente afamado, embora seja vizinho da principal artéria Norte-Sul da cidade e nele eu me sinta bem por ter ao alcance da vista o aeroporto construído pela mesma empresa que fez o autódromo de Interlagos, cujo acesso se dá por esse mesmo eixo viário, assim como posso ver o prédio onde meus filhos moram, do outro lado da grande avenida, e se me deslocar para o outro lado do apartamento, o Setor Leste, consigo divisar as proximidades do galpão onde guardo meus carrinhos. Sendo assim, tenho sempre a sensação de que estou perto de tudo que me é necessário, e tem outra coisa que gosto muito, que é ver meu prédio quando chego de avião à cidade. É bom saber que ele continua lá impávido, tranquilo e infalível depois de longas jornadas por outras bandas.

Mas meu bairro, eu dizia, não é nomeadamente ilustre por não apresentar nada de especial do ponto de vista histórico e arquitetônico, embora eu considere o Bambu um símbolo citadino tão expressivo quanto a Torre Eiffel ou a Catedral da Sagrada Família, especialmente se na reforma forem recuperados os cornos bovinos do frontispício. Admito, porém, que nem todos estão preparados para reconhecer sua relevância, e por isso evito falar publicamente sobre o tema, muito menos digo que moro “perto do Bambu” como diria “ao lado do Empire States” se vivesse em Nova York, ou “vizinho da Fontana di Trevi” caso tivesse a fortuna de morar em Roma.

Imagem antiga do restaurante: faltam os chifres na fachada

Tal juízo formado sobre a singeleza do arrabalde onde me assentei há mais de uma década caiu por terra, contudo, nesta semana. Ao folhear o jornal de ontem, quinta-feira, deparei-me com uma matéria muito interessante sobre a vida de Elis Regina em São Paulo, assinada pelo jornalista Renato Contente. É um ótimo nome, Renato Contente. Elis morava num apartamento em Cerqueira César, na rua Melo Alves, quando passou mal e foi levada para as Clínicas, ali ao lado, no dia 19 de janeiro de 1982, há exatos quarenta anos. Também viveu no Centro, no Jardim América e no Brooklin. A reportagem indica um roteiro informal de sítios que tiveram alguma importância na vida pessoal e na carreira da cantora — o bar onde estreou na capital, em 1964, os teatros onde eram gravados seus programas de TV, locais onde se apresentou em shows épicos, o cemitério onde foi enterrada –, e correndo pelo texto fiquei sabendo que nos anos 70 Elis comprou um boteco para seus pais, Romeu e Ercy. “Romeu morreu em 1984, dois anos após a filha, e Ercy tocaria o estabelecimento até 1990, quando repassou o ponto para o seu então fornecedor de pães, João Batista”, escreve Contente.

O bar do Batista: local histórico

Avenida Ceci, 868, Saúde. O local é situado oficialmente na Saúde, mas todos nós, que moramos por aqui, sabemos que a Saúde é grande demais, e por isso a Ceci fica mesmo no Planalto Paulista, comedido bairro sem grandes atrações até a descoberta tardia da magnitude do bar do piauiense Batista, que trabalhava na vizinha Padaria Ceci e levava pães aos pais de Elis, e se nunca na vida tive um bar para chamar de meu, adotei o Batista quando me mudei para cá em 2010, porque o Batista pessoalmente fazia a caipirinha e o sanduíche de pernil das minhas primeiras noites solitárias nas redondezas, e hoje, quando vamos almoçar um PF nas tardes ensolaradas da metrópole, minha cearense tijucana se desborda em ternura à mesa diante das pequenas travessas com arroz, feijão, farinha e rabada, junto a uma obrigatória garrafa de tubaína e à voz inconfundível do Batista, tão inconfundível quanto a de Elis, porque são essas vozes que ficam na nossa vida.

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Nem falo nada…

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DO BAÚ

Na semana em que a ESPN Brasil acabou, João Luiz Marques me manda essa preciosidade: a volta do “Limite” em 2005, com João Carlos Albuquerque, Mauro Cezar Pereira e este que vos bloga. Tem uma matéria do André Plihal com minha pequena coleção da época. Que delícia de ver!

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TO SPRINT OR NOT TO SPRINT

SÃO PAULO (eis a questão) – Gostaram das Sprints no ano passado? Pois preparem-se. Pode ser que não tenhamos nenhuma neste ano. Refrescando a memória: em Silverstone, Monza e Interlagos, em 2021, uma sessão de classificação tradicional definiu um grid na sexta para a corrida de meia hora do sábado, cujo resultado se converteu no grid do GP dominical. E, ainda, os três primeiros colocados fizeram pontinhos, ganharam medalhas, coroas de flores e um vale refresco + sanduíche para gastarem quando e onde quisessem.

O público aprovou — principalmente porque a Sprint do Brasil foi bem legal, graças à atuação de Hamilton — e a Liberty decidiu ampliar a brincadeira para seis etapas em 2022, a saber: Bahrein (pelo anel externo), Ímola, Canadá, Áustria, Holanda e São Paulo de novo. Só que tem equipe colocando areia na história. Aliás, equipes, no plural. Querem que a FIA amplie em US$ 5 milhões o teto orçamentário de US$ 140 milhões para fazer essas seis corridinhas. Para que a realização de seis Sprints seja incluída no regulamento na mesma temporada em que a medida será votada, oito dos dez times devem aprovar. Para a temporada seguinte, metade dos votos basta.

No ano passado, a FOM (empresa que ainda existe e pertence à Liberty, só para deixar claro) pagou US$ 100 mil para cada equipe por Sprint e ampliou o teto de gastos em US$ 450 mil para compensar os custos envolvidos na operação. E também prometeu pagar US$ 100 mil para consertar eventuais estragos em caso de acidente. Para 2022, a proposta é pagar US$ 650 mil pelas seis Sprint — mais o seguro de US$ 100 mil — e não mexer no teto de gastos.

Zak Brown, chefe da McLaren, acha que tem gente querendo dar uma pedalada para aumentar o orçamento. E que isso pode inviabilizar a realização das Sprint nesta temporada. Imagina-se que estão no grupo das três grandes, os espertalhões. São times que controlam mais de um voto nesse reduzido colégio eleitoral. Se for a Red Bull, a AlphaTauri vota igual; no caso da Ferrari, Haas e Alfa Romeo vêm junto; a Mercedes, por sua vez, determina as escolhas pelo menos de Williams e Aston Martin.

Eu curti as Sprint, sempre com a ressalva de que elas devem ser usadas com moderação. Para um calendário gigantesco de 23 etapas, seis representam 26% do total. Mais do que um quarto. Acho que está no limite. Se passar disso, começa a ficar exagerado. Mas, pelo jeito, pode ser que não tenhamos nenhuma.

Vocês são contra as Sprint, a favor ou muito pelo contrário? Votem aqui nos comentários. O voto é eletrônico. Mas os que quiserem um recibo impresso podem mandar seus e-mails que enviaremos o arquivo, em forma de piroca intumescida.

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ELZA

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RÁDIO BLOG

SÃO PAULO – O rascunho da História, é como definimos o jornalismo — usei muito essa expressão no meu livro “Ímola 1994”. No dia em que a morte de Elis Regina completa 40 anos, encontrei esta gravação do “Balancê”, programa da antiga Rádio Excelsior (hoje CBN) que naquele 19 de janeiro de 1982 estava sendo apresentado pelo meu grande amigo Reinaldo Costa.

O “Balancê” foi inovador desde o início. Osmar Santos, líder da equipe de esportes da antiga Jovem Pan, foi contratado pelo Sistema Globo de Rádio em 1977 levando com ele vários integrantes de seu time. Entre eles, um repórter de campo gordinho chamado Fausto Silva.

Faustão se revelou um grande apresentador no “Balancê”, com todo seu repertório de humor, conhecimento musical e penetração no meio cultural e esportivo. O programa misturava tudo: futebol e música, teatro e literatura, cinema e Fórmula 1, era um espetáculo de informação, opinião, entrevistas, números musicais levados ao vivo dos estúdios da Excelsior no labiríntico prédio da rua das Palmeiras, no centro da cidade.

Foi o “Balancê” que levou Fausto à TV com o “Perdidos na Noite” — primeiro na TV Gazeta, depois na Record e, finalmente, na Bandeirantes. Seu sucesso nas noites de sábado levou a Globo a contratá-lo para ser o dono dos domingos, e lá ele ficou por mais de 30 anos até voltar, no início desta semana, à emissora do Morumbi.

Osmar estava no ar dando informações futebolísticas direto da Europa quando Reinaldo o interrompeu assim que chegou à Redação a notícia da morte da Pimentinha, pouco depois do meio-dia. Rapidamente o programa mudou todo seu roteiro e permaneceu pela hora seguinte inteira falando de Elis, com repórteres no Hospital das Clínicas e participações de convidados — entre eles, Jair Rodrigues.

Foi pelo rádio que eu soube da morte de Elis Regina. Lembro exatamente. Estava na Rodovia dos Bandeirantes com minha mãe no carro, uma Belina, vindo de Campinas para São Paulo. Philco-Ford, AM.

Este post é uma homenagem a Elis. E uma homenagem ao rádio. Ela, Elis, e ele, o rádio, se misturam.

Um país que teve Elis não poderia ter virado isso que virou.

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MAIS UM

SÃO PAULO (vamos nessa) – Fala, macacada… Passando aqui para avisar que meu novo livro entrou em pré-venda hoje. Chama-se “WARM UP – Os anos Schumacher em 200 textos”. Reúne colunas selecionadas escritas entre 1995 e 2013, com textos de apresentação para contextualizar os textos ano a ano.

Quem estiver interessado deve me mandar um e-mail: [email protected], e explico direitinho como faz para reservar seu exemplar. O lançamento é da Adelante, selo da Gulliver Editora, minha parceira de sempre.

Acelerem!

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Bateu uma saudadezinha…

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O NÚMERO 1

SÃO PAULO (até que ia…) – A revista (que não sei se ainda é revista ou só site) inglesa “Autosport” fez um levantamento interessante sobre o uso do número 1 na Fórmula 1, simpático e minimalista algarismo que volta ao grid neste ano com Max Verstappen — o holandês já anunciou que, como campeão, vai fazer uso de seu direito e colocará o #33 na gaveta.

Segundo suas estatísticas, o piloto que disputou mais GPs com o #1 na carenagem foi Michael Schumacher, com 120 corridas ostentando o número do defensor do título. Depois dele vem outro alemão, Sebastian Vettel, com 77 aparições. Na sequência, Alain Prost e Ayrton Senna (48 cada) e Nelson Piquet e Niki Lauda (47 para ambos).

A curiosidade é que se Lewis Hamilton não tivesse optado pelo #44 quando os pilotos passaram a usar números personalizados, teria corrido 148 GPs com o #1.

A imagem acima é a que me vem à memória quando se fala em número 1. Foi o slogan que a cerveja Brahma adotou em 1991, um enorme sucesso de marketing que teve seu auge nas Copas de 1994 e 1998, quando a empresa contratou vários jogadores, entre eles o então Ronaldinho (hoje Fenômeno), para que fizessem o sinal de número 1 com o dedo indicador a cada gol marcado pela seleção.

A brincadeira fez com que a Brahma fosse líder de mercado por oito anos. Não sou um grande cervejeiro e sequer sei dizer se Brahma é boa ou ruim, mas sei que quando ela se juntou à Antarctica, rival histórica, o mundo começou a acabar. Foi em 1999. Brahma x Antarctica era como “Folha” x “Estadão”, Pepsi x Coca, “Veja” x “IstoÉ”, Apple x Microsoft, Palmeiras x Corinthians, Ford x GM, Nike x adidas, Boeing x Airbus, McDonald’s x Burger King, Souza Cruz x Philip Morris, Hertz x Avis, VISA x Mastercard, UPS x FedEx, Kolynos x Colgate…

E se vocês lembrarem de outras grandes rivalidades, fiquem à vontade aí nos comentários.

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