ENCHE O TANQUE

Winchester, Virgínia. O Carlos Olivi escreveu só isso. Enquanto vocês procuram no Google Earth Fucker se esse posto ainda existe, fico aqui fantasiando como devia ser legal ser dono de um negócio desses nos anos 40, 50…

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WE ♥ RACE CARS

SÃO PAULO (gostamos) – Aí está o Yaris que a Toyota vai colocar no Mundial de Rali deste ano, para defender seu título conquistado ano passado com Sébastien Ogier. Já perceberam que Sébastien (e suas mais completas traduções) é o nome que mais ganha campeonatos no mundo da velocidade? Alguém aí faça um levantamento. Não se esqueçam do Loeb, do Buemi, do Bourdais e do Vettel. Obrigado.

Como pede o novo regulamento, o carro teve acrescido ao seu motorzinho 1.6 turbo um motor elétrico e a potência conjunta vai passar dos 500 HP. Ogier não vai disputar toda a temporada. Oito vezes campeão mundial, resolveu correr uma ou outra prova — estará na abertura em Monte Carlo na quinta-feira desta semana. O britânico Elfyn Evans, vice de 2021, será o primeiro piloto do time japonês agora.

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DESAFIO DO DIA

Esse aqui eu duvido que vocês acertem! Não vale colocar a foto no Google!

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QUINTA LIVRE

SÃO PAULO (péssimo) – Não sei direito a quem a F-1 quer enganar com o anúncio feito hoje sobre a supressão das quintas-feiras da programação de um fim de semana de GP. A justificativa é aliviar o trabalho das equipes, esgotadas com a quantidade exagerada de corridas por temporada — serão 23 neste ano. Ora, ora, ora… Recentemente batizaram as quintas como “Media Day”. Pasteurizaram o dia em que os pilotos flanavam pelo paddock com alguma liberdade e sem grandes compromissos. Quando a gente podia conversar com as pessoas. Então inventaram as entrevistas quadradinhas a distância, por causa da pandemia. Agora, nem isso. Conversas com os jornalistas, só a partir da sexta.

O que, evidentemente, não significa que na quinta-feira os que mais trabalham não irão trabalhar. Falo dos mecânicos, claro, que continuarão com a mesma rotina de sempre: montar motorhomes (isso nos dias anteriores) e carros, deixar tudo preparado para o dia seguinte. Eliminar as quintas do cronograma de um GP alivia apenas para os pilotos e chefes de equipe, que não precisarão mais falar com a imprensa. Para quem pega no pesado, não muda nada.

É mais um passo na direção de, sem meias palavras, eliminar a imprensa da sua vida. Se na quinta você não pode falar com ninguém, faz o quê? Vira setorista de rede social. “Ah, mas isso é legal, uma ligação direta dos ídolos com os fãs, não precisamos mais de vocês, eu sigo os perfis do Lewis e do Lando, tudo que eu quero está ali!”

Sim, muito legal. Muito legal este mundo em que figuras públicas dizem o que querem sem que haja contestação, questionamento, indagação. Só versões oficiais. O mundo cor de rosa dos stories e dos emojis, dos comentários “zerou a vida”, “é tudo pra mim”, “fulano fez [não sei o quê] e eu tô como”, “quebrou a internet” e por aí vai.

Quinta-feira era quando eu chegava nos países onde aconteciam as corridas, com exceção de Mônaco — que já tem treino na quinta. Era o dia de se instalar na sala de imprensa, bater papo com as pessoas no paddock, ver as novidades nos boxes, prosear com os pilotos, acompanhar algumas coletivas pessoalmente, preparar a cobertura, aquecer os leitores/ouvintes/telespectadores para o que viria a partir do dia seguinte.

Com a extinção da função dos repórteres na quinta, para deleite da galerinha que acha que rede social — e só ela — informa poderiam batizar o dia de “Social Media Day”. Todos ficarão curtindo fotos dos pilotos chegando aos autódromos sorrindo e mandando coraçõezinhos, e jamais saberão o que realmente está acontecendo no mundo real. Vai ver é isso que querem, mesmo.

A boa notícia, para quem gosta de carro na pista, é que os treinos livres da sexta voltam a ter 90 minutos de duração. Com carros novos, é necessário. Os detalhes sobre todas essas decisões estão aqui.

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UM MINUTO DE SILÊNCIO

À meia-noite levarei sua alma. Obrigado, Zé!

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LEGIÃO URBANA

SÃO PAULO (aqui tem) – Exceção, claro, porque esta seção normalmente publica fotos que eu mesmo tiro. Mas é um Trabi! Então vamos quebrar as regras. A mensagem do Bruno Carrilho veio junto:

“Compañero Flavio, já tirei essa foto pensando em você: essa lindeza estava num pequeno engarrafamento perto de casa, na tarde de sexta-feira, em Zurique. Devido à baixa velocidade, deu para emparelhar como pedestre e curtir, além do visual, o som do motor e o característico cheiro da fumaça! Abraço!”

Se isso aí é engarrafamento, eu sou prêmio Nobel da Paz!

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BYE, BOB

Robert Falkenburg, criador do Bob’s

SÃO PAULO (com muito molho, muito mesmo!) – Olha que perfeição!, admirava-se meu pai, e eu, um menino de 7 ou 8 anos, não compreendia bem tamanho espanto. Eram uns painéis fotográficos com fotos de sanduíches e copos de milk shake iluminados por trás com lâmpadas fluorescentes que conferiam, isso devo admitir, um brilho especial àquelas imagens, diria até que dava vontade de comer aquilo, e tomar aquele troço, mais ainda.

Tínhamos nos mudado para o Rio e entre as novidades com que me deparei — calor, praia, futebol de botão, coleção de maços de cigarro estrangeiros, peneira no Flamengo, rapto do Carlinhos, motoristas de ônibus malucos, o chiado no falar, o erre riscado — estava aquela lanchonete com as fotos iluminadas perto de casa, em Copacabana. Que perfeição!, repetia meu pai, que poucos anos antes fizera sua primeira viagem internacional pela firma tendo passado algumas semanas nos Estados Unidos, onde deve ter visto lanchonetes parecidas com fotografias de sanduíches semelhantes. Atribuo seu fascínio pelas peças a essa passagem pela América do Norte, mas nunca nos aprofundamos no tema.

Esgotados os elogios aos painéis iluminados, meu pai pedia uns cachorros-quentes e uns milk shakes, e se é verdade que me recordo com nitidez daqueles surtos de arrebatamento por causa das fotos, seria desonesto afirmar aqui que os sabores a elas relacionados tenham se fixado na minha memória de alguma maneira particular — hot dog bom era Geneal, que a gente comia nos carrinhos no calçadão da avenida Atlântica ou no Maracanã.

Loja numa esquina da Zona Sul: a cara do Rio

De qualquer forma, as lojas do Bob’s, que nem eram tantas assim, se incorporaram à nova e solar paisagem com a qual deveria me habituar naqueles primeiros anos da década de 70, de uma cidade onde tudo parecia acontecer primeiro, tudo era grandioso e festivo, luminoso e extravagante. No caso gastronômico em questão, refiro-me àquilo que se convencionou chamar de fast-food.

Avança a fita e já em São Paulo, jovenzinho com carro novo na mão e talão de cheques do Bamerindus na carteira, tínhamos o Jack in the Box, que sempre julguei ser uma cadeia de lanchonetes brasileira até ver o logotipo de soslaio numa cena qualquer de um filme americano no cinema, e é claro que não tenho ideia de qual filme era. Frequentava uma loja na avenida Sumaré, que a gente podia entrar com o carro e fazer o pedido sem sair dele, só abrindo a janela, para estacionar nas imediações e se lambuzar de ketchup, mostarda, maionese e gordura nos dedos de batata frita.

O Bob’s nunca se criou por aqui como no Rio, e sempre vinculei sua existência às cores e cheiros de Ipanema e do Leblon, no máximo a uma loja no alto da Serra das Araras na Dutra, que na minha cabeça marcava a divisa entre um estado e outro. Do Bob’s pra cá, Rio. Do Bob’s pra lá, São Paulo.

O criador do Bob’s morreu no último dia 6 em Santa Ynez, na Califórnia. Robert Falkenburg, o Bob do Bob’s, tinha 95 anos e já não vivia no Brasil desde o comecinho dos anos 70. Tem uma história ímpar. Nascido em Nova York, foi um dos maiores tenistas dos EUA da primeira metade do século passado. Seu maior feito foi a conquista do torneio de simples de Wimbledon em 1948, numa final épica contra o australiano John Bromwich. Salvou três match points e levantou a taça. Um ano antes, tinha se casado com a socialite brasileira Lourdes Mayrink Veiga Machado, a quem conhecera em 1946 quando veio disputar um campeonato aqui. O Brasil não lhe era estranho. Bob tinha morado algum tempo em São Paulo, ainda criança, porque seu pai, Eugene, era engenheiro da Westinghouse e vivia rodando o mundo para montar hidrelétricas.

Bob em Wimbledon: campeão de 1948

Em 1950, o casal se estabeleceu de vez no Rio e Bob montou uma sorveteria com maquinário importado de seu país que fez relativo sucesso. Dois anos depois, segundo a lenda irritado porque não encontrava um lugar na cidade para tomar um bom milk shake, fundou o Bob’s. E não largou o tênis. Chegou a defender a equipe brasileira nas Copas Davis de 1954 e 1955.

Raquetes e milk shakes, João Gilberto, Tom Jobim, Pelé, Garrincha, Getúlio, Juscelino, Tupi, rock’n’roll, Bossa Nova, Maracanã, Sputnik, Elvis, Che, Perón… Anos dourados, esses 50. E não é nenhum despropósito associar as lanchonetes Bob’s a eles. Por que não? Gosto de reverenciar certas coisas. Além do mais, os sabores que não registrei aos 7 ou 8 anos vim a catalogar na memória tempos depois, quando passei a frequentar uma loja na rua Haddock Lobo, aos pés do Colégio São Luís. Ficava aberta até tarde e não raro, depois da faculdade, pegava carona com alguém até a Paulista para devorar com sofreguidão um Bob’s Burger fartamente carregado com molho verde de ervas, que sempre preferi ao Big Bob, acompanhado do clássico milk shake de Ovomaltine. Que merece um parágrafo só para ele.

Foi em 1959 que o Bob’s inventou o milk shake de Ovomaltine, achocolatado maltado e crocante criado na Suíça em 1904. Mas só em 2005 a rede licenciou a marca com exclusividade para sua sobremesa celestial — que sempre tomei enquanto comia o sanduba, misturando salgado e doce sem nenhum escrúpulo. E acabou perdendo o direito de usar o nome em 2015 para o McDonald’s. Um horror, isso. Encerrado o parágrafo, não sem antes assinalar que jamais, em tempo algum, pedirei Ovomaltine no McDonald’s, em desagravo silencioso pela traição dos helvéticos.

Gostava também do magistral queban, singelo e por isso mesmo espetacular sanduíche de queijo com banana — sacros ingredientes prensados entre duas fatias de pão de forma tostadas com maestria e precisão. Iguaria que inexplicavelmente deixou o cardápio em algum momento dos últimos 30 anos, o que muito me contrariou quando notei sua ausência. E não posso deixar de evocar reminiscências que remontam a 1985, primeira edição do Rock in Rio, em que o Bob’s foi nomeado fornecedor oficial de sandubas do evento e serviu toneladas de hambúrgueres que chegavam à Cidade do Rock frios e amarrotados, porque eram preparados sabe-se lá onde, mas eram deliciosos e saciavam a fome de uma multidão de jovens que estavam ali nada mais nada menos do que descobrindo o mundo.

Morreu o fundador do Bob’s. Bob Falkenburg já não tinha nenhuma relação com sua criação desde 1974, quando vendeu a operação, então com meras 13 lojas, à Libby, uma empresa suíça de comida enlatada que pertencia à Nestlé. Depois, em 1987, a rede foi repassada a um grupo holandês, um certo Vendex, e desde 1996 está nas mãos da Brazil Fast Food Corporation, que também é dona das operações de Pizza Hut e KFC no país. Hoje o Bob’s tem 1.050 lanchonetes e quiosques entre lojas próprias e franqueadas, 14 mil funcionários, vende três milhões de Big Bobs e 1,2 milhão de litros de milk shake por mês.

Mas não tem mais queban, nem sanduíche de salada de ovo, ou de galinha, ou de atum, ou de presunto, vaca preta também não há — Coca-Cola com sorvete de creme, crianças –, ice cream soda, tampouco. Essas coisas sobreviveram apenas em antigos retratos, mais antigos que os painéis que causavam tanto espanto em meu pai, como esse aí embaixo. E na nossa memória afetiva, ao menos na memória de quem ainda tem algum afeto.

O cardápio no início: até vaca preta tinha…

Não devemos nos lamentar o tempo inteiro, porém. Não chore porque acabou, sorria porque aconteceu. A frase é de um popular escritor e cartunista americano, Theodor Seuss Geisel (1904-1991), o Dr. Seuss. Se Bob não tivesse vindo ao Brasil jogar tênis, não teria conhecido Lourdes, e não teria se casado com ela, e não teria se mudado para o Rio, e não teria ficado irritado quando saiu para procurar um milk shake, e não teria criado o Bob’s.

E eu nunca teria comido um sanduíche de queijo com banana, nem um hambúrguer besuntado com maionese verde, nem conhecido o milk shake de Ovomaltine.

E a vida teria sido diferente, menos gostosa, creio.

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ENCHE O TANQUE

SÃO PAULO (quente) – Marcus Witzler é o nome do blogueiro que mandou as fotos e a mensagem abaixo. Ótima dica, como ele disse, para quem estiver na Suécia. Esses pequenos museus meio aleatórios, sem pretensão de serem definitivos em relação a tema algum, são muito comuns na Europa. Aqui não tem quase nenhum, o que é uma pena. Muita coleção particular poderia se transformar em museu. Até a minha.

Agradecemos, Marcus! E confesso que esse DKW amarelo (além do Trabi, claro) me despertou certos instintos bem perigosos…

“Boa tarde Flavio! Meu nome é Marcus, tenho 51 anos, sou engenheiro mecânico e trabalho como engenheiro de ensaios em voo na Embraer há 25 anos. Eu faço, na medida do possível, a manutenção dos carros e moto na minha casa. Sempre gostei muito disso. Acompanho seu blog, mas nunca fui de comentar; sou muito tímido. Mas em 2019, antes da pandemia, estive a trabalho na Suécia e visitei um museu muito legal na cidade de Motala. Como quase todas as cidades na Suécia, fica ao lado de um grande lago (Vattern) e é cortada por um canal navegável (canal de Gota). O fato é que existe um museu nesta cidade com muitos carros, motos, vitrolas, todos antigos, discos dos Beatles, e muitas cenas montadas de postos de gasolina, pessoas usando os carros, enfim, um deleite. Como agora é momento de retomar a vida, vou anexar aqui algumas fotos que tirei, quem sabe é uma boa para o pessoal tentar descobrir onde fica e/ou qual é o automóvel… Mas pelo menos é uma boa dica para alguém perdido na Suécia sem saber o que fazer. Um abraço e continue escrevendo!”

Não esqueçam: para ver as imagens em tamanho grande, é só clicar em cada uma delas!

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GIRA MONDO, GIRA

SÃO PAULO (e virou mesmo) – Eu suspendi a seção “Gira mondo, gira” deste blog na madrugada de 1º de setembro de 2016. Horas antes, o mandato de Dilma Rousseff fora cassado por um bando de filhos da puta que sabotaram seu governo e resolveram guinar o país para a direita e atirá-lo no esgoto. Entre eles um cafajeste que, ao arrotar seu voto, evocou o nome de um carniceiro que se excitava ao enfiar ratos vivos na vagina das mulheres que torturava. Dilma foi uma de suas vítimas.

A figura em questão, que levou uma cusparada do então deputado Jean Wyllys — e foi pouco, muito pouco; até hoje é inacreditável que essa pessoa não tenha sido processada imediatamente, presa, atirada de volta ao poço de merda de onde saiu –, tornou-se presidente do país. O texto que suspendeu o “Gira mondo” é ruim. Cheio de clichês e termos batidos. Parece profético, mas é apenas óbvio. Um trecho, porém, talvez mereça ser lido de novo:

Dias horríveis vêm pela frente. Os últimos dois anos serviram para revelar personalidades, trouxeram à tona uma clara divisão de pensamentos e visões de mundo. Me decepcionei amargamente com amigos, colegas e parentes. E com centenas, milhares de desconhecidos. Saber, com nitidez, que pertencemos a lados tão distintos é algo doloroso. Não me refiro, aqui, a ideologias ou preferências partidárias. Seria reducionista pensar desse jeito. Trata-se, sim, de escolher com quem ficar. Com quem alimenta o ódio de classe, exerce o preconceito e a misoginia, perpetra o desprezo, perpetua a ignorância, pratica o obscurantismo? Jamais. Jamais.

Desde então, parei com os textos de viés político aqui para não me aborrecer. Eram muitos comentários agressivos e carregados de raiva, um trabalhão danado para apagar e bloquear gente, as coisas já estavam ruins o bastante para alimentar mais um dissabor em tempos tão infelizes. E “Gira mondo”, que nasceu para ser uma espécie de míni jornal diário, com meia-dúzia de assuntos e alguns links para tentar organizar (pretensioso, isso) a avalanche de informações que recebemos todos os dias, foi jogado dentro de uma gaveta.

De 2016 para cá as coisas só pioraram, inclusive no que diz respeito à avalanche de informações. Novas mídias, plataformas, canais, aplicativos, ferramentas e toda sorte de tranqueiras digitais começaram a surgir do nada, e às redes sociais de então se juntaram streamers, influencers, tiktokers, instagramers, podcasters e outras asneiras do gênero.

Ah, mas os jovens se comunicam assim, é preciso se adaptar, crie uma conta no Tik Tok, crie um podcast, poste mais stories, grave vídeos curtos, faça mais lives!

Ah, fodam-se os jovens. Não sou obrigado a me adaptar a nada, se os jovens de hoje só se comunicam fazendo dancinhas no Tik Tok, ou escutando um tonto com nome de bicicleta que fala merda duas horas por semana, ou outro que transmite ao vivo a importante atividade de escovar os dentes para divertir seus seguidores com sua forma peculiar de fazer gargarejo, fodam-se os jovens, e os velhos que fazem o mesmo, e as crianças, e os de meia idade. Fodam-se todos, em resumo. Se tem quem ache legal assistir a alguém vendo um jogo e fazendo comentários desprovidos de qualquer sentido o tempo todo, se muitos perdem horas de seu dia acompanhando desconhecidos jogando videogame, fodam-se também. Não posso fazer nada por eles. Sejam jovens, velhos, crianças ou de meia idade. E se tem gente enriquecendo com isso, sorte de quem consegue. Mas me incluam fora dessa, como se falava outrora.

Não se trata de negar a modernidade. Não é porque essas coisas são novas, recentes mesmo em qualquer recorte temporal que se faça, que podem ser definidas como modernas. A família criminosa do 01, 02, 03, 04 e seu pai genocida é usuária em tempo integral de todas essas ferramentas fresquinhas saídas dos melhores cérebros do Vale do Silício. E pode-se chamar essa quadrilha de moderna? São pessoas modernas só porque usam equipamentos, linguagem, memes, expressões e trejeitos de última geração?

São, sim, pessoas medievais de pensamento tosco e obtuso, antiquadas, reacionárias, conservadores, ignorantes, incultas, vulgares, grosseiras, e ainda assim têm uma legião de seguidores igualmente ligada nos mesmos aplicativos, nas mesmas plataformas, na mesma “modernidade”, agora entre aspas, na puta que pariu que cabe na palma de suas mão horrendas sujas de sangue e fedendo a patifaria.

Vivemos tempos de enorme confusão em que qualquer um que grava um vídeo, ou faz um podcast, ou uma live, ou um story ao vivo, acha que está fazendo jornalismo, quando na verdade está apenas gravando ou transmitindo imagens e vozes sem nenhum compromisso com a verdade, sem métodos de apuração, sem nenhuma responsabilidade com a informação, sem nenhuma preocupação com as consequências do que é jogado na rede. Tem gente que celebra este momento afirmando que a internet democratizou a informação, deu voz a quem nunca teve, livrou o mundo da ditadura dos veículos de comunicação comandados pelos poderosos e opressores.

Em muitos casos, isso é verdade. Grupos de comunicação pertencem aos poderosos, embora muitos deles sejam conduzidos no dia a dia por profissionais conscientes de seu papel num processo histórico civilizatório. Mas não se pode negar que muita coisa que seria fácil de esconder no passado, ou que simplesmente era invisível, só veio à tona graças àqueles que antigamente as emissoras de TV chamavam de “cinegrafista amador” — todos munidos de um celular, hoje, o são. Comunidades, minorias, tribos indígenas, ambientalistas, ONGs, artistas de rua, cozinheiros, artesãos, atletas, milhares de setores da sociedade, graças à tecnologia, passaram a ter acesso a ferramentas que permitem mostrar sua realidade a quem conseguirem alcançar com seus pequenos aparelhos conectados na rede. E desse caldeirão infinito do que se chama de produção de conteúdo emergiram, sim, grandes talentos, denúncias importantes, imagens chocantes, fotos históricas, textos maravilhosos, poetas, cantores, cantoras, artistas de todos os tipos, canais de vídeo relevantes, cientistas puderam elevar o tom diante da iniquidade oficial num cenário de morte e devastação, como não enxergar a importância disso tudo?

Não nego, claro. Mas não consigo deixar de pensar no que veio junto. Talvez seja desnecessário listar. Dê uma olhada ao redor. Observe as pessoas, digamos, numa praça de alimentação de um shopping center. Ou mesmo numa mesa pequena de um restaurante qualquer. Num ônibus, ou vagão de metrô. Em sua casa, em cada quarto. O que tanto olham, assistem, escutam? Quem está bombardeando suas mentes? Com o quê?

Um dia alguém tentou argumentar a favor desse novo Homo sapiens, que não desgruda mais os olhos de pequenas telas, contrapondo os hábitos contemporâneos a outros do passado. A leitura de livros, revistas ou jornais, por exemplo. No Japão, me disse o interlocutor, você entrava num trem há 30 anos e estava todo mundo lendo alguma coisa. Refleti por alguns segundos sobre o assunto, não mais que alguns segundos. Porque não é preciso muito tempo de reflexão para concluir que colocar lado a lado um bom livro, ou um bom jornal, e um vídeo de uma menina derrubando um forninho — que quando termina é seguido, sem pausa, por outro com alguém fazendo uma coreografia infantil, que por sua vez está colado nas imagens de um motoqueiro tomando um tombo, que vem acompanhado de outro de um influencer mostrando seu carro novo, e a sequência é contínua e perpétua — é o que se chama de falsa equivalência, comparar o incomparável.

A humanidade está claramente emburrecendo, se infantilizando, se idiotizando. Não fosse isso, o pacote de estrume que faz lives às quintas-feiras, passeia de moto e jet ski, espalha perdigotos infectados num cercadinho e come pão com leite condensado jamais chegaria onde chegou. Mas tem muita gente como ele. E uma geração inteira vindo atrás que se informa e se entretém pelos mesmos meios que levaram essa figura abjeta aonde está. Ele e seu séquito que representa o que há de mais repugnante no lumpesinato da república: o cara da boiada, a louca da goiabeira, o vendedor de travesseiros, o negro racista, o nazista da cultura, o genro do dono da TV, o médico antivacina, o general de logística que confunde Acre com Amapá… O rastro de destruição está por todos os lados. O Brasil, como projeto de nação, acabou e terá de ser refundado.

Escrevo este texto em meio a várias interrupções, e acho que ele vai sair truncado e pouco conclusivo. Bem, vou terminar. “Gira mondo” vai voltar. Tentarei me disciplinar para publicá-lo todas as sextas, com um resumo dos fatos que considerar mais interessantes da semana.

Hoje, por exemplo, iria abrir o texto falando da morte do fundador do Bob’s. Talvez ainda escreva sobre isso, um pouco mais tarde. Não tem nenhuma importância, né? Mas para mim tem. E como acho que o escritor, cada vez mais, escreve para si mesmo, não vejo mal nenhum em falar da morte do fundador do Bob’s.

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SÓ PRA LEMBRAR…

…ano que vem tem um GP novo no calendário, em Miami, em volta do Hard Rock Stadium. Será a quinta etapa do campeonato, no dia 8 de maio. E aos poucos a pista vai ficando com cara de pista.

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