CANADA WET (3)

Corrida perfeita: Verstappen vence pela 41ª vez na F-1

SÃO PAULO (e não tem problema algum) – Max Verstappen = Ayrton Senna. O holandês acaba de empatar em número de vitórias com o brasileiro. São 41, com a de hoje no Canadá. Mas vou começar com uma opinião impopular. Creio que Verstappen, com todas as ressalvas que devem ser feitas quando se trata de comparar atletas de eras distantes, é um piloto melhor, mais completo e preciso que o tricampeão morto em 1994. Hoje, em Montreal, venceu pela sexta vez em oito etapas neste ano. Igualando Senna, se coloca na quinta posição entre os maiores vencedores da história. Perde apenas para Hamilton (103), Schumacher (91), Vettel (53) e Prost (51).

Na entrevista pós-GP, conduzida pelo ex-piloto Jenson Button, Max não falou uma palavra sobre o assunto. Celebrou, isso sim, o fato de ter sido o responsável pelo 100° triunfo da Red Bull, equipe que o tirou da escola aos 17 anos para enfiá-lo num carro de corrida. O time, que estreou em 2005, junta-se agora a Ferrari (242), McLaren (183), Mercedes (125) e Williams (114) no clubinho dos que chegaram aos três dígitos em número de vitórias.

Max tem apenas 25 anos e muita estrada pela frente para inflar suas cifras, quem sabe até se tornar o maior de todos os tempos, se estiver disposto a isso. Ele mesmo já disse que não se vê correndo à beira dos 40, como Hamilton, ou depois disso, como Alonso. Os dois, aliás, estavam no pódio com ele hoje no Canadá, Fernando em segundo, Lewis em terceiro.

Vamos à corrida?

Largada em Montreal: Hamilton janta Alonso

O melhor da largada foi Hamilton, que pulou à frente de Alonso para ganhar a segunda posição. O que ajudou Verstappen, que não teve de se preocupar com ataque de ninguém. Começou tranquilo seu passeio pela ilha de Notre-Dame, num domingo agradável, de sol entre nuvens e 19°C de temperatura. Bem diferente da chuvarada de ontem, que deu uma embaralhada no grid.

O primeiro incidente do dia foi o abandono de Sargeant na oitava volta, o que fez com que fosse acionado o safety-car virtual. Durou poucos segundos e o bonde foi retomado sem maiores problemas. Max liderava com tranquilidade, mais de 3s à frente de Hamilton, com Alonso em terceiro perturbando o inglês. Russell também vinha perto, fazendo do trio um sanduíche com duas fatias de pão preto da Mercedes envolvendo folhas de alface da Aston Martin. Sanduíche horrível, diga-se; pão com alface não chega a ser uma iguaria.

Gasly, na volta 11, foi o primeiro a parar nos boxes para trocar pneus. Ele era o único no grid com pneus macios. Quatro largaram com duros: Pérez, Magnussen, Bottas e Tsunoda. Os demais, com médios.

Max de médios na largada: pit stop no safety-car, corrida tranquila

Na volta 12, safety-car de verdade. Russell bateu sozinho no muro e Verstappen correu para os boxes para trocar pneus. Hamilton, Alonso e quem mais estivesse passando por ali fez o mesmo. Colocaram pneus duros. Nem todos pararam, porém. A dupla da Ferrari e Pérez, por exemplo, ficaram na pista.

George conseguiu levar seu carro todo estropiado aos boxes, os mecânicos deram uma olhada, trocaram pneus e bico, fizeram balanceamento e alinhamento, e disseram ao rapaz: “Volte, meu caro. E pare de se desculpar!”. Sim, porque da hora da batida até chegar à garagem, Russell não parou de dizer “sorry” pelo rádio. Caiu para último. Mas tudo bem, estava na corrida.

Nessa parada, Hamilton foi liberado pela Mercedes de um jeito meio apressado, assustando Alonso, cujo pit stop foi ligeiramente mais rápido. O espanhol, claro, reclamou. A direção de prova informou: “Nós percebemos! Vamos investigar! Esperem pelo pior!”.

Era só jogo de cena, ninguém foi punido.

A relargada aconteceu na volta 17 com Verstappen, Hamilton, Alonso, Leclerc e Sainz nas cinco primeiras posições. Pérez, Magnussen e Bottas vinham na sequência, sem pit stops, como os ferraristas. Mas com a diferença de que tinham largado com pneus duros, para esticar mesmo o primeiro stint. Já Charles & Carlos… Com pneus médios, teriam de parar logo. Por que não foram para os boxes no período de safety-car, era mistério ainda a ser desvendado. No fim, a estratégia acabou dando certo. O que não deixa de ser surpreendente, tratando-se de Ferrari.

Albon puxando a fila no início: pelotão do meio agitado

A prova até que era agitada mais para o meio do pelotão. Todos podendo abrir suas asas móveis, aproveitando a colossal reta que antecede a entrada dos boxes. Um passava o outro, que se defendia de alguém e mirava o alvo em outrem.

Na ponta, Alonso levantou a torcida no final da volta 22. Veio babando para cima de Hamilton, abriu a asa e engoliu o Mercedão #44 na freada para a chicane do Muro dos Campeões. Foi uma daquelas ultrapassagens de almanaque, assumindo a segunda posição com garbo e elegância. Garboso e elegante, Lewis não opôs resistência. E o espanhol foi embora, tentando enxergar Verstappen com uma luneta – o holandês estava quase 4s à frente.

Nessas horas, o piloto que está na liderança não tem muito o que fazer. Então, Max entrou no rádio. “Meus pneus não têm aderência”, falou. “OK, Max.” Mais duas voltas, ele voltou: “Meus pneus não têm aderência, não sei se vocês ouviram agora há pouco, o fato é que me ignoraram, porque se os pneus não têm aderência, algo tem de ser feito a esse respeito, e vocês seguem me ignorando, como se eu fosse obrigado a guiar com pneus que não têm aderência, sendo que os pneus têm a obrigação de ter aderência”. “OK, Max, a gente ouviu, sim”, veio a resposta. “Quem é que está falando comigo, não reconheço a voz!”, devolveu Verstappen, alarmado. “Jamie Oliver, o cozinheiro”, ouviu, do outro lado. “E o que você está fazendo aí que não está cozinhando, Jamie? Cadê meu engenheiro?” “Estão almoçando, Max. Pediram pra eu ficar aqui anotando os recados. Já anotei, pneus sem aderência. Vou passar pra eles assim que voltarem.” “Ah, OK, então, mas veja se eles não demoram, e reforce o ‘sem aderência’, diga que estou nervoso, inclusive.” “Mas você não está nervoso, Max, te conheço, você fica nervoso quando não tem parmesão fresco, te manjo.” “Mas diga mesmo assim, só pra zoar.” “OK, Max.”

Abraços ao final da prova: Red Bull chegou a 100 vitórias na categoria

Mas os pneus, de fato, não estavam agradando todo mundo. Ocon, por exemplo, foi um que trocou seus duros por outros duros pouco depois da metade da prova. Na volta 38, foi Pérez quem parou, para colocar pneus médios. Na 39, finalmente veio a Ferrari para os boxes, colocando pneus duros no carro de Sainz. Na 40ª, Leclerc fez o mesmo. Hamilton, o terceiro, parou também e colocou médios, para escapar de um futuro assédio dos ferraristas, com borracha mais nova. Voltou em terceiro, tranquilo.

Alonso, para não sofrer o mesmo com Lewis, também foi para os boxes e partiu para a última fase da prova com pneus novos. E já que todo mundo tinha parado, Max fez o mesmo. “Pessoal voltou do almoço?”, perguntou. “Sim, Max, estamos aqui”, respondeu seu engenheiro, mastigando uma coxa de frango. “Pode vir que a gente troca seus pneus. Escolhe aí o que você quiser.” E assim foi, com os compostos médios alocados em seu carro.

Quem àquela altura merecia palavras de incentivo era Russell, já na zona de pontos, em oitavo, depois da batida besta no começo da prova. E Albon, em sétimo, era o grande nome da turma menos estrelada. Pena para George que na volta 55 a equipe percebeu que seus freios estavam prejudicados. “E se a gente trocar as pastilhas?”, sugeriu o piloto. “Pode ser, George. Venha para os boxes”, falou o engenheiro, piscando para Toto Wolff. “Falei pra ele que a gente ia trocar as pastilhas, mas vamos recolher o carro”, disse ao chefe. “Coitado, vocês precisam parar de zoar esse menino”, respondeu Toto. Russell abandonou e pediu desculpas mais 15 vezes. “A culpa não é sua, George”, falou o engenheiro. “É das pastilhas.”

Alonso e Hamilton se cumprimentam: não teve briga

A última fase da prova ficou reservada a uma possível disputa pelo segundo lugar entre Alonso e Hamilton. O espanhol, com pneus duros, ia sendo avisado pela equipe da aproximação do heptacampeão. Lewis, com pneus médios, chegou a ficar apenas 1s5 atrás. Foi quando Fernando, pelo rádio, perguntou qual era a diferença. Informado, falou: “Não se preocupem. Conheço Lewis. Fomos companheiros em 2007. Saí da equipe porque ele era muito paparicado. Acho que ainda é. Devem estar dizendo a ele neste exato momento: ‘Vamos, Lewis, você consegue! Não desista nunca! Keep fighting!’. Conheço meu eleitorado. Fiquem tranquilos. Ele finge que acredita e depois da corrida vai agradecer todo mundo na equipe, na fábrica, a torcida no Canadá que é incrível e está dentro do coração dele. Já perceberam que para o Lewis toda torcida é incrível e tá dentro do coração dele? Só papagaiada. Deixem comigo. Aqui ele não se cria, não!”.

E, assim, El Fodón del Podión acelerou um pouquinho mais e acabou com a festa daqueles que estavam já ajoelhados diante da TV roendo as unhas e torcendo para um duelo épico, gigante, matador. Não aconteceu nada.

Max gargalhando pelo rádio: fase espetacular

Bacana, mesmo, estava o trenzinho de Albon, sétimo, a Piastri, 12º. Entre eles, Ocon, Norris, Bottas e Stroll. Todos colados, tentando migalhas. As imagens do carro de Ocon eram aflitivas. Sua asa traseira estava balançando perigosamente. Norris, atrás dele, alertava sua equipe pelo rádio. “Essa merda vai dar na minha cara!” Lando estava punido com 5s por mau comportamento durante o safety-car e perderia sua posição na zona de pontos. Restava alcaguetar o adversário.

Max seguia conversando amenidades pelo rádio e mandando mensagens pelo celular. “Oxe, quase dei no muro kkk”, escreveu no WhatsApp. Aí, de repente, a corrida acabou. Verstappen recebeu a bandeira quadriculada com 9s5 de vantagem sobre Alonso. Hamilton fechou o pódio de 11 títulos mundiais, nas mesmas posições da largada. Leclerc, Sainz, Pérez, Albon, Ocon, Stroll e Bottas fecharam a zona de pontos. O tailandês da Williams acabou sendo o grande nome do fim de semana, levando a equipe mais fraca do grid a um resultado extraordinário graças à sua inata capacidade de administrar o desgaste de pneus. Foi, aí sim, gigante, épico e matador.

Na tabela de classificação, Verstappen ampliou sua vantagem para 69 pontos em relação ao vice-líder, o apagado Pérez: 195 x 126. Alonso, como um adolescente dos anos 70 que encontrou o último número de “Ele & Ela” escondido no banheiro, vem em terceiro com 117. Hamilton tem 102 em quarto e Sainz, agora, é o quinto com 68. Russell, que zerou, ficou com 65, ainda à frente de Leclerc (54). Stroll (37), Ocon (29) e Gasly (15) fecham a turma dos dez primeiros. Entre os construtores, a Red Bull tem 321 contra 167 da Mercedes, 154 da Aston Martin (essa é a briga do ano, pelo vice), 122 da Ferrari e 44 da Alpine nas cinco primeiras posições.

Com mais uma vitória de ponta a ponta, Verstappen chegou a 224 voltas seguidas na liderança de GPs. Desde a 48ª volta da corrida de Miami, só ele aparece em P1. Foi assim em todas de Mônaco, de Barcelona e, agora, de Montreal. Quinto nessa estatística da F-1, não precisa de muito para ultrapassar três marcas que estão à frente da sua: de Mansell (235 entre Brasil e Mônaco/1992), Senna (237 entre San Marino e EUA/1989 e 264 entre Inglaterra e Itália/1988) e Ascari (305 entre Bélgica e Holanda/1952). A próxima etapa acontece na Áustria, daqui a duas semanas. É corrida de 71 voltas. Façam as contas.

Resultado final em Montreal: Ferrari até que se deu bem
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CANADA WET (2)

Verstappen acena para a torcida: 25 poles, cinco neste ano

SÃO PAULO (um pouco tarde, admito) – Max Verstappen reinou no caos. Conseguiu a pole para o GP do Canadá hoje em Montreal em condições que costumam enlouquecer pilotos mais afoitos. Não é seu caso, claramente. O holandês da Red Bull, entre outras qualidades, sabe guiar na chuva. Sabe, também, a hora certa de ir para a pista quando percebe que ela está ficando cada vez mais molhada. Não comete erros. Não desperdiça oportunidades. Não se apavora com pouco. Foi sua quinta pole no ano, 25ª na carreira. Como a previsão é de tempo seco para amanhã, é muito favorito a mais uma vitória no Mundial. Aqueles que deveriam ser seus adversários, hoje, brigam entre eles. Num outro campeonato.

Verstappen terá a seu lado na primeira fila Fernando Alonso. Era para ser outro, o vizinho de colchete: um herói improvável, Nico Hülkenberg, da Haas. Mas ele foi punido, coitado, horas depois da classificação. Perdeu três posições no grid. O motivo: não saber lidar com o caos. No Q3, quando faltavam sete minutos para o final, Oscar Piastri, da McLaren, bateu. Hulk tinha acabado de fechar sua volta e ia abrir outra, quando a bandeira vermelha foi acionada e interrompeu a sessão.

Hulk, Max e Fernandinho: o alemão da Haas acabou perdendo o 2º lugar

Nesses casos, os pilotos têm um delta mínimo de tempo que precisam respeitar em vários trechos da pista. Têm de tirar o pé do acelerador, em resumo. O alemão se atrapalhou e no primeiro trecho acelerou demais. Para compensar, quase parou o carro no segundo. Não tem crédito e débito de velocidade nessa situação. Em caso de bandeira vermelha, a direção de prova estabelece uma velocidade média segura para que todos voltem aos boxes. Se o cara taca o pé num trecho e estoura o limite, não pode andar em ritmo de cágado no trecho seguinte para neutralizar a infração. Ambas as atitudes são consideradas perigosas.

Como as condições eram confusas, com chuva, água para todo lado, neblina, sirenes nas encostas, navios naufragando e soltando sinalizadores, avisos sonoros na orelha do piloto e gritaria pelo rádio, os comissários julgaram que Hülkenberg tinha lá algumas atenuantes para se atarantar. E em vez de cravarem dez posições no grid para ele, pena mais comum nesses casos, deram apenas três. Caiu de segundo para quinto. O espanhol da Aston Martin, esse do sorriso mais largo na foto acima, herdou a posição.

Antes, bem antes da punição a Hulk, outro piloto já havia perdido três posições no grid, como o veterano da Haas. Foi Carlos Sainz, da Ferrari, que no Q1 atrapalhou Pierre Gasly de forma grotesca. Caiu de oitavo para 11º. O francês da Alpine teve prejuízo bem maior: não passou ao Q2. Considerando que seu companheiro Esteban Ocon larga em sexto, pode-se imaginar o tamanho da irritação de Gasly. Pelo rádio, ainda, xingou todas as gerações da família Sainz, esconjurou a Espanha e os espanhóis e berrou que ele deveria ser banido da F-1, quiçá do planeta.

Ao saber do chilique do colega, mais tarde, Sainz falou que Pierre devia estar pilhado demais e que ele mesmo, Carlos, já havia sido atrapalhado sete vezes no passado. “Nem por isso saí por aí gritando no rádio [que nem uma franga desossada]”.

(Os colchetes são parte de minha incansável jornada pelas traduções livres e interpretativas de declarações de pilotos de F-1. Aqui a verdade se eleva, doa a quem doer.)

Como os comissários puniram mais dois pilotos com três posições no grid (Lance Stroll por atravancar Ocon no Q2; Yuki Tsunoda por prejudicar Hulk no Q1), julgo pertinente publicar de imediato o grid corrigido para orientar nossa leitura a partir de agora.

O grid para o GP do Canadá, já com as punições: algumas surpresas

Notem que a imagem foi surrupiada de um site de língua espanhola, pois só no idioma de Cervantes, Mujica e Fidel usa-se “dorsal” para “número da porra do carro”. Mas gosto de “sanción”, por isso escolhi o quadro que alguns haverão de julgar pouco atraente do ponto de vista estético. Refuto categoricamente as críticas. Era assim que a gente fazia na arte da “Folha” há mais de 30 anos, usando grisè — que vinha a ser uma película adesiva cinza translúcida, talhada no estilete para separar linhas em gráficos como esse. Sejamos gratos ao grisè pelos serviços prestados.

Foi um sábado babélico, este de Montreal. Por causa da chuva, basicamente. Já no terceiro treino livre ela veio com alguma intensidade, embora não tenha causado grandes transtornos. O único que bateu de jeito foi Sainz, na metade da sessão. Verstappen, como vem acontecendo há séculos, terminou a prática em primeiro.

A classificação começou com a pista bem molhada, também, mas sem a chuvarada de horas antes. Por isso, o uso dos pneus intermediários foi mandatório. Tirando uma bandeira vermelha causada por breve soluço de Guanyu Zhou na saída dos boxes — o carro acabou pegando e ele conseguiu voltar à garagem sem contar com ajuda externa –, pouco de especial aconteceu no Q1. Sim, houve o justo faniquito de Gasly, mas nada que alterasse o câmbio do dólar canadense. E, também, um interessante duelo de tempos entre Verstappen e Alonso, os dois únicos que pareciam se entender com o asfalto molhado naquele momento. No fim, Max ficou na frente: 1min20s851.

Tolhidos foram nessa parte da classificação, por obterem tempos ordinários, Tsunoda, Gasly, Nyck de Vries, Logan Sargeant e o recém-citado chinês da Alfa Romeo, na última colocação.

Veio então o Q2, que foi a parte mais divertida da classificação. Isso porque a pista começou a secar, com um trilho formado pela passagem frequente de carros velozes com pneus gigantescos. E alguém resolveu arriscar os pneus macios para pista seca. Esse alguém foi Alexander Albon, da Williams, que para espanto geral fez uma volta em 1min18s725, causando alvoroço nos boxes.

Foi uma loucura, todos os pilotos pedindo pneus slicks para seus carros, ordenando a troca imediata, implorando por pressa dos mecânicos, enquanto engenheiros no pitwall se apavoravam com imagens dos radares meteorológicos que anunciavam, para dali a alguns minutos, um dilúvio de assustar Noé.

Mesmo assim, muita gente colocou os pneus lisos e se virou bem, como Verstappen, Lando Norris e Oscar Piastri, que ficaram atrás do episódico tailandês da pior equipe do grid. Outros, no entanto, enfrentaram um drama. Refiro-me a Charles Leclerc, educadíssimo piloto da Ferrari.

Com toda serenidade do mundo, o monegasco solicitou a colocação de tais pneus em seu flamejante automóvel. “A pista está seca, ragazzi“, anunciou, o tom de voz aveludado e tranquilizador. Pelo rádio, ouviu as primeiras ponderações. “Veja, Charles, o conceito de seca é bem relativo. Já leu Graciliano Ramos?” “Amici, não sei quem é Graciliano Ramos, estou falando do asfalto. Secou.” “Pois”, seguiu o engenheiro fazendo uma breve pausa. “Quando falamos de uma represa que abastece uma grande cidade, por exemplo, e o regime de chuvas é anômalo, muitas vezes usamos a mesma expressão que você: a represa secou. Mas basta ir à represa para notar que ela não secou. OK, há pouca água. Menos do que deveria haver. É um risco para a população, sem dúvida. Mas seca, mesmo, não está. Atire uma pedra e ela fará tchibum. Por isso, é preciso relativizar sua definição de seco. Que tal desenvolvermos o tema?” Nesse momento, a cortesia habitual de Leclerc foi deixada de lado e ele gritou “seu filho da puta, enfia a represa no cu, coloca a merda desses pneus macios na bosta do meu carro e vá à puta que o pariu junto com o Sergio Ramos!”, no que foi corrigido (“é Graciliano, não Sergio, quem é Sergio?”, rebateu o engenheiro, sem se alterar), e quando colocaram os pneus macios em seu carro, a ilha de Notre-Dame já estava submersa.

Leclerc: confusão na Ferrari

Leclerc ficou no Q2, seguido por um apatetado Sergio Pérez, um aparvalhado Lance Stroll, um atônito Kevin Magnussen e um desatilado Valtteri Bottas. Todos, exceto Bottas, humilhados por seus companheiros de equipe, que avançaram diligentemente para o Q3.

Charles não se calou diante da derrocada, mais uma, da Ferrari. Em Barcelona, lembremo-nos, ficou em penúltimo no grid e até agora ninguém sabe o que aconteceu no carro. “Temos de ser melhores que isso”, falou o piloto. “Não foi a primeira vez. Sobre os pneus, eu dei a minha opinião. A pista estava seca. Mais do que isso, não posso fazer. Temos de conversar. Tá tudo errado. Quero minha mãe.”

Max, rei da chuva: mais uma pole

O Q3 foi de Verstappen. Puxou a fila sabendo que ser o primeiro a fazer volta quando a chuva aperta é sempre melhor, porque a tendência, óbvio ululante, é de piora da pista na medida em que mais água se deposita no asfalto. Fez 1min27s059 na primeira — já seria a pole –, 1min25s858 na segunda, Piastri bateu, a sessão foi interrompida, poucos conseguiram dar mais de uma volta como o piloto da Red Bull e a fatura estava liquidada, porque quando a pista foi liberada já não havia mais condição de baixar os tempos.

Max ainda deu uma volta com pneus de chuva extrema, só para sentir o desempenho com esse modelo (na foto acima, está com eles), voltou aos boxes e foi abraçar a equipe, como tem feito com frequência.

Como já visto no quadro de tempos lá no alto, Alonso larga em segundo e a dupla da Mercedes forma a segunda fila, com Lewis Hamilton e George Russell. Hülkenberg, deslocado para quinto, terá Ocon ao seu lado em sexto com Norris, Piastri, Albon e Leclerc fechando as dez primeiras posições. Albon, que brilhou no Q2, ficou sem tempo porque ia abrir sua volta quando veio a bandeira vermelha da batida de Piastri.

Não deve chover amanhã, segundo os pajés locais. Por isso, imagens como as do ensaio abaixo, batizado de “I’m singing & racing in the rain”, não se repetirão. No seco, Verstappen é grande favorito. No molhado, caso chova, também. Mas no molhado sempre pode acontecer alguma merda. Sem água, raramente. Ao menos com ele. Max deve, amanhã, se igualar a Ayrton Senna com 41 vitórias na carreira. E a Red Bull, ganhando, chega a 100 vitórias na F-1.

São marcos importantes, de ambos. Ninguém há de negar.

JACQUES, O MALA – Sexta-feira, Leclerc foi para o primeiro treino livre com um capacete igual ao de Gilles Villeneuve. Foram poucas voltas. No intervalo para o TL2, Jacques, filho de Gilles que está trabalhando como comentarista, foi a Leclerc e disse que ele não podia usar um capacete igual ao do pai sem antes falar com a família. Charles não usou. Mas telefonou de noite para Melanie, irmã de Jacques que cuida dos direitos de imagem do ex-piloto canadense, ídolo ferrarista morto em Zolder em 1982. E pediu autorização. Que foi dada, claro. Além disso, a Ferrari convidou Melanie e a mãe, Joann, para ir ficar nos boxes durante o GP. Jacques, mala que só ele, seguiu resmungando. “Não se pode associar uma marca a outros patrocinadores assim, sem mais nem menos. Foi só isso que disse a ele. Agora as coisas foram esclarecidas.” Vá à merda, Jacques.

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CANADA WET (1)

Mercedes na frente: amanhã vai ser outro dia

SÃO PAULO (com terremoto e tudo) – Foi uma sexta-feira estranha, que abriu o GP do Canadá hoje em Montreal. Um primeiro treino quase inexistente, uma segunda sessão inflada na duração, expectativa permanente de chuva e a água dando as caras só no final. Hamilton e Russell, a dupla da Mercedes, neste dia esquisito, acabaram ficando com os melhores tempos.

O primeiro treino no circuito Gilles Villeneuve praticamente não aconteceu. Com cerca de 20 minutos de atividade, Gasly parou seu carro no meio da pista (defeito eletrônico no volante) e a bandeira vermelha foi acionada. Ao mesmo tempo, deu pane no sistema de câmeras de segurança do autódromo e nenhum cristão conseguiu encontrar o defeito. A direção de prova decidiu suspender a sessão, ampliando o segundo treino livre em meia hora e antecipando seu início. O público nas arquibancadas, enorme como sempre em Montreal, ficou com cara de tacho olhando para o asfalto vazio. Alguns pilotos chegaram a fechar voltas e Bottas ficou com o melhor tempo, uma marca irrelevante.

Verstappen e Pérez: Red Bull discreta

Na segunda sessão, já com o circuito interno de imagens funcionando, a pressa foi a marca dos primeiros minutos, porque os radares meteorológicos, os homens e mulheres do tempo na TV e os pajés das tribos canadenses garantiam que iria chover a qualquer momento. Aliás, é a previsão para sábado e domingo, também. De toda maneira, todo mundo queria fazer pelo menos algumas voltas no seco.

O tempo foi passando, porém, e nada de chuva. Com meia hora de sessão, o motor de Hülkenberg fumou na reta dos boxes e o treino teve de ser paralisado para remoção da viatura. Dez minutos depois, foi reiniciado. Mais cinco minutos, nova bandeira vermelha, agora por conta de Ocon — que estacionou seu carro a pedido da equipe após solicitação feita pelo rádio; ele não parou na hora exata, causando certo desconforto no pitwall. O problema foi na pressão de água do sistema de refrigeração.

Recolhido o Alpine #31, as atividades foram retomadas. Ninguém mais falava de chuva. Ainda assim, por conta da incerteza sobre o clima, algumas equipes resolveram fazer suas simulações de corrida no início do treino — caso da Mercedes. Outras, no final – opção da Red Bull e da Ferrari, por exemplo. Assim, Hamilton e Russell, na última meia hora, com a pista já mais emborrachada, limpa e veloz, começaram a fazer tempos bons e foram para a ponta da tabela de classificação. Já Verstappen e Pérez, com pneus médios e carros mais pesados, com mais combustível, foram ficando para trás. O mesmo aconteceu com os ferraristas Sainz e Leclerc.

Nos últimos minutos, o pessoal começou a torcer pela chuva. Afinal, com possibilidade de pista molhada amanhã e depois, até que viriam a calhar algumas voltinhas debaixo d’água. Só para sentir o drama.

Stroll na Aston Martin: atualizações em análise

(Vocês devem estar se perguntando da Aston Martin, ainda não citada neste longo exórdio. É que tanto Alonso quanto Stroll dedicaram boa parte do dia a testar, experimentar, avaliar, perscrutar, escrutinar as novidades que a equipe levou para Montreal. “Atualizações”, como se diz na F-1. Até um galão de “flow-vis”, a tinta dos fluxos, foi despejado no carro de Stroll. Foi uma sexta-feira de estudos, mais do que de busca de tempos.)

Tempo fecha em Montreal: chuva amanhã e depois

Faltando dez minutos para o final, Verstappen deu uma volta com pneus intermediários. Porque chover, mesmo, não chovia. Umas gotas aqui, outras acolá. Hamilton fez o mesmo. Depois, a Ferrari. E outros pilotos colocaram os mesmos pneus, identificados com caracteres verdes nas paredes de borracha. Começou a ventar bastante, e a escurecer.

Faltando cinco minutos, finalmente a água veio com gosto. Mas o tempo era exíguo para testar alguma coisa. Pouca gente completou voltas no molhado. Nem o público ficou para ver o que iria acontecer. As arquibancadas foram esvaziando, com todo mundo fugindo da chuva. Alonso, Stroll, Bottas e Sainz arriscaram uma saída dos boxes sob o dilúvio. Quando viram que a coisa estava feia, voltaram e encerraram os trabalhos.

“O tempo está ótimo… Para um pato!”, foi o que disse Bottas, que teve de jogar o carro na grama para não bater em Sainz e acabou caindo numa espécie de rio correndo ao largo da pista.

Assim, Hamilton fechou o dia com o melhor tempo, 1min13s718, seguido de perto por Russell, a 0s027 de distância. Sainz, Alonso, Leclerc, Verstappen, Bottas, Pérez, Stroll e Gasly completaram a turma dos dez primeiros.

O tempos da sexta: dobradinha da Mercedes (por enquanto)

A classificação amanhã acontece às 17h de Brasília, exatamente no horário em que a chuva veio hoje. O que não quer dizer muita coisa. Montreal tem uma certa tradição de corridas com pista molhada, tempestades repentinas, instabilidade como padrão. Pode acontecer qualquer coisa.

Apontar a Mercedes como favorita por causa da dobradinha de hoje é exagerar no otimismo. Claro que não é. Achar que a Red Bull está meio perdida também é precipitado. Claro que não está. A pergunta mais importante depois da sexta-feira é: a Aston Martin volta à frente, depois da corrida apagada de Barcelona? Ainda não dá para dizer. O sábado trará as respostas. Isso, claro, no seco. No molhado, salve-se quem puder.

Agora, umas caixinhas para vocês se divertirem.

GROUNDHOG DAY – As simpáticas marmotas foram as estrelas do primeiro treino, já que as atividades foram suspensas por conta da pane nas câmaras de segurança. Felizmente nenhuma foi atropelada quando os carros foram à pista. Dica de cinema: “Feitiço de Tempo” (“Groundhog Day”, filme de 1993 com Bill Murray e grande elenco de marmotas).

PIRELLI X BRIDGESTONE – A Bridgestone confirmou que apresentou sua candidatura a fornecedora de pneus para a F-1 a partir de 2025. A marca japonesa, que esteve na categoria de 1997 a 2010, quer voltar. Naquele período, enfrentou a concorrência da Goodyear (até 1998) e da Michelin (de 2000 a 2006). Em 2011, a Pirelli passou a ser fornecedora única. Seu contrato termina no final de 2024 e os italianos querem continuar. A Bridgestone sempre teve excelente reputação na categoria. Dos pilotos atuais, apenas Alonso e Hamilton correram com esses pneus. Eles, como a maioria, reclama dos Pirelli atuais, que tendem a superaquecer em diversos momentos ao longo de uma corrida, especialmente nas ultrapassagens — quando o piloto é obrigado a ficar muito tempo perto do carro da frente.

Ferrari: dúvidas sobre o carro de Leclerc na Espanha

NÃO SABEMOS – Leclerc confirmou que a Ferrari não sabe o que aconteceu em seu carro em Barcelona, na classificação. Ele largou em 19º e afirmou: “Tem alguma coisa errada na traseira”. A traseira foi trocada, desmontada, analisada, e nada foi encontrado.

TREME-TREME – Unanimidade hoje em Montreal: é a pista mais ondulada do calendário. Os carros batem no fundo e os pilotos sofrem horrores. O vídeo de dentro do carro de Norris, abaixo, é exasperante.

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ENCHE O TANQUE

SÃO PAULO (deu até calor) – Receber mensagens de blogueiros como o Rodrigo Paes (e sua esposa) é o que faz este blog seguir existindo, ainda que aos trancos e barrancos. As fotos são da Namíbia. As explicações, abaixo. Ah, cliquem nas fotos para vê-las em tamanho maior, os detalhes, tudo! Obrigadíssimo, caros!

Mestre Flavio Gomes, tudo bem? Sou leitor assíduo do blog (por favor, nunca pare com o blog) e, portanto, fico procurando posto velho por aí. Infelizmente aqui na África do Sul onde moro, todos foram modernizados com o raio Graalmetizador. Porém, tinha esperanças de achar algo interessante na Namíbia durante as duas semanas que minha esposa e eu dirigimos pelo país desértico (inclusive esse era um dos objetivos da viagem, achar um posto para mandar para o blog). A primeira foto é de um posto, literalmente, no meio do nada no Deserto da Namíbia, chamado Solitaire. A bomba em destaque foi uma das primeiras instaladas no começo da década de 50 e a estrutura do posto se mantém a mesma desde os anos 80. Já a segunda foto fica na região montanhosa de Palmwag e trata-se de um posto controlado pela comunidade dentro de uma reserva ambiental. Grande abraço e obrigado pelos textos!

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FOTO DO DIA

A Ferrari voltou ao Endurance depois de 50 anos e venceu em Le Mans pela primeira vez na geral desde 1965. Foi demais, a corrida que marcou o 100º aniversário das 24 Horas. É um espetáculo único. Quem gosta de automobilismo precisa ir a Sarthe um dia.

Para os anais: o carro #51 (modelo 499P, estreante em Le Mans) foi pilotado por Alessandro Pier Guidi, James Calado e Antonio Giovinazzi. No total, os vencedores completaram 342 voltas pela pista francesa. A pole havia sido da Ferrari, também, mas com o carro #50 de Antonio Fuoco, Miguel Molina e Nicklas Nielsen, que terminaram a prova em quinto. A Ferrari interrompeu uma sequência de cinco triunfos seguidos da Toyota em Le Mans. O time japonês terminou em segundo com o carro #8. Foi a décima vitória da marca italiana em Le Mans na geral (39ª quando se consideram as categorias menos velozes — várias classes largam juntas no mesmo grid). As outras vitórias ferraristas aconteceram em 1949, 1954, 1958 e de 1960 a 1965, quando a Ford quebrou a série com seu modelo GT40.

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BOA NOTÍCIA

SÃO PAULO (estaremos lá) – Muito bom saber que Interlagos volta ao calendário do WEC no ano que vem. O anúncio foi feito hoje, contrato de cinco anos com a Prefeitura de São Paulo, ótima notícia. A última vez que uma corrida de endurance desse nível aconteceu no Brasil foi em 2014. A categoria deixou o país por causa dos problemas de organização, falta de pagamentos, promessas descumpridas. Tudo na conta de Emerson Fittipaldi, que na época assumiu a promoção das 6 Horas de São Paulo. Agradeçam a ele pela ausência desses carros por aqui por tanto tempo.

Agora a organização é de Carlos Col. Ninguém precisa se preocupar, pois. É do ramo, esteve à frente da Stock por anos, conhece o riscado. Os ingressos estarão à venda a partir de 1º de outubro. É um dos desafios de Col: encher o autódromo, o que não aconteceu em nenhuma das edições de 2012 a 2014. A corrida passou pela cidade sem ser notada.

Abaixo, o calendário do WEC para a próxima temporada, com várias mudanças. Para quem mora em São Paulo, 2024 será um ano interessante, com F-1, Fórmula E e os carrões que, amanhã e depois, estarão em Le Mans para mais uma edição das 24 Horas, que estão completando 100 anos.

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ENCHE O TANQUE

SÃO PAULO (belo roteiro) – Como sempre, prioridade absoluta para os cada vez mais raros leitores deste blog que, no entanto, se lembram dele quando estão batendo perna por aí… O Leonardo Alves é um deles.

Bom dia Flavio! Passeando com a família pelo norte da Itália, nos foi sugerido por um casal de amigos um passeio pela “Strada della Forra”, na comuna de Tremosine. Foi uma subida muito bonita, estrada estreita com um trecho de túneis que parecem cavernas e com vistas impressionantes do lago. Lá no alto, encontrei este posto, bem moderninho, estilo self-service, o que é normal na Itália. Um grande abraço!

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SOBRE ONTEM DE MANHÃ

A IMAGEM DA CORRIDA

Paz na Mercedes: finalmente um bom resultado

SÃO PAULO (luz no fim do túnel) – Desde o GP do Brasil do ano passado que a Mercedes não levava dois pilotos ao pódio. Levou ontem. É um sinal de que pelo menos por uns dias a equipe terá paz. Há um caminho a seguir. Mas ninguém deve esperar por milagres. “Ainda estamos muito longe da Red Bull, que corre numa liga diferente”, disse Hamilton.

Não, a Mercedes não vai brigar por vitórias a partir da próxima corrida. A distância ainda é grande. Mas esse carro revisado, pelo menos, pode levar o time a algum lugar, pensando já em 2024. O conceito anterior não oferecia essa possibilidade. Foi o que o GP da Espanha mostrou.

E acrescento à foto dos dois aliviados pilotos da Mercedes duas fotos do W14 “reloaded”, agora numa pista de verdade. Dá para notar a semelhança com os concorrentes mais bem cotados no campeonato — a saber, Red Bull e Aston Martin. A imagem da direita mostra Russell ultrapassando Sainz. É só clicar nelas para aumentar o tamanho.

O NÚMERO DA ESPANHA

8

…vitórias seguidas alcançou a Red Bull: a última de 2022, em Abu Dhabi, e as sete desta temporada. Já é a oitava maior sequência da história. O recorde é da McLaren: 11 vitórias consecutivas entre os GPs do Brasil e da Bélgica de 1988. A Ferrari venceu dez seguidas, de Canadá a Japão/2002. A Mercedes também empilhou dez vitórias seguidas três vezes: de Japão/2015 a Rússia/2016, de Mônaco a Singapura/2016 e de Brasil/2018 a França/2019. Nove consecutivas a Red Bull somou duas vezes: de Bélgica a Brasil/2013 e de França a México/2022. Por fim, as três séries de oito vitórias seguidas que o time igualou ontem: McLaren, de Inglaterra/1984 a Brasil/1985; Ferrari, de Itália/2003 a Espanha/2004; e Mercedes, de Itália/2014 a Austrália/2015.

O texto está enorme, aí em cima, mas é preciso citar todas as sequências históricas de vitórias por equipes na F-1 para ter uma noção do que representa a série atual. Nota-se que para estabelecer a maior de todas não falta muita coisa. Com mais quatro, a Red Bull vai ao topo dessa lista.

Não está tão difícil assim, pelo que temos visto.

Aplausos para o vencedor: massacre sobre a concorrência

A propósito, aqui vale outra listinha rápida. Trata-se da diferença de tempo entre o melhor carro da Red Bull e o melhor de outras equipes ao final de cada GP deste ano. Como se vê, a reação da Mercedes não muda muito o quadro. O time alemão agora consegue olhar para Ferrari e Aston Martin, mas para chegar em Verstappen (e Pérez, vá lá…) ainda falta bastante.

À lista: Bahrein, 38s6; Arábia Saudita, 20s7; Austrália, 0s1 (prova encerrada com safety-car); Azerbaijão, 21s2; Miami, 26s3; Mônaco, 27s9; Espanha, 24s.

Agora algumas notícias de hoje, em caixinhas:

PAGA – Nelson Piquet recorreu da multa que recebera de R$ 5 milhões por declarações de cunho racista e homofóbico em uma entrevista recente, mencionando Hamilton e Rosberg. A juíza do caso negou o recurso e manteve a multa. Os detalhes estão aqui.

ENCAMINHADO – Na entrevista pós-GP ontem em Barcelona, Hamilton deixou escapar que teria um encontro com Toto Wolff hoje para bater o martelo na sua renovação de contrato com a Mercedes. Um anúncio deve ser feito em breve. A história de uma transferência para a Ferrari esfriou completamente.

A FRASE DE BARCELONA

“OK, agora você pode trazer o carro pra casa. Dentro das linhas brancas. Obrigado.”

Gianpiero Lambiase, engenheiro de Verstappen
Verstappen e Lambiase: “casal de velhos”, segundo Horner

Foi engraçado, esse momento. Pouco antes, Max perguntou a Lambiase qual era a melhor volta da corrida. Ele respondeu, quase implorando: não se preocupe com isso, não precisa, você já tem algumas advertências por exceder os limites de pista, fica na sua!

Verstappen ignorou solenemente a recomendação pelo rádio. Baixou sua melhor volta em quase 1s e levou o ponto extra para casa. O cara quase morreu de aflição. Segundo Christian Horner, chefe da Red Bull, a relação entre os dois é comicamente rabugenta, como se fossem “um casal de velhos”.

GOSTAMOS & NÃO GOSTAMOS

GOSTAMOS de ver Guanyu Zhou terminar a prova na nona colocação. Combativo, perseverante, foi buscar seus pontinhos até o fim. E conseguiu, numa corrida sem abandonos. Está de bom tamanho, para o fim de feira da Alfa Romeo. Foi a segunda vez no ano que o chinês chegou na zona de pontos, repetindo a posição da Austrália.

NÃO GOSTAMOS da participação pífia da McLaren, que pela quarta vez no ano ficou zerada. Com isso, soma apenas 17 pontos na classificação e vê a Alpine se distanciar na briga pelo quinto lugar, com 40. Lando Norris, largando em terceiro, perdeu uma ótima chance de fazer alguma coisa digna de nota ao perder o bico na primeira volta. Mas ele disse que mesmo sem o incidente não esperava terminar entre os dez primeiros. Um horror.

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NO COMMENTS

Yuki Tsunoda e o jogador letão da NBA Kristaps Porzingis, do Washington Wizards, em Barcelona. Alexandre Neves mandou.

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ALONSOLÂNDIA (3)

Verstappen, 40 vitórias: escrevendo a história

SÃO PAULO (sem choro nem vela) – Max Verstappen está a uma vitória de igualar Ayrton Senna e entrar para o top-5 de maiores vencedores da história da F-1. À frente dele, além do brasileiro, estão Alain Prost (51), Sebastian Vettel (53), Michael Schumacher (91) e Lewis Hamilton (103).

O piloto da Red Bull aproveita a maré para empilhar números impressionantes. Ao vencer hoje o GP da Espanha de ponta a ponta, fez o terceiro Grand Chelem de sua carreira – pole + vitória + volta mais rápida + todas as voltas na liderança. Os outros foram na Áustria em 2021 e em Ímola no ano passado.

Das 417 voltas percorridas nas sete etapas deste ano, Verstappen liderou 288 (69,1%). A Red Bull, 401 (96,2%). Na classificação do campeonato, Max tem 170 pontos contra 117 de Sergio Pérez, seu companheiro de equipe. O mexicano terminou a prova de Barcelona em quarto, atrás da surpreendente dupla da Mercedes – com Hamilton em segundo e George Russell em terceiro.

Tal domínio de uma equipe e um piloto não deixa as estatísticas impunes. Schumacher aproveitou como poucos os anos de hegemonia da Ferrari, no começo deste século, e inflou seus números a ponto de ninguém achar que seria possível superá-lo um dia. Aí vieram a Mercedes e Hamilton, que abriram uma sequência de sucessos em 2014 só interrompida no final de 2021 com o primeiro título do jovem holandês.

É a hora dele. Max está atrás de marcas históricas. Vai bater tricampeão no fim do ano, talvez com mais vitórias que as 15 de 2022 – um recorde para uma mesma temporada. Já são cinco neste campeonato, em sete etapas disputadas. Ontem, empatou com Nelson Piquet e Niki Lauda no número de poles, 24. Alguém conseguirá detê-lo?

Neste ano, esqueçam. Em Barcelona, Verstappen passeou. Depois de uma sequência de provas em circuitos de rua, parques e estacionamentos, ganhou num autódromo convencional. Sem nenhuma dificuldade, como se previa. Fez da concorrência gato e sapato. Palmas para ele. E não adianta achar que “a F-1 tá chata”. A F-1 já passou por isso antes. Sobreviveu, colocando de tempos em tempos mais alguns gênios do volante em seu olimpo particular.

Max Emilian Verstappen, 25 anos, é um deles.

Largada em Barcelona: vitória de ponta a ponta

Vamos ao GP.

Verstappen, Pérez e Sargeant largaram de pneus médios. Leclerc, dos boxes, foi com duros. O resto, de macios. Esse era o panorama pneumático na largada, que teve Max se sustentando na ponta, apesar dos ataque de Sainz nos primeiros… centímetros. Depois disso, o moço rubro-taurino foi embora.

Quem largou bem foi Stroll, pulando de quinto para terceiro. Terceiro no grid, Norris se esfregou em Hamilton, perdeu parte da asa e jogou sua corrida fora, tendo de ir para os boxes no fim da primeira volta. Lá para o meio do pelotão, Gasly foi mal, perdendo quatro posições; Zhou, em compensação, partiu bem, ganhando quatro. Coadjuvantes, sim, mas merecem ser lembrados de vez em quando. Não sejam chatos.

Verstappen estabeleceu seu ritmo logo nas primeiras voltas, a uma razão de meio segundo por volta mais rápido que Sainz. Quem tinha um rendimento estranho era a Aston Martin. Em duas voltas, na sétima e na oitava, os dois carros verdes foram ultrapassados pelos pilotos da Mercedes. Primeiro foi Russell em cima de Alonso, pelo sexto lugar – o britânico tinha feito uma ótima largada. Depois, Hamilton sobre Stroll, assumindo o terceiro posto.

Início de prova: boas largadas de Hamilton e Stroll

Com dez voltas, uma olhada para os fracassados do sábado: Leclerc já era o 13º; Pérez, o oitavo. Mais para a frente, a Mercedes causava boa impressão com seu carro totalmente revisado. Na volta 15, com a parada de Stroll, os carros alemães ocupavam terceiro e quarto lugar. Hamilton ganhou a segunda posição quando Sainz parou e colocou pneus médios.

Era uma corrida de muitos pit stops, como em geral são as provas em Barcelona. Com 18 voltas, 14 dos 20 que largaram já haviam trocado pneus. Os seis primeiros eram os únicos que ainda não haviam visitado os boxes. Essa característica do circuito garantia alguma agitação no meio do pelotão, trocas de posição, algumas batalhas, pneus mais duros aqui, mais macios ali, ultrapassagens, disputas… Estava até agradável de ver.

Na ponta, porém, nada mudava. Verstappen desfilava sem dar sinais de que teria de trocar pneus tão cedo. O mesmo se passava com Hamilton e Russell, que se comunicavam pelo rádio o tempo todo com seus engenheiros para, acreditem, elogiar o carro! Ambos reportavam um bom comportamento dos pneus e cogitavam até fazer a prova com apenas uma parada. Não precisaram. Mas, numa emergência, conseguiriam.

Lewis só foi chamado para os boxes na volta 25 e colocou pneus médios. Voltou para lutar pelo segundo lugar pódio com Sainz. Russell veio na 26ª, fazendo exatamente o mesmo que seu companheiro: médios, voltando em quarto, atrás do espanhol da Ferrari. Verstappen, então, parou na 27ª. Colocou pneus duros e deu a impressão de que não precisaria mais voltar aos boxes – a não ser em caso de safety-car ou chuva; ou de uma enorme folga para quem estivesse atrás, que no fim foi o que aconteceu.

Russell: belíssima prova, de 12º no grid para o pódio

Max retornou à pista sem perder a liderança, porque o segundo colocado àquela altura era Pérez – que ainda tinha de fazer seu pit stop. O mexicano parou na volta 28, quando Russell, o alarmista, entrou no rádio gritando: “Chuva! Chuva na curva 5! Água, muita água! Vejo objetos boiando, pessoas se agarrando aos troncos!” “Tá bom, George”, respondeu o engenheiro, observando que não havia chuva alguma. “Enchentes, inundações, deslizamentos, casas desabando!”, continuou o piloto da Mercedes. “Você fez a melhor volta, George”, bufou o engenheiro. Fez-se um silêncio. “Ninguém mais está vendo essa chuva?”, perguntou Russell, finalmente. “Há relatos do sul da Bahia, George.” “Eu sabia, eu sabia!” “São de janeiro, George.” E George, então, parou de falar de chuva.

Com todos já calçados com borracha nova, metade da prova, volta 33, Verstappen liderava com enorme tranquilidade, seguido por Hamilton (a mais de 13s), Sainz, Russell, Stroll, Ocon, Pérez, Tsunoda (que fazia uma boa prova), Alonso e Zhou (outro que ia bem) nas dez primeiras posições.

Na volta 35, a Mercedes seguia impressionando. Russell partiu para cima de Sainz e almoçou o piloto da Ferrari sem precisar mastigar muito, assumindo o terceiro lugar. Um pódio duplo da equipe alemã se desenhava com alguma nitidez. A Aston Martin, por outro lado, enfrentava seu pior fim de semana no ano. Stroll parou pela segunda vez e foi lá para trás, 12º. Alonso era o sexto, mas também teria de fazer mais um pit stop. Ninguém entendeu direito a estratégia do time verde, de fazer dois stints com pneus macios.

Pódio para Hamilton, em segundo: luz no fim do túnel para a Mercedes

A segunda rodada de pit stops começou na altura da 40ª volta. Sainz foi aos boxes na 42ª e colocou pneus duros. Sua corrida era contra Pérez, pelo quarto lugar. Russell parou na 46ª e colocou pneus macios. Voltou em quarto, mas muito distante de Checo, cerca de 14s atrás. Apostava numa nova visita do segundo piloto da Red Bull aos boxes.

Hamilton parou na volta 51 e colocou pneus macios. Pérez acabou com as dúvidas de quem achava que iria parar só uma vez e veio para os boxes, também, colocando macios. No fim das contas, ninguém levaria seus carros até o fim com apenas um pit stop. Na volta 53, Verstappen, um ano na frente de todo mundo, colocou pneus macios, também, para as 13 voltas finais da corrida.

Pérez não precisou de muito tempo para passar Sainz e ganhou a quarta posição. Não restava muita coisa para acontecer. Sem muito assunto, o engenheiro de Verstappen entrou no rádio e o alertou: “Você está sendo advertido ela terceira vez por exceder os limites da pista, Max”. “Uai, onde?”, espantou-se o holandês. “Parece que na garagem do hotel, você parou seu carro em cima da faixa da vaga ao lado.” “Ah, tá bom, eu arrumo quando voltar.”

Apesar dos alertas, Verstappen socou o pé no acelerador e fez a melhor volta da corrida. Não queria deixar nada para ninguém. “Então, o engenheiro implorou: “Agora anda dentro das linhas, tá bom, querido?” Max assentiu.

Foi a sétima vitória da Red Bull no ano, mantendo a invencibilidade em 2023. A Mercedes fez festa com Hamilton e Russell em segundo e terceiro, na real estreia do carro atualizado da equipe – ainda que tenham chegado longe, bem longe do atual bicampeão; Lewis a 24s090, George a mais de meio minuto. Pérez, Sainz, Stroll, Alonso, Ocon, Zhou e Gasly fecharam a zona de pontos. Tsunoda tinha recebido a quadriculada em nono, mas foi punido com 5s em seu tempo total de volta por ter empurrado o chinês da Alfa Romeo para fora da pista.

Foi um fim de semana curioso, este de Barcelona. Num eventual sobe-desce, daqueles que a gente fazia nos jornais impressos depois de cada corrida, a Red Bull se manteve no alto, a Mercedes subiu (bastante), a Ferrari e a Aston Martin claramente desceram. No time italiano, Leclerc largou em 19º e terminou em 11º, fora dos pontos. Sainz largou em segundo e chegou em quinto, atrás de Pérez, que estava em 11º no grid. Já o time de Alonso e Stroll, desta vez, não lutou pelo pódio em nenhum momento, perdendo a posição de segunda força, ao menos momentaneamente, para a Mercedes. Foi uma decepção, principalmente para os torcedores espanhóis.

Alonso, apenas sétimo: acenos para a torcida no fim da prova

Depois de Verstappen e Pérez na tabela de pontos aparece Alonso em terceiro com 99. Na sequência vêm Hamilton (87), Russell (65), Sainz (58) e Leclerc (42). No Mundial de Construtores, a Red Bull chegou a 287, contra 152 da Mercedes, agora vice-líder. A Aston Martin caiu para terceiro com 134 e depois vêm Ferrari (100), Alpine (40) e McLaren (17). A próxima etapa do campeonato acontece daqui a duas semanas no Canadá.

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