SOBRE PIQUET

As joias guardadas por Piquet: receptador de material roubado (foto: Estadão)

SÃO PAULO (dose…) – Andam me cobrando, nas redes sociais, para escrever algo sobre Nelson Piquet — agora alçado à condição de receptador de joias roubadas pelo ex-presidente, aquela desgraça que se abateu sobre o país, a maior de todas. Como se sabe, o “Estadão” descobriu que o genocida enviou presentinhos que recebeu como titular do Alvorada para a fazenda do ex-piloto em Brasília. Entre eles, um Rolex de ouro branco cravejado de diamantes que pretendia desviar do acervo do Estado brasileiro. Livros e cartas recebidas, faz-se necessário sublinhar, foram enviados para a Biblioteca Nacional, no Rio. Nem um nem outro leriam, de qualquer maneira.

Hoje dei uma entrevista sobre o assunto ao “My News”, conduzida pela minha querida amiga Myrian Clark — fomos contemporâneos nas “Folhas”. Para quem quiser ver, o trecho está aqui. Não tenho muito mais a escrever sobre Piquet do que o que publiquei no dia 4 de julho do ano passado em minha coluna no UOL. Como o texto é fechado para assinantes, e já deixei o portal como colunista, republico aqui, sem alterações e/ou atualizações. Aos que forem ler, reforço: a coluna foi escrita em de julho de 2022. Portanto, as referências temporais (“ano passado”, “semana passada”, essas coisas) devem ser colocadas em perspectiva. Tampouco será encontrada alguma referência às posteriores notícias envolvendo Piquet, como uma insinuação de que Lula deveria morrer, a multa de R$ 5 milhões que recebeu por suas declarações racistas e homofóbicas e, agora, a guarda de material roubado em seu domicílio.

A quem interessar possa, aí está.

NOSSOS ÍDOLOS AINDA SÃO OS MESMOS. MUDEMOS, ENTÃO

Quando Nelson Piquet saiu do carro para socar Eliseo Salazar na Alemanha, em 1982, achamos o máximo. Ele merece, mesmo, onde já se viu fechar nosso piloto desse jeito?

Quando Nelson Piquet foi desclassificado do GP do Brasil semanas depois de vencer em Jacarepaguá, no mesmo ano, porque seu carro carregava um tanque de água que era esvaziado durante a corrida, depois da pesagem oficial, achamos uma injustiça – qual o problema de dar uma dribladinha marota no regulamento?

Quando Nelson Piquet bateu o carro em Ímola em 1987 e ficou sem enxergar direito, perdeu a noção de profundidade, e escondeu isso dos médicos e da equipe, colocando todos que corriam com ele em risco, achamos aquilo um exemplo de dissimulação dos mais aceitáveis, afinal acabou ganhando o campeonato.

Quando Nelson Piquet chamou Nigel Mansell de “idiota veloz” e disse que ele não tinha só a mulher mais feia do mundo, mas também a segunda, porque teria um busto dela no jardim, achamos aquilo muito engraçado e gargalhamos.

Quando Nelson Piquet insinuou que Ayrton Senna era homossexual dizendo que a imprensa deveria perguntar a ele por que o rival não gostava de mulher, achamos aquilo picante e midiático e alimentamos a história por anos.

Quando Nelson Piquet mandou colocarem para-lamas sobre as rodas do carro de seu filho para descaracterizá-lo e permitir que ele fizesse testes num ano em que treinos privados eram proibidos na Fórmula 3 brasileira, achamos que os outros estavam chorando à toa e elogiamos sua esperteza e sagacidade.

Quando Nelson Piquet deu uma entrevista ao lado de Mansell depois da gravação de um comercial para a Ford numa pista gaúcha e disse que se achava melhor que Senna porque estava vivo e o outro, morto, achamos aquilo um pouco exagerado, piada de mau gosto, talvez, mas, puxa, é o Piquet, ele sempre foi assim.

Quando Nelson Piquet resolveu revelar um ano depois do acontecido que seu filho bateu o carro de propósito em Singapura para não ser mandado embora da Renault e a Renault o mandou embora mesmo assim, não perguntamos a ele por que não botou a boca no trombone na hora, não questionamos se exporia o escândalo se o filho tivesse ficado na equipe, e tratamos pai e filho como vítimas de personagens insidiosos do paddock.

Quando Nelson Piquet foi convidado para a primeira transmissão da volta da F-1 à Band e referiu-se à emissora que deteve os direitos de TV nos 40 anos anteriores como “globolixo” no melhor estilo bolsonarista de se expressar, as pessoas no estúdio riram e os seguidores do presidente tiveram orgasmos nas redes sociais. Ah, as molecagens do Piquet!

Depois Piquet abraçou Bolsonaro e o velho da Havan. Dirigiu o Rolls Royce presidencial no infame 7 de setembro do ano passado, dia em que o indigitado percorreu o país declarando sem nenhum constrangimento suas intenções golpistas. Deu entrevistas aos mais desprezíveis entrevistadores possíveis, entre eles um dos filhos do presidente – a ele, prometeu deixar o país se a esquerda voltasse ao poder; que seja cobrado. Então sua filha começou a namorar Max Verstappen, que no ano passado se transformou no maior rival de Lewis Hamilton, o único piloto negro da história da F-1, chamado de “patrão” por fãs brasileiros. Então Verstappen ganhou o título do ano passado e o filho de Piquet, “cunhado” de Verstappen, colocou no ar um vídeo no Instagram vestindo uma camiseta na qual se lia a elegante frase “patrão é ‘meuzovo’” para comemorar a conquista de Max e debochar de Hamilton. Então Piquet deu mais uma entrevista no fim do ano passado e se referiu a Hamilton, várias vezes, como “o neguinho”, e chamou Keke Rosberg, campeão de 1982, de “bosta”, e falou que o filho deste só ganhou o campeonato de 2016 porque “o neguinho devia estar dando muito o cu” naquele ano.

Nossos ídolos ainda são os mesmos, cantou Elis Regina divinamente na letra de Belchior. O verso permite uma leitura sutilmente diferente se por “mesmos” entendermos que não nos referimos a uma lista de pessoas que nossos pais também idolatraram, e essa lista atravessa o tempo, e continuamos a idolatrar essas mesmas pessoas.

Alguns sempre foram assim, grosseiros, espertalhões, velhacos, homofóbicos, racistas, e nesse sentido sempre foram os mesmos, mesmo; nunca mudaram. E ainda assim insistimos em idolatrá-los, em perdoar seus deslizes, sua canalhice, sua abjeção, suas ofensas, seu comportamento, seus atos vis. Resistimos em admitir que idolatramos pessoas que jamais deveriam merecer nossa admiração, nem a de ninguém.

Piquet sempre foi isso aí. Errados somos nós, que para ele batemos palmas por tanto tempo sabendo quem ele é. E a cada aplauso reforçamos tudo aquilo que representa e defende, e por isso somos cúmplices históricos de sua ignomínia.

Que aceitemos nossos erros e saibamos mudar, algo que, pelo visto, Piquet não soube. Ao contrário, só piorou.

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FOTO DO DIA

Sepang, 29 de março de 2015. Depois de largar em sexto com a Toro Rosso, Max Verstappen termina o GP da Malásia em sétimo e se torna, aos 17 anos, cinco meses e 29 dias, o piloto mais jovem de todos os tempos a marcar pontos na F-1. Oito anos depois, tem 36 vitórias e dois títulos no bolso. E pergunto a vocês: já é um dos maiores da história?

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FOTO DO DIA

Fachada da fábrica atualizada.

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JUCA CHAVES, 84

SÃO PAULO – Mais um que se vai, e que fez parte do caldo cultural que formou minha geração. Juca Chaves gostava de carros. Chegou a entrar num empreendimento que não saiu do papel, o Bettina. Teve um Jaguar E-Type, entre tantos outros — Arnaldo Keller contou aqui que ele andava com uma lista de 73 carrões que tinham passado por suas tantas garagens. Amava a Bahia, o lugar que escolheu para viver. Gostava de andar descalço. Nunca deixou os palcos — grandes ou minúsculos, sem mágoas ou ressentimentos. Foi perseguido pela ditadura militar apenas por ser… engraçado. Tentou a política. Falou bobagens. Cometeu seus erros. Quem não cometeu? Cantava, compunha (“A Cúmplice” é lindíssima). Era uma figura, um tipo de figura que o Brasil não produz mais — culto, inteligente, sarcástico, divertido.

Tem um texto lindo do Ricardo Feltrin sobre o Juquinha aqui. Vocês que nunca ouviram falar dele, procurem. Tem bastante coisa na mãe internet. Sua entrevista ao Jô (aqui, aqui, aqui e aqui) é deliciosa. Gastem seu tempo com algo útil. Como saber quem foi Juca Chaves. Com todos seus defeitos e qualidades.

Juca Chaves e o Bettina: ficou no papel

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RUBENS & BARRICHELLO

SÃO PAULO (coisas boas) – Atual campeão da Stock Car, Rubens Barrichello terá como companheiro de equipe na Full Time, neste ano, seu filho Dudu, 21 anos. É um momento histórico no automobilismo brasileiro, acho até que inédito. Todos já vimos pais e filhos dividindo carros e equipes, mas em provas e eventos esporádicos. Não numa temporada inteira de um campeonato profissional como é a Stock.

Será mais uma atração da categoria, que terá sua prova de abertura em Goiânia, no dia 2 de abril. Serão 12 etapas, sem rodadas duplas.

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WE ♥ RACE CARS

Vou imitar os textos das postagens do RIPfutebol clube no Instagram, que curto demais: borracha Goodyear da DPaschoal; cenário apocalíptico lembrando Cubatão; asfalto trabalhado na lixa 60; patrocínio de estoura-peito em espaços nobres do carro; apoio de posto de gasolina de beira de estrada; bocal de reabastecimento pronto para vazamentos fatais; roda dourada da Quantum CD; toca-fita de gaveta; parentesco com Uno, Prêmio e Panorama; macacão de brim com zíper aberto; entrada de ar lateral recortada na Makita; eis a Ferrari para 1994, senhoras e senhores!

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ENCHE O TANQUE

SÃO PAULO (anotado: voltar à Grécia) – Esses meus leitores… O Alvaro Armbrust Jr. ficou quatro anos ensaiando mandar as fotos. Precisava tanto? A mensagem dele:

Estive por 30 dias na Grécia no verão de 2019. Visitei algumas ilhas Cíclades (as mais desconhecidas e menos badaladas), Creta e algumas Ilhas Jônicas, além de Atenas. Em Ios, vi este Fiat 500 parado neste pequeno hotel e não resisti. Nada para mim simbolizava mais o espírito do verão em uma pequena ilha grega do que aquele carro, naquela cor, naquele cenário. Tudo tinha a ver! A cor do carrinho é tão linda! Em Zakynthos, ilha Jônica, quando vi este postinho, apesar de ser à noite, lembrei do teu blog, não resisti e fiz a foto. Demorei todo este tempo para enviar porque achei que não passariam pelo padrão de Qualidade Flavio Gomes e também porque fiquei com medo de você achá-las muito fraquinhas. Na verdade, este medo ainda tenho! Mas se achar que valem uma postagem, sinta-se à vontade para fazê-lo. Abraços sinceros de um admirador e companheiro de convicções políticas e humanísticas.

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“Prost não gostava de chuva!” Também…

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LEGIÃO URBANA

Alguns carros precisam ser salvos. Quatro portas assim não tem muitos, não…

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ENCHE O TANQUE

Como sempre, prioridade para quem viaja e lembra deste blog abandonado… O Wagner Ribeiro, que não é aquele empresário do Neymar, mandou a foto “de um solitário posto localizado na estrada de acesso ao Valle Nevado, em Santiago, Chile”.

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