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Monday, 6 de March de 2006 - 11:51Brasil

Alguém castiga

SÃO PAULO (sem comentários) – Morreu no fim da semana o Athayde Patreze. Para quem não lembra, aquele cara da TV que tinha como bordão “simplesmente um luxo” e usava um microfone dourado.

Até alguns dias atrás, eu o tinha apenas na conta dos folclóricos sujeitos que sabe-se lá como arrumam espaço na TV. No caso dele, um cara meio tonto que ficava bajulando milionários. Seu programa se chamava “Ricos & Famosos”, se não me engano.

Era tão trash que tinha audiência. Tinha patrocinadores fortes, os mesmos caras que ele bajulava no ar. Fazia mal a alguém? Acho que particularmente não, embora picaretas de todas as espécies sejam um mal em si. Imagino quanta grana não foi lavada por picaretas similares patrocinando aquela merda.

Nos últimos tempos o cara andava sumido, ficou doente, e passou a ser entrevistado por programas jovens de rádio e TV. Esteve no “Pânico”, fazendo papel de palhaço e repetindo que odiava pobres. OK, tudo engraçado, um pateta a mais em decadência, tudo acaba.

Aí, como eu dizia, alguns dias atrás ouvi uma entrevista do Patrese na 89 FM, uma emissora de SP que se intitula “a rádio do rock”. Como é das poucas que meu rádio na Paulista sintoniza, por causa das interferências das antenas, fiquei escutando.

Estava interessante. O cara era um escroto que de tão escroto ficava gozado. Peguei o carro para ir para a TV e continuei ouvindo e me divertindo com seu discurso escroto sobre pobres, Lula e Brasil em geral. Até a hora em que uma menina perguntou sobre o rim que ele doou ao filho alguns anos atrás.

“Foi a maior cagada que fiz na minha vida”, ele disse, com essas palavras. E jogou no ar um discurso contra a doação de órgãos, sendo bem claro num ponto: ele se arrependeu amargamente de ter doado seu rim ao filho. Se arrependeu de ter salvo a vida do filho.

O que era apenas escroto passou dos limites. Patreze passou a fazer hemodiálise não sei quantas vezes por semana, mas seu egoísmo foi muito maior que a alegria de ter salvo um filho, e se pudesse voltar no tempo deixaria o filho morrer para ficar com seu rim, suas viagens para Miami e Punta del Este, sua vida babaca.

Patreze simplesmente morreu depois de uma sessão de hemodiálise na semana passada. Sou um ateu convicto, e não vou atribuir a nenhum deus o castigo divino. Mas que ele veio, veio.

Um PS: mais do que lamentar a estupidez do discurso de Patreze contra doação de órgãos, fiquei chocado com a estupidez dos entrevistadores. Jovens de não mais do que 30 anos rindo das atrocidades que ele dizia, incapazes de contestá-lo e de se indignar. Quando ele chamou uma fiscal da Fazenda de “vagabunda” porque estava investigando a compra de três BMWs que Patreze fizera, os entrevistadores riram com gosto. Como se fosse lindo sonegar, pregar a desonestidade, propagar o mau-caratismo.

Patreze morreu, mas boa parte das gerações que vêm por aí são como ele. É o que mais dói. Elis cantou isso.

60 comentários

  1. Mauricio Cerione says:

    Conhecia muito pouco desta pessoa até por um acaso assistir parte da sua entrevista no pânico, repugnante uma pessoa falar da forma que ele falava e ainda assim ter espaço na radio e tv. Me senti envergonhado com cada gesto de preconceito e idiotice que ele expressava e só não me assustei mais porque a pouco tempo conheci uma pessoa muito parecida com ele, na forma dd pensar, falar e ser com todo orgulho, e nem se trata de ser um milionário, mas o perfil repugnante de caracter estava nele em cada palavra. Infelizmente meus caros ainda existem muitos “Ataíde Patrezi” espalhados por ai e alguns com muito poder, decidindo os rumos do “pão e circo” igual aos senhores feudais.

  2. ANA PAULA says:

    TANTA ARROGÂNCIA
    TANTA HUMILHAÇÃO A QUEM NÃO TEM
    TANTO DINHEIRO,DEVERIA TER COMPRADO UMA VIDA NOVA.
    MORREU
    ACABOU
    APODRECEU OU VIROU CINZA.
    LEVOU TERRA NA CARA,COMO TODO SER HUMANO…
    SIMPLESMENTE UM LUXO…

  3. Ricardo Dellai says:

    O brasil é uma merda mesmo, o patreze não estava totalmente errado.

    Aqui só vejo ladrão se dando bem esta semana pegaram 4 auditores da prefeitura de SP, com meio bilhão de reais. E só um apedeuta para acreditar que ficarão presos.

    Tem uma máfia no setor de doação de órgãos, portanto eu e a minha família jamais seremos doadores para sustentar estes vagabundos.

    Minha sobrinha teve um tumor no cérebro, e um médico pilantra já estava dando atestado de óbito para ela querendo arrancar os seus órgãos, ela continua viva até hoje já faz 6 meses isso.

    Athaide patreze matou a cobra e mostrou o pau, não curtia o programa dele, mas isso que falou mandou bem.

    É isso aí.

  4. […] não deixe de ler a crônica escrita por Flavio Gomes sobre este mesmo tema, clicando aqui. Imperdível. Esta entrada foi escrita emCrônica e tags Frases e declarações, Sociedade, […]

  5. Flavio Chinini says:

    Houve uma confusão entre liberdade e libertinagem. Não é porque deve ser respeitada a liberdade de expressão, que o Patreze tinha o direito de ser preconceituoso como era. Foi um erro.

  6. Fabio Bandini says:

    Júlio,
    fantástico termos no país todo tipo de ‘artista’. Uns gostam de Atahyde Patreze, outros de Elis e Caetano.
    E como disse o Máximo, viva a liberdade de expressão.
    PS: concordo de novo com o Máximo. Achava o Patreze um boçal não pq era rico ou fazia sucesso (sic) mas sim pq era um escroto arrogante de marca maior.
    Abs

  7. Máximo says:

    Pelos idos de 94 saiu na capa da Carta Capital uma foto do Raí e a chamada era “Um país que tem Raí e Edmundo é ídolo alguma coisa está errada!”
    é mais ou menos o caso. o Patreze ganhou $, mas o Silvio Santos (maior pagador de imposto de renda do Brasil) não é escroto como ele era.
    então, não me venha com esse papo de que o sucesso incomoda. o que incomoda é a falta de respeito, de ética e de educação.

    Outra coisa… se o FG é comunista e ateu deixa ele. ou será que todo mundo vai ter de gostar de azul porque é minha cor favorita?

    VIVA A LIBERDADE DE EXPRESSÃO

  8. Flavio Chinini says:

    Só para lembrar, é esta mesma elite, vencedora e arrogante, que discrimina e causa esta enorme desigualdade que existe em nosso país. No final dos cálculos, estamos todos no mesmo barco. A diferença está em quem uns tem mais, outros menos, e outros nada.
    Quanto a Elis ser elitista, há um leve engano… Ela era atuante no sindicato dos músicos, defendia sua classe com unhas e dentes. Gravou músicas dos maiores compositores da música popular brasileira (Adoniran Barbosa era da elite???). Organizou o circuito universitário, fazendo shows e debatendo assuntos pertinentes com universitários de todo o Brasil, em época de ditadura, com todas as despesas do seu prórpio bolso (enquanto o Caetano estava “exilado” na Inglaterra).

  9. julio ribeiro da sil says:

    Fábio, Flávio
    Não gosto do estilo da Elis Regina, ela foi uma das principais responsáveis pela elitização da MPB e juntamente com o Caetano e outros desvirtuam a verdeira musica POPULAR brasileira, aliás a filha dela é tão chata qto ela.
    Com relação ao Patreze pqe justamente ele teria q ser um herói, pqe ele teria q fazer algo edificante para a nossa nação???Ele simplesmente se deu bem na vida e isso no Brasil incomoda, neste país se o cara falar : eu sou o bom!!!! mesmo isso sendo verdade, incomoda, dói nos ouvidos dos invejosos, é típico pensamento de país e de gente pequena, salve o gde Athaíde Patreze, que sempre alegrava o ambiente com suas tiradas geniais, mto melhores do q as letras pseudointelectuais da Elis ou do Caetano.

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