RITA
Agora, Rita Lee Jones, que nos ocupemos em morrer.
Agora, Rita Lee Jones, que nos ocupemos em morrer.
A IMAGEM DA CORRIDA

SÃO PAULO (tem quem goste) – O certo era achar uma foto de Verstappen passando Pérez. Até tem uma, está mais abaixo, mas é “frame” da TV, imagem aérea, esteticamente pobre. Assim, depois de rasgar elogios ao rapaz ontem e explicar tintim por tintim como ele ganhou o GP de Miami, restam as irrelevâncias. Isso explica a foto escolhida para representar a corrida: essa coisa brega de americano que acha que todo evento esportivo tem de se parecer remotamente com o Super Bowl. E, no fim, tudo se parece mesmo é com aquelas competições colegiais que a gente vê nos filmes enlatados da TV.
Alguém avise a Liberty que faz anos que a F-1 baniu as grid girls.




Verstappen foi vaiado pelo público ontem no pódio e, como de costume, cagou e andou para os torcedores. “O importante é meu troféu, quem não gosta de quem ganhou vaia, não ligo muito para isso”, disse. Havia muitos mexicanos na torcida, por isso as vaias. Mexicanos são meio malas. Isso quem está dizendo sou eu. No caso da F-1, creem piamente que Pérez está sendo sacaneado pela Red Bull.
Pérez é pior que Verstappen. Ponto. Como Vettel era melhor que Webber. Hamilton, que Bottas. Senna, que Berger. Schumacher, que Barrichello. Não é preciso teorizar muito mais sobre o assunto.
O NÚMERO DE MIAMI
38
…vitórias tem Verstappen na carreira, todas elas pela Red Bull. Ontem ele igualou o maior vencedor da história da equipe, Sebastian Vettel. O alemão ganhou 53 corridas na F-1, sendo 38 pela Red Bull, 14 pela Ferrari e uma pela Toro Rosso.
Vitórias a partir da nona posição do grid não são muito comuns na F-1. Ontem, foi apenas a quinta vez na história que isso aconteceu. A última fora em 1984 com Niki Lauda no GP da França, de McLaren. Antes, Maurice Trintignant (Ferrari, Mônaco/1955), John Surtees (Honda, Itália/1967) e Jody Scheckter (Wolf, Canadá/1977). A Red Bull chegou a 97 vitórias na categoria. Fará uma linda festa na centésima. Pérez, por sua vez, completou o número redondo de 30 pódios.
Bela mierda.
A FRASE DE MIAMI

“Ele estava simplesmente inalcançável. Não consegui ter o mesmo ritmo. Precisamos entender por quê.”
Sergio Pérez
Bom, quando descobrir, avisa. Há quem diga que a tática de largar com duros e terminar com médios era melhor, e por isso foi aplicada no carro de Verstappen. Bobagem. Na Mercedes, Russell largou com médios, como Pérez, e terminou com duros. Estava na frente de Hamilton no grid. Lewis, como Verstappen, fez o inverso: largou com duros e terminou de médios. E quem chegou na frente? Russell.
Não faria sentido deixar Pérez na pole com pneus duros cercado de carros com pneus médios, que fatalmente conseguiriam ultrapassá-lo na largada. Isso atrasaria o mexicano. Se ele não conseguiu disparar na frente e depois, com pneus duros novos, não teve capacidade para ser mais rápido que Verstappen — que tinha os mesmos compostos desde o início da prova –, problema dele.


Acima, o panorama de momento da temporada depois de cinco corridas. O desempenho dos times abaixo da Ferrari é patético. Um GP distribui 102 pontos, quando o ponto extra da melhor volta fica com alguém que terminou entre os dez primeiros. Num fim de semana de Sprint, são 138. Nesta temporada, foram 545 pontos entregues até agora, porque em um GP a melhor volta ficou fora da zona de pontuação.
As quatro primeiras colocadas somam 500 — 91,7% do total. As outras seis, juntas, têm 45. Apenas um ponto a mais do que Sainz, sozinho, fez com a Ferrari. É uma vergonha.
Caixinhas, então, para não me irritar ainda mais.
GIL DE VOLTA – Gil de Ferran está de volta à McLaren, como consultor. O ex-piloto brasileiro, que fez carreira na Indy, já trabalhou no time entre 2018 e 2020. Ocupará um cargo não executivo ou operacional. Servirá de conselheiro para Andrea Stella, novo chefe da equipe. Gil é ótimo. Inteligente, de grande conhecimento técnico e capacidade de liderança. Vai acontecer alguma coisa na McLaren com sua chegada? Nada. Enquanto Zak Brown achar que é OK dividir esforços, dedicação e dinheiro entre F-1, Indy, Fórmula E, Extreme-E, videogames, autorama, Passa ou Repassa e Big Brother Brasil, a McLaren não vai sair do lugar.
O TAMANHO DA TROLHA – A Red Bull ganhou as cinco corridas do ano até aqui. Vejam a diferença do vencedor para o melhor carro não-Red Bull em cada uma delas: 38s6 (Bahrein), 20s7 (Arábia Saudita), 0s1 (Austrália, mas terminou com bandeira amarela), 21s2 (Azerbaijão), 26s3 (Miami).
O TAMANHO DA TROLHA II – A equipe austríaca, desde o GP da França do ano passado, ganhou 15 das 16 provas disputadas. Só perdeu em Interlagos para a Mercedes de Russell. O número tem certa magia. O melhor desempenho de uma equipe na história é o da McLaren em 1988, com 15 vitórias em 16 etapas. É o maior percentual já registrado numa única temporada, 93,75% do total de GPs. A Red Bull igualou a marca, ainda que em campeonatos diferentes. O resto que lute.
GOSTAMOS & NÃO GOSTAMOS
GOSTAMOS de Fernando Alonso, claro, quatro pódios em cinco corridas, sempre em terceiro lugar. Com 75 pontos, é o terceiro colocado no campeonato — o “melhor dos outros” — e responsável por 73,5% dos pontos da Aston Martin. Está nas nuvens. “Não é que voltei a ser o que era antes”, falou. “Sempre fui o mesmo, a diferença é que agora estou numa equipe que acredita em mim e no que eu digo e faço.” O recado foi enviado para McLaren e Renault, em especial.

NÃO GOSTAMOS do evento como um todo. Público disperso, arquibancadas vazias na sexta e no sábado, asfalto refeito mas ainda ruim, traçado desinteressante, cafonice espalhada por todos os cantos. Tem gente que insiste no papo de que americano sabe fazer espetáculo. Sim, sabe. Mas americano também é muito bom em fazer espetáculo ruim, forçado, artificial. Corrida de carro não é circo. Nem parque de diversões.

SÃO PAULO (deu pro gasto) – Max Verstappen jogou um balde de água gelada na cabeça de Sergio Pérez. Eu ia dizer “jogou água na tequila”, para fazer uma brincadeira com aquela história do chope e tal… Mas a imagem mais próxima da realidade é o banho gelado, mesmo.
Pérez vinha de vitória dupla — Sprint + GP — em Baku, fez a pole ontem, viu o companheiro se estrepando e tendo de largar em nono, e conseguiu não ganhar o GP de Miami. Foi humilhado. Chegou em segundo mais de 5s atrás, depois de liderar a prova até a volta 48. Se sonhava em lutar pelo título, acordou. Não vai. O holandês fez uma das melhores corridas de sua vida: cerebral, precisa, perfeita. Alcançou 38 vitórias na carreira, três delas neste ano. Estava seis pontos à frente do mexicano na classificação e corria o risco de perder a liderança. Como venceu e fez também a melhor volta, abriu 14 sobre o companheiro de equipe: 119 X 105. A Red Bull segue invicta na temporada, com cinco triunfos em cinco etapas.

Não se pode contar a história do GP de Miami sem ao menos registrar a cafonice da apresentação dos pilotos num corredor de cheerleaders convocados por LL Cool J (não sei direito quem é) sob uma orquestra tocando uma música-tema do GP, composta por Will.i.am (que também não sei direito quem é). Os pilotos tiveram 15 minutos para entrarem nos carros, afivelarem os cintos e conectarem cabos em todos os cantos, depois da patuscada.
Quando as mantas térmicas dos pneus foram retiradas, notou-se que a maioria estava de pneus médios (os sete primeiros no grid, por exemplo), alguns de duros (Hamilton, Ocon e Verstappen, entre outros) e a dupla da McLaren de macios.
A largada foi muito tranquila, com Pérez sem ser incomodado por Alonso. Magnussen, de quarto para sétimo, foi quem largou pior. Verstappen fechou a primeira volta onde estava, em nono. Já na segunda, quando pôde identificar os carros no entorno, gente que só conhecia por foto, começou a passar quem estivesse à frente. O primeiro foi Bottas. Estranhou o bigode. “Ele não era assim, quando estava na Williams”, falou, pelo rádio. “Ele já saiu da Williams e foi para a Mercedes, Max.” “Mas esse carro aí não é da Mercedes, é da Ferrari.” “Não, Max, é vermelha, mas é Alfa Romeo, e o Bottas está na Alfa Romeo.” “Ah…”
Na quarta volta, Max fez uma ultrapassagem dupla sobre Leclerc e Magnussen. “Uai, não era o Mick que corria na Haas?”, perguntou pelo rádio, ao ver de soslaio o nome do piloto dinamarquês. “É Magnussen”, respondeu o engenheiro. “Ah, lembro dele. E aquele russinho?”, continuou. “Já saiu, Max.” “Ah…” Então Verstappen olhou no espelho para saber quem mais tinha passado e viu a Ferrari. “É Kimi?” “Não, Max. É Charles.” “Ah…”

Pouco depois, o bicampeão avistou um carro da Mercedes adiante. “Vou passar Lewis”, informou pelo rádio. “É George, Max.” “Mas George não é aquele da Williams?” “Já trocou, Max.” “Ah…” Passou na oitava volta. O seguinte era Gasly, da Alpine. “Vou passar Alonso”, avisou. “É Gasly, Max.” “Mas Gasly não era da Toro Rosso?” “AlphaTauri, Max. Mas já saiu.” “Ah…” Na nona volta, deixou o francês para trás e foi para a quarta colocação. O alvo seguinte era Sainz, da Ferrari. Com isso, sua diferença para o líder da prova, Pérez, era menor do que 5s. Estava voando. Com pneus duros. Teria médios depois que parasse. As trombetas começaram a soar nas orelhas de Checo. Max ia chegar. Ia passar. Ia ganhar.
Na 14ª volta, Verstappen ultrapassou Sainz. “Passei uma Alfa Romeo!”, comemorou, animado. “Agora vou pra cima do Seb!” “Era uma Ferrari, Max. E é Alonso, não Vettel.” “Mas ele não parou de correr?” “Não, Max, quem parou foi Vettel.” “Ah…” Alonso não resistiu meia volta. Na 15ª, o holandês era o segundo colocado, 3s8 atrás do companheiro de equipe.
Alguns pilotos, avisados por seus boxes de que os pneus duros estavam se comportando lindamente no carro de Verstappen, começaram a parar para trocar os compostos médios que haviam escolhido para começar a prova: Russell, Leclerc e Sainz, entre eles. Max seguia se aproximando do líder. “Quem está em primeiro?”, perguntou. “Seu parceiro”, respondeu o engenheiro. “Diga a Dany para não dificultar as coisas”, pediu. “Dany saiu da equipe em 2018, Max.” “Mas eu vi ele ontem com a mesma camisa que eu!”, surpreendeu-se. “Ele agora é nosso reserva, Max.” “Ah…” Seguiu-se um silêncio. “E quem é meu companheiro agora?”, acabou perguntando, um tanto envergonhado. “É Checo, Max. E ele acabou de parar no box.”

Era a volta 21, e Pérez voltou em quarto, atrás de Max, Alonso e Ocon. Nenhum dos três havia trocado pneus ainda. Verstappen tinha um plano muito claro: fazer voltas rápidas uma em cima da outra, tentar abrir uma vantagem para Pérez, trocar de borracha e voltar na frente. E fazer seus pneus duros aguentarem o máximo possível. Checo estava 18s atrás, já em terceiro — superou Ocon sem nenhuma dificuldade.
A prova tinha alguma movimentação no pelotão intermediário, com lutas não muito esganiçadas por posições pouco relevantes. Hamilton, por exemplo, ficou um tempão brigando com Hülkenberg. Russell, com Stroll. Leclerc, com Magnussen. Alonso parou na volta 25 e voltou em quinto. Pérez, já em segundo com pneus novos, começou a andar mais que Verstappen e sabia que quando seu companheiro parasse, voltaria à ponta. Na volta 26, a diferença para o #1 era de pouco mais de 16s.
Alonso, de volta com pneus novos, passou Sainz rapidinho e foi para cima de Ocon, o terceiro, que ainda não tinha parado, assim como Verstappen. Este fazia uma corrida de precisão: mantinha Pérez sempre cerca de 15s atrás e ia levando, para ter a chance de, com pneus médios, atacar o parceiro depois de sua parada e ter borracha suficiente para se segurar na ponta. Quanto menos voltas tivesse de percorrer com os médios — mais rápidos, mas que se desgastam mais –, melhor.
Na volta 33, Max fez a melhor volta da prova. O ritmo, com aqueles pneus velhos e carcomidos, beirava o espantoso. Na 35ª, repetiu o feito. Pérez deu o troco — mas tinha uma borracha bem mais nova. E a melhor volta seguinte foi de… Hülkenberg, que estava lá atrás, em 15º. Explicação: acabara de colocar pneus médios. Aqueles que Verstappen teria à disposição na parte final da corrida.

Quem fazia uma boa prova, para não dizer que meus olhos estavam voltados apenas para a dupla da Red Bull, era Russell. Na volta 40, aparecia em quarto e, coisa mais fofa, cantarolava quando fazia ultrapassagens. Seu companheiro Hamilton, em compensação… Um dos últimos a trocar pneus, se arrastava na metade do pelotão brigando com pilotos da Williams, Alfa Romeo e Haas. Só foi reagir nas voltas finais, terminando em sexto. No fim, um bom resultado para quem largara em 13º.
Voltando aos líderes, tudo indicava que Max, ao fazer seu pit stop, retornaria à pista atrás de Pérez. Tudo, menos o cronômetro. A partir da volta 40, o bicampeão começou a fazer tempos excelentes; o mexicano, medíocres. A diferença, na volta 43, passou dos 18s. Mais um pouquinho e ele conseguiria parar, colocar pneus médios e voltar à pista na frente. Não daria tempo de um cafezinho no pit stop, porém. Seria justinho, na conta do chá.

Mas não deu. Na volta 46, Verstappen finalmente foi para os boxes. A parada foi OK, no padrão Red Bull. Pérez, no entanto, passou. A situação: Checo líder com pneus duros de 26 voltas; Max segundo, 1s5 atrás, com pneus médios novinhos em folha. A ultrapassagem era questão de tempo. Pouquíssimo tempo. “Vou passar o Albon”, alertou o time, pelo rádio. “É Sergio, Max. Sergio Pérez.” A primeira tentativa foi na volta 47. Não deu. A segunda, na 48. Deu. “Passei o Kvyatt da Toro Rosso!”, reportou. “Quem está em primeiro agora?” “Não é Kvyatt, Max. E não tem mais Toro Rosso. Era Pérez. Sergio Pérez, Max. Ele é da Red Bull, a nossa equipe. E você está em primeiro.” “Ah…”

Verstappen passou e foi embora, fez a melhor volta da corrida e ao final da prova parecia dizer: “Chega de conversinha, vamos acabar logo com esse negócio, dá meu troféu que preciso ir no shopping do jacaré”. Miamizeiros entenderão. Venceu, cumprimentou Pérez e Alonso, o terceiro colocado — pela quarta vez no ano –, e acenou para os demais que fecharam a zona de pontos: Russell, Sainz, Hamilton, Leclerc, Gasly, Ocon e Magnussen.
No momento em que encerrava este texto, os boatos eram de que Pérez tinha decidido abandonar a carreira. “Isso não é mais pra mim”, teria dito a um representante do cartel de Sinaloa, que perdeu uma grana nesse domingo e foi visto no paddock atrás de explicações.
Peço perdão à minha meia-dúzia de leitores pelo horário. Tivemos um problema técnico nos servidores do blog (ficam nos EUA) que só agora, quase meia-noite, foi resolvido.

SÃO PAULO (errar é humano, mas é melhor errar menos…) – Sergio Pérez, quem diria… Está nas nuvens, o mexicano. Graças a um erro de Max Verstappen — raro, incomum,
fortuito, insólito, inaudito, ocasional –, Checo fez a pole para o GP de
Miami, a quinta etapa do Mundial de F-1, no estacionamento do estádio dos
Dolphins. O holandês, líder do campeonato, bobeou em sua primeira tentativa de
fazer tempo, deu uma rabeada numa curva de alta, abortou a volta e estava prestes a abrir sua segunda “flying lap” quando Charles Leclerc bateu de novo, motivando
uma bandeira vermelha e encerrando a classificação. Sem tempo de volta, Max
larga em nono.
Checo já tinha um tempo bastante aceitável, e com ele assegurou sua segunda
pole no ano. Lembremo-nos de que vem de duas vitórias no fim de semana passado,
uma na Sprint e outra no GP do Azerbaijão. Nessa posição, com Verstappen bem
atrás no grid, é o favorito para ganhar mais uma. Fernando Alonso larga em
segundo. A segunda fila tem Carlos Sainz, da Ferrari, e Kevin Magnussen, da
Haas. Um milagre do dinamarquês.
Feita a introdução, segue o relato literário do sábado em Miami.

Com 29°C, nuvens no céu e menos gente do que os organizadores gostariam nas
arquibancadas, o Q1 começou com Ferrari e Aston Martin paradinhas nos boxes
enquanto os outros iam para a pista. Pista, diga-se, com todo respeito, mas sem
papas na língua, de merda: asfalto escorregadio e sujo, traçado sem imaginação,
a chatice que combina com a cidade. “Ah, você não gosta de Miami, por que você
não gosta de Miami? É tão linda, tem outlets!” Não, não gosto de Miami, acho
uma merda, quente, úmida, e caguei para os outlets.
A Ferrari saiu depois de alguns minutos e os astonmárticos foram os últimos
a registrar tempos. De cara Alonso se colocou em quarto. Quem tomou um susto
meio esquisito foi Hamilton atrás de Magnussen. Vinha rápido, a Haas na frente
muito lenta, Lewis sem saber direito o que fazer, foi no muro e lambeu a
proteção com o lado esquerdo de seu carro.
Depois de algumas voltas opacas, Verstappen fez 1min27s363 e enfiou quase
0s4 em Pérez, para deixar claro que, ali, quem mandava era ele. Pelo menos até
aquele momento. Leclerc, que estava todo feliz em primeiro até minutos antes,
viu seu tempo ser pulverizado em meio segundo. A três minutos do fim, drama
mesmo vivia a Mercedes, com seus dois pilotos fora da zona de classificação, em
16º e 17º. Para não falar da McLaren, com as duas últimas posições.
No fim, os mercêdicos passaram. Mas a dupla papaia ficou. Norris, Tsunoda,
Stroll, Piastri e Sargeant foram os eliminados. Desastre ianque: Sargeant, o
único do país que disputa o Mundial, e a equipe dirigida pelo americaníssimo
Zak Brown, que faz muita espuma e apresenta poucos resultados. A Haas salvou a
América. Houve surpresas, aí. Stroll, com a vice-líder Aston Martin? Os dois da
McLaren, mesmo Norris? Sim, surpreendente. Lance explicou depois que a equipe
fez uma ligeira bobagem, colocando pneus usados em seu carro. Foi igualmente
espantosa a passagem de De Vries para o Q2, ele que está na marca do pênalti e
vinha ocupando, com louvor, o último lugar em vários momentos dos treinos.
Ganhou uma sobrevida.
No Q2, Leclerc foi o primeiro a baixar de 1min27s, com 1min26s964. Mas
Verstappen foi ainda melhor, com 1min26s814 — que viria a ser o melhor tempo
do fim de semana, melhor mesmo do que a pole de Pérez. E o roteiro da xepa do
Q1 se repetiu, com a dupla da Mercedes deixando para os últimos minutos a
tarefa de passar ao Q3. Russell se virou e conseguiu avançar na bacia das
almas, em décimo. Lewis ficou em 13º, patético. Pela ordem, os degolados: Albon,
Hülkenberg, Hamilton, Zhou e De Vries. Duas surpresas: Bottas em sétimo e
Magnussen em nono. Foi a primeira passagem da Alfa Romeo ao Q3 no ano.
Na fase decisiva, Verstappen abortou sua primeira volta quando cometeu o já
mencionado e inabitual erro, deixando para Pérez o melhor tempo da primeira
bateria de voltas voadoras: 1min26s841. Leclerc também deu uma esfregada no
muro e não conseguiu um tempo bom. A três minutos do final, o holandês foi para
a pista de novo. Não tinha tempo registrado, ainda. Àquela altura, qualquer
coisa já seria lucro, pressionado que estava. Mas, então, a menos de dois
minutos da quadriculada, Leclerc bateu de novo. Ah, Leclerc… Bandeira
vermelha. E a direção de prova, com 1min36s de tempo restante para o fim da
classificação, foi rápida e avisou: a sessão não seria reiniciada, já que
ninguém conseguiria, mesmo, abrir volta.

Assim, Pérez garantiu a pole, apenas a terceira de sua carreira (as outras
duas foram em Jedá, ano passado e no começo desta temporada). Com Dom Fernando
Alonso El Fodón de la Primera Fila em segundo, para gáudio dos quarentões. Na
segunda fila, dois motores Ferrari: o de Sainz em terceiro e, creiam, o de
Magnussen, da Haas, em quarto. Gasly, Russell, Leclerc, Ocon, Verstappen e
Bottas fecharam o grupo dos dez primeiros.
Max em nono será bem divertido. Se ontem ele colocou ordem na casa e em
todos os treinos até o Q3 dominou o fim de semana, na hora H deu tudo errado.
Agora, corre o seríssimo risco de sair da Flórida na vice-liderança do
campeonato, porque Checo não tem nada com isso. Seis pontos atrás na
classificação, se vencer termina o domingo no Taco Bell comemorando a ponta na
tabela de pontos. O que deixaria o garoto enxaqueca injuriado, certamente.
A corrida começa às 16h30. Façam aí suas apostas: em qual volta Verstappen
estará em segundo? E o que acontecerá depois? Resumo da ópera, uma prova que
prometia bocejos pode acabar sendo bem melhor que a encomenda.

SÃO PAULO (chega de brincadeira) – Max Verstappen colocou ordem no galinheiro e foi o mais rápido do dia na abertura dos trabalhos para o GP de Miami, a quinta etapa do Mundial de F-1. Depois de perder a corrida de domingo passado para seu companheiro Sergio Pérez, em Baku, o líder do campeonato pretende retomar as rédeas da temporada o mais rápido possível. Ele tem apenas seis pontos de vantagem sobre Checo. E não quer ser importunado com conversinha de “sí, se puede” – coisa típico de latinos, mais ainda dos dramáticos mexicanos, mesmo sabendo que no, no se puede.
Pérez, aliás, foi o quarto colocado no último treino livre, atrás do parceiro e da dupla da Ferrari – Sainz em segundo, Leclerc em terceiro.

Se o primeiro treino livre foi surpreendente, com a volta dos mortos-vivos da Mercedes (Russell em primeiro, Hamilton em segundo), a sessão que fechou o dia teve resultados mais condizentes com a realidade. Russell, no TL1, tinha ficado um tempão nos boxes trocando a caixa de direção. Seu melhor tempo foi ainda mais espantoso por causa disso. O único incidente aconteceu com Hülkenberg, que bateu a pouco menos de meia hora do encerramento. Outra anotação que fiz no meu caderninho: De Vries em último, 4s5 atrás de Russell. Quatro segundos e meio.


O treino do fim da tarde foi realizado ainda com sol, temperatura de 28°C e 40°C no novo asfalto de Miami – a outra novidade do circuito foi o paddock montado dentro do estádio. A patética marina de mentira, onde alguns iates estão “ancorados” no cimento pintado de azul para parecer água, segue tão fake e ridícula quanto no ano passado.
Leclerc foi o primeiro no fim de semana a fazer uma volta abaixo de 1min29s, no que foi seguido imediatamente seguido por Verstappen e Pérez. Max o superou, Checo ficou logo atrás.
Os tempos começaram a cair rapidamente, pela melhora de condição da pista – mais emborrachada e esfriando na medida em que o sol descia — e com o uso dos pneus macios. Norris, já vestindo a borracha mais aderente, entrou rapidinho na casa de 1min28s com 20 minutos de sessão. A diferença de rendimento entre os pneus macios e os médios, em Miami, é brutal. A questão é: quantas voltas eles aguentarão?



Quando colocou macios, Verstappen fez uma volta 1s melhor que a que tinha com médios. Pulou para primeiro com 1min28s255, deixando Norris meio segundo atrás. Na sequência vieram Sainz e Leclerc, se aproximando do holandês.
Max, então, baixou mais um pouco, para 1min27s930. Parecia sobrar no circuito da Flórida. Faltando dez minutos para o encerramento do treino, Leclerc bateu e a bandeira vermelha foi acionada. Naquele momento, a maioria estava já fazendo simulações de corrida, com sequências longas de voltas. Charlinho entrou direto na barreira de contenção da curva 7, onde há uma generosa área de escape antes do encontro com o muro – que é macio. Quebrou bico, asa dianteira, suspensão.

Quando o carro foi removido e a barreira terminou de ser ajeitada, já não havia tempo para mais nada. O treino até foi reiniciado com três minutinhos de pista, mas a classificação ficou como estava: Verstappen, Sainz, Leclerc, Pérez, Alonso, Norris, Hamilton, Stroll, Ocon e Albon nas dez primeiras posições. Fiz outra anotação mental: De Vries em penúltimo, agora 1s998 atrás do líder. O que acontece com esse moço, que era tão bom? Só sei que já andam dizendo que a AlphaTauri (leia-se Red Bull) já pensa em substituí-lo se as coisas não melhorarem logo.
Amanhã sai o grid a partir das 17h. Agora vamos à live no canal youtúbico!



Assim será a pintura da Red Bull em Miami. Criação da fã argentina Martina Adriano. Gostaram?
A IMAGEM DA CORRIDA

SÃO PAULO (próxima!) – Não sou o maior admirador de Sergio Pérez, mas não se pode negar que a marca de cinco vitórias em circuitos de rua é digna de nota, aplausos e elogios. O mexicano parece se transformar nesse tipo de pista. Sua vitória domingo — repetindo a de sábado, na Sprint — foi inatacável. Por isso escolhi a foto acima como a mais representativa do fim de semana do Azerbaijão: Checo na rua, onde se sente melhor.
E qual seria o segredo de Pérez nas corridas urbanas? Eu, sinceramente, não sei. Há um claro padrão se desenhando, porém. Que meu hermano Diego Mejía, que conheci pequenininho quando trabalhava só na Rádio Caracol da Colômbia, tenta explicar no vídeo abaixo. Deliciem-se.
Isso posto, a F-1 vive o pior momento de sua história? A péssima qualidade do espetáculo em Baku colocou a questão em pauta, ainda que possa parecer um pouco exagerada numa primeira olhada.
Mas é uma boa discussão, e dada a ausência de emoções e de eventos interessantes no GP do Azerbaijão, vou indicar mais um vídeo, este de Victor Martins, comandante-em-chefe do Grande Prêmio. Ele elenca uma série de patuscadas da categoria neste ano, que culminaram com a corrida sem sal de domingo encerrada com uma quase tragédia nos boxes. E depois de assistir, vá ao rescaldão da prova — e reconheça meu esforço danado para encontrar assuntos em torno desse GP…
A FRASE DE BAKU
“Pode juntar tudo e jogar no lixo”
Verstappen, sobre o novo formato dos fins de semana de Sprint

O atual bicampeão não é o maior fã das mudanças que a Liberty vem promovendo na F-1, mas nunca tinha sido tão claro e direto ao falar sobre elas. O holandês reclamou das duas classificações — acha que elas banalizam o momento solene de fazer aquela volta voadora que todos sonham — e não leva muita fé na multiplicação de Sprints. Quebrou o pau com Russell no sábado. E, no domingo, estava claramente desinteressado em lutar pela vitória.
Está registrada sua insatisfação. E não que seja muito importante, concordo com ele. Considero essa coisa de fazer um treino livre apenas e confinar os carros em Parque Fechado, reprimindo o trabalho de pilotos, técnicos, engenheiros, mecânicos & o escambau, um atentado contra a natureza da F-1. E um desperdício de talento. As melhores cabeças do automobilismo estão na F-1. E a Liberty não deixa que trabalhem para fazer algo básico em qualquer esporte: melhorar seu rendimento.
É uma aberração.
O NÚMERO DO AZERBAIJÃO
25
…dobradinhas na história alcançou a Red Bull, a oitava com a dupla Verstappen-Pérez (o mexicano chegou na frente em duas delas, ambas neste ano). A dupla mais vitoriosa, disparado, foi Vettel-Webber. Ele fizeram 16 dobradinhas entre 2009 e 2013 — o alemão venceu 13 delas. Ricciardo e Verstappen foram responsáveis por um isolado 1-2 na Malásia, em 2016. A Red Bull é a quinta maior nas estatísticas de dobradinhas, perdendo para Ferrari (85), Mercedes (59), McLaren (48) e Williams (33).
Adrian Newey renovou seu contrato com a equipe austríaca “por muitos anos”. É hoje o gênio solitário das pranchetas, e aí não há nenhuma licença poética. O projetista desenha seus carros com lapiseira, compasso, régua e esquadro. Tem ideias fabulosas e uma compreensão de princípios aerodinâmicos que nenhum túnel de vento movido a inteligência artificial seria capaz de contestar.
Engenheiro aeronáutico que trabalhou na Copersucar e na Indy antes de começar a ganhar tudo na F-1, Newey conquistou títulos mundiais na Williams (92, 93, 94, 96 e 97), McLaren (98) e Red Bull (de 2010 a 2013 e em 2022). Isso só considerando as taças de Construtores — 11, para quem está com preguiça de fazer a conta. Além desses, Hakkinen, em 1999 na McLaren, e Verstappen, em 2021 na Red Bull, também foram campeões em carros seus.
Newey tem apenas 64 anos. E um entusiasmo juvenil renovado a cada mudança de regulamento. É o principal nome da equipe desde sempre. Mais do que qualquer piloto, guru ou chefe falastrão.
GOSTAMOS & NÃO GOSTAMOS
GOSTAMOS só de Pérez, e por isso a galeria abaixo para homenageá-lo. A primeira montagem é bem interessante. São suas seis vitórias na categoria. Só a primeira, pela Racing Point, num circuito permanente. Foi em 2020 no anel externo de Sakhir, em plena pandemia. Parece que foi em outra vida. Poderia incluir Tsunoda nessa lista raquítica de coisas positivas do GP. Afinal, ele terminou em décimo, enquanto o festejado De Vries segue decepcionando com a pequena AlphaTauri. Mas ele também bateu sábado. E, convenhamos, décimo numa F-1 que vive uma temporada de nível baixíssimo de competitividade — tirando Red Bull e Aston Martin, as demais equipes têm sido uma vergonha — não chega a ser uma façanha épica.






NÃO GOSTAMOS do resto. E pode piorar. Semana que vem é em Miami, aquela pista ridícula.
SÃO PAULO – Como a cada 1º de maio é mais ou menos a mesma coisa, entendo que tem gente que queira ler/pesquisar/ouvir sobre o acidente que matou Senna. Aqui, um dos tantos textos que escrevi. E que está, ampliado em revisado, no livro “ÍMOLA 1994”. Que, por sua vez, pode — e deve — ser comprado aqui.


SÃO PAULO (sonolento) – Sergio Pérez ganhou o GP do Azerbaijão hoje em Baku. Encostou em Max Verstappen na classificação e a Red Bull garantiu sua terceira dobradinha em quatro corridas na temporada com o holandês em segundo. Charles Leclerc, da Ferrari, fechou o pódio. O mexicano chegou à segunda vitória no ano, sexta na carreira e quinta em circuitos de rua. Ontem, Checo já havia vencido também a Sprint. Foi o melhor fim de semana de sua carreira na F-1. Na tabela de pontos, Verstappen tem 93 e Pérez, 87. Fernando Alonso, quarto hoje, é o terceiro com 60 pontos.
A prova teve raríssimas disputas e emoções. Max perdeu a corrida por ter feito seu pit stop segundos antes da entrada de um safety-car no início da prova, após batida de Nyck de Vries. Deu azar. Pérez aproveitou, ganhou a ponta e não largou mais. Dali até o final, o que se viu foi uma procissão pelas ruas da ex-república soviética banhada pelo Mar Cáspio.
Domingo que vem tem corrida de novo, o GP de Miami — novamente um circuito urbano, que estreou no calendário no ano passado.


O GP de Baku foi modorrento do início ao fim. Não houve surpresas quando os cobertores dos pneus foram retirados no grid e quase todo mundo – as exceções foram De Vries, Ocon e Hülkenberg – apareceu com pneus médios. A largada foi das mais civilizadas dos últimos anos, sem toques, batidas, xingamentos, dedos do meio ou bananas. “Posso passar aqui, senhor?”, dizia um “À vontade, querido!”, respondia o outro. “Se precisar, posso me afastar um pouquinho mais”, acrescentava um terceiro.
Leclerc, o pole, sustentou a ponta no início, mas sabia que era questão de tempo até ser ultrapassado por Verstappen, posto que o ritmo de corrida da Ferrari só é bom por, sei lá, cinco minutos. Na quarta volta, Max abriu a asa, fez tchauzinho e foi embora. Resistência zero. Pérez, em terceiro, notou a facilidade e engoliu Charlinho na sexta.
É triste dizer, mas naquele momento, apenas seis voltas de 51 previstas, a corrida tinha acabado. A não ser, claro, que algo estranho acontecesse.

Naquela calmaria, foi uma fofura a troca de mensagens de rádio na Aston Martin. Em sétimo, Stroll falou para seu engenheiro que não iria atacar Alonso, em sexto. Alonso, por sua vez, ao ser informado da gentileza, agradeceu e se colocou à disposição caso o filho do dono da equipe quisesse ultrapassá-lo. “Não se incomode”, respondeu Lance, educadíssimo. “Estou muito bem aqui.” “Agradecido”, devolveu o bicampeão. Fernandinho chegou a sugerir que Stroll usasse o mesmo esquema de distribuição de carga dos freios que tinha adotado. “No meu carro está ótimo!”, assegurou. “Obrigado, príncipe, vamos passar para ele. Aproveitando, Lance mandou lembranças à linda Taylor”, respondeu o engenheiro pelo rádio. E seguiram ambos atrás de Hamilton, o quinto, que por sua vez gravava stories para seu “insta”.
Lewis foi chamado para os boxes na volta 10. Voltou em 13º atrás de uma fila gigantesca de carros. Foi quando De Vries bateu sozinho no muro e Verstappen entrou voando para trocar pneus. Aí o safety-car foi requisitado. O problema para o líder é que demorou um pouco para seu acionamento. Para Pérez, que estava em segundo e muito perto do companheiro, o ligeiro atraso no chamado do safety-car foi providencial. Pôde fazer sua parada em ritmo lento, enquanto Max o fez sob bandeira verde.

O prejuízo do holandês foi razoável: perdeu a liderança para Checo e ainda viu Leclerc ganhar sua posição. Caiu para terceiro. Com o safety-car na pista, todo mundo aproveitou para fazer seus pit stops. Ocon e Hülkenberg, que largaram de pneus duros, eram os únicos sem paradas, em oitavo e nono.
Concluída a bateria de trabalho na borracharia, os maiores prejudicados foram Hamilton, que despencou para décimo, e Verstappen. Os pneus duros foram escolhidos por todos, para que pudessem ir até o final da corrida. No fim da 13ª volta o safety-car recolheu-se à sua insignificância e Max não perdeu tempo. Foi para cima de Leclerc na relargada, passou e assumiu o segundo lugar. Alonso, por sua vez, mergulhou lindamente sobre Sainz e pulou para quarto.
Hamilton, então, terminou de subir seus vídeos no TikTok e foi para cima de quem estava na frente. Passou Hulk, Ocon e Russell e subiu para sétimo. Depois, superou Stroll e foi para sexto. A briga mais séria aconteceria mais adiante, pela vitória, entre Pérez e Verstappen. Era o “algo estranho” de alguns parágrafos acima, motivado pela batida de De Vries. A dobradinha da Red Bull não estava ameaçada por nada nem ninguém. A dúvida era: quem iria chegar na frente?

A impressão que se tinha àquela altura da corrida, lá pela volta 26, metade do GP, era de que Verstappen cozinhava o galo para decidir o que fazer nas voltas finais. Falsa impressão… Assisti à corrida na minha segunda tela, graças ao plano Ultra Plus Platinum da F1TV, de dentro do carro do holandês. Isso para ouvir as conversinhas fiadas dele com o engenheiro. E só o último falava. Um narrador calmo e sereno e um piloto aparentemente conformado com o segundo lugar. Mera burocracia. “Max, por favor, coloque o botão amarelo na posição 7. Obrigado, Max. Max, por favor, gire o botão verde até a posição ON. Obrigado, Max. Max, observe a beleza dessa construção medieval à sua esquerda. Obrigado, Max. Max, já decidiu qual será o cardápio para hoje à noite? Obrigado, Max.” De Max, silêncio total. Nem a comida escolheu.
O problema para ambos, engenheiro e piloto, era Pérez. O mexicano, que ganhou a liderança de graça com a parada do holandês nos boxes e já havia vencido a Sprint ontem, estava animadíssimo e começou a escapar do parceiro. Na volta 30, a diferença superava a casa dos 2s. Para Verstappen, uma dificuldade extra, já que só poderia tentar a ultrapassagem quando fosse possível abrir a asa móvel.
A verdade é que as coisas não estavam muito boas para o líder do campeonato. Seu carro começou a ter um comportamento errático e o engenheiro aumentou a frequência de orientações. “Max, ligue o interruptor à direita e digite seu código do banco, por favor, o mesmo que usa no caixa eletrônico, não o da internet. Obrigado, Max. Max, aponte seu celular para o QR code que aparece na sua tela e use o cupom MAX2023. Obrigado, Max. Max, pisque o olho direito três vezes e enfie o dedo médio na orelha esquerda. Não, não pode tirar o capacete, Max. Obrigado, Max.”

Nada dava resultado. E, na corrida, nada acontecia. Pérez, Verstappen, Leclerc, Alonso, Sainz, Hamilton, Stroll e Russell eram os oito primeiros, separados por distâncias que não sugeriam grandes disputas. A dez voltas do final, Checo já tinha quase 4s de vantagem para seu companheiro.
E foi assim, um porre até o final. Nos últimos minutos houve uma batalha a distância pela volta mais rápida da corrida, com Verstappen e Alonso se revezando na honraria. Mas a Mercedes acabou com a brincadeira dos dois, parando Russell na penúltima volta e colocando um jogo de pneus macios em seu carro. Ele não perdeu posição nenhuma e ganhou o pontinho extra.




Pérez recebeu a quadriculada 2s1 antes de Verstappen. Leclerc ficou em terceiro e foi ao pódio pela primeira vez no ano. Alonso, Sainz, Hamilton, Stroll, Russell, Norris e Tsunoda fecharam a zona de pontos. Pelo rádio, Verstappen ouviu de Christian Horner que “a temporada é longa” e “Checo deu sorte na entrada do safety-car”. Respondeu que estava tudo bem, acontece.
Foi o pior GP do ano. Mas, como disse o chefe da Red Bull, a temporada é longa. Não será boa, o time austríaco vai ganhar o campeonato com um pé nas costas (até agora, venceu as quatro corridas de 2023), Verstappen será o campeão, e o jeito é torcer por umas corridinhas boas até o fim do ano.
E torcer, também, para que quase-tragédias não aconteçam. Vejam na primeira foto da galeria acima a entrada de Ocon para trocar pneus na última volta da corrida. Os comissários estavam posicionados para cercar o Parque Fechado e organizar os fotógrafos, que também estavam por ali para clicar a festa dos pilotos e das equipes. Por muito pouco não deu uma merda federal.
Hoje às 19h lá no meu canal no YouTube tem o “Fórmula Gomes” para analisar a corrida de Baku, espero todos!

SÃO PAULO (valeu acordar?) – O primeiro Sabadão Independente da Sprint dos Últimos Tempos da F-1 não foi assim uma Brastemp.
(Alguém se lembra da expressão “não é assim uma Brastemp”? Agora caiu a ficha – alguém ainda sabe o que é “cair a ficha”? – que o slogan publicitário tem anos, muitos anos, e talvez os mais novos não saibam do que se trata. Pesquisei aqui e vi que esse verdadeiro clássico da propaganda é de 1991 e foi “descontinuado” em 2003, 20 anos atrás, portanto. O bordão foi retomado em 2017 apenas como uma homenagem à grande campanha criada pela Talent, uma das mais criativas agências dos anos de ouro da publicidade brasileira. É possível que muita gente diga isso, hoje, sem saber a origem ou o significado. Assim como “cair a ficha” é algo que para os mais jovens carece de sentido, porque nem orelhão existe mais. Vocês sabem o que é orelhão, né? Bom, “não é uma Brastemp” é isso aí, é um troço OK, legalzinho, mas que não é… uma Brastemp, uai.)
Arriscaria dizer que a classificação bem cedinho, às 5h30 de hoje pelo horário de Brasília, foi melhor que a Sprint. Tudo teve de ser feito muito rápido e por isso a atividade de pista ofereceu algum frenesi — com tráfego, ansiedade, busca por uma volta rápida a qualquer custo, erros possíveis a cada esquina dobrada. Sessões de classificação, para pilotos, são quase como uma prova de virilidade. “Olha aqui como eu consigo ser mais rápido que você. Numa volta só, tu não amarra minha sapatilha!” É mais ou menos assim.
A sessão que forma o grid da Sprint se chama Shootout, dividida em três partes: SQ1 de 12 minutos, SQ2 de dez e SQ3 de oito. No final da primeira Sargeant bateu e, mais tarde, a Williams decidiu que ele nem participaria da provinha horas depois – não daria para arrumar o carro. O que se viu no SQ1, com todos usando obrigatórios pneus médios novos, foram baterias de cinco ou seis voltas sem parar. O mais rápido foi Leclerc com 1min42s820 e os eliminados, Zhou, Bottas, Tsunoda, Gasly e De Vries.
O SQ2 mais curto também foi disputado com todos usando pneus médios – a regra é essa – e Verstappen ficou em primeiro com 1min42s417. A degola ceifou Piastri, Hülkenberg, Ocon, Magnussen e Sargeant, que tinha passado da primeira fase, mas ficou sem automóvel disponível e, como se sabe, não pode pegar outro emprestado.

Um dos que foram ao SQ3, Norris, nem saiu para a pista na terceira parte. Isso porque, de novo pelas novas regras, nessa fase do Shootout é obrigatório o uso de pneus macios novos. A McLaren tinha usado todos os macios disponíveis. O mesmo aconteceria com Tsunoda, da AlphaTauri, se chegasse lá. É meio ridículo, mas é assim. Leclerc, que fizera a pole para o GP na véspera, acabou fazendo também a pole da Sprint com 1min41s697. Pérez ficou em segundo a 0s147 e Verstappen foi o terceiro. Fecharam os dez primeiros Russell, Sainz, Hamilton, Albon, Alonso, Stroll e Norris, este sem tempo.
Em relação ao grid que saiu na sexta-feira, seis pilotos ficaram na mesma posição – Leclerc, Stroll, Sargeant, Zhou, Gasly e De Vries. Cinco melhoraram e nove pioraram. Charlinho, logo depois de cravar o melhor tempo, conseguiu bater de leve no muro, quebrando o bico do carro. Nada grave.
Ninguém estourou champanhe na Ferrari pela pole de Leclerc na Sprint, assim como nenhum chefe de equipe foi demitido depois da classificação por conta de um mau resultado inesperado. Foram todos almoçar tranquilamente.
Quem resolveu mexer nos carros, que ficam tecnicamente “confinados” em regime de Parque Fechado, pagou por isso. Ocon, por exemplo, teve a configuração de suas suspensões alterada, o que resulta em punição, e teria de largar dos boxes. A Aston Martin, às voltas com uma nova asa móvel que não abre direito, não podia desmontar o equipamento para arrumar, nem trocá-lo. Há limites estabelecidos pelo regulamento daquilo que pode ou não pode ser feito em Parque Fechado.

E, finalmente, chegou a hora da Sprint. Grid montado, notou-se que apenas dois dos 19 que largariam para a corridinha foram de pneus macios, contra médios de todos os demais.
Leclerc e Pérez partiram bem e mantiveram primeiro e segundo lugares. Nos primeiros metros, Verstappen e Russell trocaram tinta, foram se batendo e ofendendo as respectivas famílias por algumas curvas e o inglês da Mercedes, sem muito a perder, ganhou a posição do holandês. Este reclamou bastante pelo rádio do comportamento do colega. “Ele é muito educado fora da pista, nos jantares, nas entrevistas, mas aqui me pareceu um tanto rude”, disse o piloto da Red Bull ao seu engenheiro.
(Na verdade, como as conversas de rádio têm de ser mais curtas por motivos óbvios, Verstappen falou apenas “manda esse arrombado se foder, filho da puta do caralho!”, o que no código das comunicações da F-1 significa exatamente a frase anterior. Por isso, nada de julgar o rapaz, é apenas a necessidade de falar menos, daí o uso de algumas expressões que podem parecer impróprias.)
Na segunda volta, um pneu de Tsunoda descolou da roda e fez-se necessária a intervenção do safety-car virtual. O japonês conseguiu voltar aos boxes e colocar pneus novos, mas saiu com o carro todo torto, andando de lado. Como se arrastava pela pista e em alguns pontos havia pedaços de carro espalhados, resultado das refregas da primeira volta, o safety-car real foi chamado para permitir a limpeza e a remoção dos detritos. A AlphaTauri foi multada por devolver seu piloto à pista sem a menor condição.




O reinício aconteceu no final da quinta volta. Max espumava atrás de Russell e tentaria o bote na relargada, graças ao vácuo que a enorme reta de Baku permite. Foi o que fez. “Chupa, almofadinha!”, berrou dentro do capacete – pena que o rádio estava desligado, mas foi possível fazer a leitura labial. Espertos, Sainz e Alonso passaram o sonolento Hamilton, que caiu de quinto para sétimo. Estava bocejando, na hora, pensando no que iria postar no Instagram mais tarde.
Leclerc se mantinha na ponta com Pérez na cola e Verstappen um tiquinho mais distante. A corrida era curta, 17 voltas, todos sabiam disso, daí a pressa de, havendo a intenção de fazer alguma coisa, não procrastinar muito. E na volta 8 o mexicano jantou Charlinho com guacamole e sour cream. Max, pertinho, viu que foi fácil. Mas não se animou muito para fazer o mesmo. Demorou para alcançar a Ferrari #16 e se colocar em condições de ultrapassar. Além do mais, seu carro estava todo arrebentado pelos toques com Russell no início.
Mais atrás, nada de relevante acontecia. Na volta 12, Stroll passou Albon e entrou na zona de pontuação da Sprint – oitavo lugar. Só. Os demais estavam longe para sonhar com pontos. Andavam próximos entre eles, é verdade, mas não arriscavam nada para não dar trabalho aos mecânicos em caso de uma batida besta. Ninguém atacava com apetite. Ninguém se defendia com sofreguidão.


Foi uma minicorrida protocolar e burocrática. Nem comemorar direito a Red Bull e Pérez, o vencedor, comemoraram. O mexicano recebeu a quadriculada mais de 4s à frente de Leclerc, que por sua vez viu Verstappen em terceiro a 0s6. Russell, Sainz, Alonso, Hamilton e Stroll fecharam o grupo dos oito primeiros.
O melhor do sábado foi o breve encontro entre Verstappen e Russell já no Parque Fechado. O carro de Max tinha um rombo na lateral causado pela Mercedes #63. Foi tirar satisfação com Jorginho, que passava por ele. “Porra, tu é cego? Não me viu? Tá louco? Fazer tanta merda na primeira volta? Cuzão!” As palavras não foram exatamente essas, talvez tenha ocorrido um pequeno erro de tradução aqui ou ali, mas consegui apurar que Russell, ainda que tenha sido difícil escutar tudo porque ele estava de capacete, respondeu: “Ora, ora, meu jovem nederlandês… Vivemos momentos dramáticos em nossa equipe, precisamos recuperar a autoestima perdida no ano passado com um projeto equivocado que inexplicavelmente teve sequência nesta temporada, o que fiz foi apenas pensando nas centenas de pessoas que trabalham conosco, algumas muito agradáveis e camaradas, de várias nacionalidades e etnias, uma vez que respeitamos a diversidade, todas certamente muito esforçadas e talentosas. Saiba que lhe admiro muito, reconheço seu elã e espírito competitivo, algo que muito me apetece, e se porventura, desafortunadamente, prejudiquei o amigo enfiando uma piroca gigantesca na lateral de seu veículo, pau no seu cu”.
Virou as costas e foi embora.





Na entrevistinha pós-corrida, a repórter da F-1 perguntou a Verstappen se aquele breve colóquio havia esclarecido as coisas. “Não esclareceu nada, não. Não entendo por que tem gente que se arrisca tanto na primeira volta. Ele disse que estava de pneus frios. Na primeira volta está todo mundo sem aderência, de pneus frios, mas tudo bem. Ele aprende com o tempo. É o que é, tem um buraco no meu carro, ficou feio, mas agora vamos pensar na corrida de amanhã.”
Funcionou a primeira Sprint autônoma da história da humanidade? Não. A corridinha foi ruim e nada do que a Liberty previa aconteceu – ninguém saiu feito louco atrás de um oitavo lugar.
Mas não funcionou porque o formato é ruim ou porque a pista não ajudou?
Acho que os dois. A prova não embaralha mais o grid do GP de verdade, portanto ninguém carrega drama nenhum para o dia seguinte. Quem não quer drama amanhã não faz cagada hoje, é o que sempre digo. Não quer acordar de ressaca, não bebe. A pista é muito longa, os carros se espalham rápido, há uma cautela natural por causa da proximidade dos muros e tal. Talvez a melhor definição do que vimos hoje tenha sido a de Hülkenberg: “A Sprint é o nosso treino de ‘long runs’. Não pode mexer em nada por causa do Parque Fechado, então é um pouco frustrante”. “Long runs”, como vocês sabem, são aquelas séries longas de voltas que os pilotos normalmente fazem no segundo treino livre, às vezes no terceiro, para acertar seus carros para a corrida.
Serão seis dessas Sprints no ano. Faltam cinco. Como diria Glória Pires, ainda não consigo opinar. Mas, numa primeira olhada, meio de mau humor, não curti muito, não. Falando português bem claro, achei uma porcaria.
Ah, o embate Russell x Verstappen, talvez vocês queiram saber o que achei. Não achei nada, não aconteceu nada, coisa normal de largada. Max não gosta das Sprints e anda com um humor parecido com o meu. “Junta tudo e joga fora”, respondeu, quando perguntaram se tinha sido um sábado agradável.
O Dacia Logan que dividiu os 25 km de Nürburgring com Max Verstappen foi o grande herói do fim de semana nas pistas. O carrinho fabricado na Romênia acabou se transformando no xodó dos 350 mil esp...