A MISTERIOSA SACI

SÃO PAULO(de babar) – No fim dos anos 50 e início dos anos 60, a Grassi, tradicionalíssima fabricante de carrocerias de ônibus, arriscou uma motoneta com mecânica Sachs. Saiu essa obra de arte, batizada de Saci. Sabe-se pouco dela, e quem mais sabe é o Osmani, dono da Lambretta D’Época, o maior restaurador de motonetas do mundo. O trabalho que esse rapaz faz é inacreditável. Ninguém no planeta conhece tanto de Lambrettas, Vespas & similares, Sacis incluídos. Ou incluídas, no caso.

E é incrível que não tem nada, nada na internet sobre ela. Um tremendo mistério, mas conversei com o Osmani e eis o que se pode afirmar sobre o brinquedinho:

– O motor era alemão, Sachs de 175 cc de cilindrada, aparentemente o mesmo dos pequenos Messerschmitt, dois tempos. Pelo que o Osmani descobriu, os motores trazidos pela Grassi foram de um lote fabricado em 1959. E as motonetas foram feitas, provavelmente, apenas em 1960.

– Os pneus eram 4:50 aro 10, Pirelli, possivelmente fabricados especificamente para a Saci. Parecidos com os das Romi-Isettas, mas mais gorduchos.

– Quantas foram feitas? Não há dados muito precisos. O número de chassi mais alto que o Osmani encontrou estava ali pelo número 290. 300? 400? Who knows?

– A Saci era muito ruim de dirigir. A ciclística era horrível. A motoneta não tinha amortecedores, e tanto na frente, quanto atrás, coxins de borracha faziam o papel da suspensão. “Rabo-duro e frente-dura”, diz o Osmani.

– O câmbio tinha quatro marchas, numa pequena pedaleira no lado esquerdo do assoalho. Detalhe: a primeira era para baixo, e tinha de ser engatada com a ponta do pé. Segunda, terceira e quarta eram engatadas com o calcanhar, para baixo. Entre todas as marchas havia um ponto morto, que podia ser acionado por um botão no painel. Um botão, digamos, de desengate rápido. O sujeito chegava num semáforo, e não tinha de ficar procurando o ponto morto com o pé. Desengatava com o botão no painel e depois ia procurar a primeira para sair do lugar.

– Na foto do painel, o botão preto da esquerda liga e desliga parte elétrica. Originalmente era uma chave de ônibus igual às que a Grassi usava nos painéis dos coletivos. O segundo é o do ponto morto. O pretinho do meio corta o motor. O outro é o afogador.

– Reparem no acabamento. Tem “Grassi” no fundo do velocímetro, na buzina, no farol. No tanque, debaixo do banco, está estampado: “Motoneta Grassi – São Paulo”.

– Osmani tem um folheto promocional com um desenho chamando a atenção para a autonomia da Saci. Ele mostra, de um lado, o prédio do Banespa e, do outro, o morro da Urca, no Rio. “Você consegue fazer 600 km com um tanque”, informa a peça. O tanque da Saci tinha capacidade para 12 litros de gasolina! Uma Lambretta LD, para comparar, levava 5.

– Onde ela era feita? Não se sabe direito. Há quem diga que como a Grassi fazia os ônibus da CMTC, ela pode ter sido montada na garagem da empresa municipal de transportes. Algo ainda a ser apurado. É um dos mistérios da Saci.

– Não há peças de Saci à venda por aí. Essa vermelha e branca foi comprada pelo proprietário, há muitos anos, de um museu ferroviário. Estava quase completa. A cor foi descoberta quando a lataria foi raspada. Detalhe interessante na lateral: frisos de alumínio iguais aos que a Grassi usava para decorar seus ônibus. O escapamento era composto por um silencioso de algum carro de época cortado no meio.

– A Saci não deu muito certo. É provável que a Grassi tenha trazido um lote de uns 300 motores da Alemanha, e quando eles terminaram, a fabricação acabou também. Era uma motoneta artesanal, de montagem demorada, sem escala de produção. E cara. As Lambrettas eram mais baratas e bem melhores.

– O design, que lembra a Enterprise de “Jornada nas Estrelas”, foi possivelmente inspirado em um modelo belga, mas há poucas referências e nenhuma informação clara sobre isso. “Nunca vi nada parecido”, diz Osmani.

Pois essa é a misteriosa Saci. Uma das coisas mais lindas jamais construídas sobre duas rodas. Quando a gente acha que já sabe tudo, eis que aparece uma novidade do passado. Adoro essas histórias.

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