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terça-feira, 25 de março de 2014 - 19:28Lambretta & cia., Motoland

A MISTERIOSA SACI

SÃO PAULO (de babar) – No fim dos anos 50 e início dos anos 60, a Grassi, tradicionalíssima fabricante de carrocerias de ônibus, arriscou uma motoneta com mecânica Sachs. Saiu essa obra de arte, batizada de Saci. Sabe-se pouco dela, e quem mais sabe é o Osmani, dono da Lambretta D’Época, o maior restaurador de motonetas do mundo. O trabalho que esse rapaz faz é inacreditável. Ninguém no planeta conhece tanto de Lambrettas, Vespas & similares, Sacis incluídos. Ou incluídas, no caso.

E é incrível que não tem nada, nada na internet sobre ela. Um tremendo mistério, mas conversei com o Osmani e eis o que se pode afirmar sobre o brinquedinho:

– O motor era alemão, Sachs de 175 cc de cilindrada, aparentemente o mesmo dos pequenos Messerschmitt, dois tempos. Pelo que o Osmani descobriu, os motores trazidos pela Grassi foram de um lote fabricado em 1959. E as motonetas foram feitas, provavelmente, apenas em 1960.

– Os pneus eram 4:50 aro 10, Pirelli, possivelmente fabricados especificamente para a Saci. Parecidos com os das Romi-Isettas, mas mais gorduchos.

– Quantas foram feitas? Não há dados muito precisos. O número de chassi mais alto que o Osmani encontrou estava ali pelo número 290. 300? 400? Who knows?

– A Saci era muito ruim de dirigir. A ciclística era horrível. A motoneta não tinha amortecedores, e tanto na frente, quanto atrás, coxins de borracha faziam o papel da suspensão. “Rabo-duro e frente-dura”, diz o Osmani.

– O câmbio tinha quatro marchas, numa pequena pedaleira no lado esquerdo do assoalho. Detalhe: a primeira era para baixo, e tinha de ser engatada com a ponta do pé. Segunda, terceira e quarta eram engatadas com o calcanhar, para baixo. Entre todas as marchas havia um ponto morto, que podia ser acionado por um botão no painel. Um botão, digamos, de desengate rápido. O sujeito chegava num semáforo, e não tinha de ficar procurando o ponto morto com o pé. Desengatava com o botão no painel e depois ia procurar a primeira para sair do lugar.

– Na foto do painel, o botão preto da esquerda liga e desliga parte elétrica. Originalmente era uma chave de ônibus igual às que a Grassi usava nos painéis dos coletivos. O segundo é o do ponto morto. O pretinho do meio corta o motor. O outro é o afogador.

– Reparem no acabamento. Tem “Grassi” no fundo do velocímetro, na buzina, no farol. No tanque, debaixo do banco, está estampado: “Motoneta Grassi – São Paulo”.

– Osmani tem um folheto promocional com um desenho chamando a atenção para a autonomia da Saci. Ele mostra, de um lado, o prédio do Banespa e, do outro, o morro da Urca, no Rio. “Você consegue fazer 600 km com um tanque”, informa a peça. O tanque da Saci tinha capacidade para 12 litros de gasolina! Uma Lambretta LD, para comparar, levava 5.

– Onde ela era feita? Não se sabe direito. Há quem diga que como a Grassi fazia os ônibus da CMTC, ela pode ter sido montada na garagem da empresa municipal de transportes. Algo ainda a ser apurado. É um dos mistérios da Saci.

– Não há peças de Saci à venda por aí. Essa vermelha e branca foi comprada pelo proprietário, há muitos anos, de um museu ferroviário. Estava quase completa. A cor foi descoberta quando a lataria foi raspada. Detalhe interessante na lateral: frisos de alumínio iguais aos que a Grassi usava para decorar seus ônibus. O escapamento era composto por um silencioso de algum carro de época cortado no meio.

– A Saci não deu muito certo. É provável que a Grassi tenha trazido um lote de uns 300 motores da Alemanha, e quando eles terminaram, a fabricação acabou também. Era uma motoneta artesanal, de montagem demorada, sem escala de produção. E cara. As Lambrettas eram mais baratas e bem melhores.

– O design, que lembra a Enterprise de “Jornada nas Estrelas”, foi possivelmente inspirado em um modelo belga, mas há poucas referências e nenhuma informação clara sobre isso. “Nunca vi nada parecido”, diz Osmani.

Pois essa é a misteriosa Saci. Uma das coisas mais lindas jamais construídas sobre duas rodas. Quando a gente acha que já sabe tudo, eis que aparece uma novidade do passado. Adoro essas histórias.

18 comentários

  1. ROBERTO C GABARRA disse:

    Olá amigos. Também tenho uma Saci. Ficou abandonada no tempomais de 30 anos. Eu mesmo restaurei. Não tinha um ponto de ferrugem sequer. Está 98 % original. Só tive que refazer uma pequena parte do cano de escapamento. Tenho também o manual.. Tenho ainda Vespas e Lambrettas. Agora estou a procura de uma ISO e uma CEZETA. Se alguem souber, por favor entre em contato. Tambem posso conversar sobre a Saci, mas não vendo nem tenho interesse em outra. Em tempo: a minha está fucionando bem.

  2. MARCO ANTONIO GARCIA disse:

    Gostaria de responder para o Eduardo, mas infelizmente não há o campo resposta abaixo do nome dele.

    Também tenho uma Saci que o Osmani está terminando de restaurar. Nunca ouvi falar sobre o nome dela ser Viking, o que inclusive acho bem estranho para uma motoneta brasileira, e, além disse, está escrito Saci no emblema dela e em propagandas de época.

    Sei que M1 é uma especificação técnica dela, mas Viking é novidade, então Eduardo, se você ler este comentário e puder entrar em contato comigo agradeço, nunca vi o manual dela e talvez haja este nome nele (foi por meio do manual que você soube que ela se chama Viking?) e se tiver interesse em vender a sua Saci, conheço quem tem interesse em comprá-la e, eu mesmo, tenho interesse em comprar uma cópia do seu manual, se você se dispor a copiá-lo e vender uma cópia.

    Meu email é: [email protected]

  3. Wesley disse:

    Amigos eu tenho uma dessa saci para vender, precisa de reforma, se tiver algum interessado entre em contato comigo.

  4. Paulo Sérgio disse:

    Já tive uma lá no final dos anos 60, isto é em 1969 e tenho muitas saudades da gorduxinha, pois era o apelido que dei pra ela, apesar de ser uma motoneta pesada e só com 175cc andava até que razuável apesar de eu ser leve demais pois só tinha 16 anos. Se eu souber de alguma irei compra-la mesmo sabendo que terei de fazer a maioriadas peças, se alguém souber de alguma me mande um email [email protected], um muito obrigado e um abração a todos

  5. Boa ou ruim, a Saci era uma parte da evolução de nossa indústria e merece total respeito nosso. Além disso, ela é muito bonita!

  6. Rogerio disse:

    Cara, sou apaixonado por motos desde sempre e nunca tinha ouvido falar nessa….

    Tudo bem, acho que deve ter muitooo mais coisa das quais nunca ouvi falar no mundo das motos, Mas essa foi muito surpreendente pela beleza desta motoneta…..

    Vamos ver se alguém passa mais informações.

  7. Luciano M disse:

    Não sou chegado em motos. Mas quando me deparo com uma lambretta ou uma vespa dessa época, tiro meu chapéu. Realmente Flavio, concordo com você, obra de arte. E as escolha das cores foi perfeita ! Linda demais !

  8. Carlone Papa disse:

    Tem coisas que.. só aqui.
    Linda de morrer e eu nunca tinha ouvido falar, apesar de já ter feito uma matéria sobre o assunto.
    Valeu mesmo.

  9. sr. X disse:

    Essa nunca ouvi falar…

    será q a shineray copiou?

  10. Eugenio Chiti disse:

    Há alguns anos quase comprei uma, para restaurar, em SP. Depois mando as fotos.

  11. Breno Peixoto disse:

    A turma do mountain bike costuma utilizar os termos “rabo-duro” e “queixo-duro”.

  12. Sensacional. Ele me contou uma parte dessa história uma vez, mas já tinha esquecido de tudo. Aliás, a Sachs é salvadora de muita motoneta, incluindo a proto-Vespa, entre 1945 e 46. Bela postagem!

  13. Romeu Nardini disse:

    Que história!!! Nunca soube dessa “aventura” da Grassi. Nem de ouvir falar. Mas o Osmani, tem muitas informações importantes, talvez as únicas. Se existir alguém da “Velha Guarda”, lá na chamada “esquina do veneno” (Rua Gal. Osório x Barão de Limeira) talvez tenha mais informações.
    Parabens pelo belo e curioso achado.

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